terça-feira, 21 de abril de 2009

Avatar FiliPêra

The Fall

 

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Um filme, teoricamente, é um grande emaranhado de coisas e elementos que devem estar em equilíbrio para funcionar. É como uma banqueta, ou uma cadeira: caso uma das pernas seja maior – ou menor – que as demais, a coisa vira e se espatifa no chão. Tudo isso na teoria. Às vezes um desses elementos se destaca tanto, e com tanta intensidade, que nos faz relevar o resto que não passa de mediano. Pode ser um final arrebatador e completamente inesperado (Sexto Sentido, alguém?), a forte carga emocional envolvida (Sobre Meninos e Lobos), ou ainda a atuação do elenco ou de um ator em especial (As Horas).

The Fall (Dublê de Anjo aqui no Brasil, país esse que só recebeu o filme três anos depois de seu lançamento) é um filme que se encaixa nessa descrição. Ele vai ficar impresso na sua cabeça por um certo tempo não por possuir um roteiro complexo e recheado de reviravoltas, ou atuações dignas de De Niro nos tempos do auge. O motivo para isso é simplesmente seu detalhado e belo apuro audiovisual – justamente o que mais diferencia o cinema das outras artes. O espetáculo que o diretor Tarsem Singh coloca na tela é absurdamente bonito e intrigante, abusando de cores vivas e cenários grandiosos. Não por acaso ele é o diretor de A Cela – e do clipe clássico Losing My Religion, do R.E.M. Pense em The Fall como um novo A Cela, mas sem psicopatas e experimentos mentais modernos. Ao invés desse clima pesado, agora o diretor usa uma fábula infantil. e aparentemente inocente. para nos contar uma história sobre amores perdidos, apego ao passado e derrotas. E superação!

A história é simples, mas cativante. Roy, um ator, está acamado em um hospital na Los Angeles dos anos 20. Lá ele conhece a hiperativa garotinha Alexandria. Como ele precisa dela para conseguir morfina, ele passa a contar histórias. Alexandria é infantil (ao contrário das novas atrizes de pouca idade de Hollywood), quase abobada, e está no hospital se recuperando de uma fratura no braço conseguida ao cair de uma árvore. Já Roy está lá graças a um ferimento que conseguiu durante as filmagens de um longa. As histórias de Roy são belas, um contraponto para o mundo amargo e depressivo que ele está vivendo inserido no momento. Mas, aos poucos, o universo fantástico criado por ele começa a ganhar tons crepúsculos, cada vez mais envenenados pelas emoções de seu narrador.

 

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E é justamente nessa mistura de realidade frente à fantasia é que se encontra o maior mérito do roteiro de The Fall. As interferências de Roy em seu mundo me lembraram uma passagem de Sin City: Inferno, quando seu protagonista passa a enxergar o mundo sob um olhar lisérgico, fruto dos entorpecentes dados a ele forçadamente. Porém, em Inferno, Frank Miller usou os delírios dele para avançar na narrativa de sua história, ao contrário do usual no mundo das artes, quando tudo termina na clássica cena do personagem acordando suado e assustado, porém aliviado. O mesmo ocorre em diversos momentos de The Fall. E em certo ponto do filme, principalmente na ceifa de personagens do terço final, ele deixa de ser infantil, ganhando uma camada dramática forte e contornos de uma das obras-primas de David Lynch: Cidade dos Sonhos.

Porém, apesar desses méritos literários, realmente o destaque do filme é, indiscutivelmente, seu visual. O fato de ter assumidamente o tom de uma fábula (que me lembrou O Mágico de Oz) dá ao diretor a liberdade necessária para realmente fazer o que bem entender visualmente falando (a mente de um psicopata dava a mesma liberdade, mas num tom diferente). São cavaleiros medievais, lagos no meio do deserto, vilões maléficos, e todas essas coisas necessárias para se ganhar a confiança de uma criança e fazer com que ela pegue drogas para você. É como um El Topo, obra-prima de Alejandro Jodorowski, porém menos decadente e adulto, bem menos complexo. Mas, ao contrário do filme de Jodorowski, sai um caubói justiceiro errante e entra um trupe de habilidosos – e internamente medrosos – senhores, que estão a procura do manjado vilão, cuja morte sela todos os problemas da trama.

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Claro que, com filmes fantásticos como O Labirinto do Fauno, hoje mostrando que a fantasia pode ser adulta ao extremo, é fácil olhar obras mais “puras” como The Fall com certo desdém, pois ela trata o gênero como algo quase infantil ao servir como válvula de escape para seu idealizador (no caso desse filme: Roy). Mas é inegável sua qualidade e beleza. Esses elementos não fazem de The Fall um filme obrigatório, daqueles que mudam sua vida, mas com certeza torna-o uma daquelas pequenas jóias que passam despercebidas por aí, mas que, com certeza merecem ser vistas, principalmente por causa de sua rara beleza.

Assista!

 

The Fall (EUA, 2006)

Diretor: Tarsem Singh

Duração: 117 min

Nota: 8,0

2 Comentaram...

Anônimo disse...

ddd

Violety disse...

Fantástico esse filme!
Vale muito, muito a pena assistir.
Obrigada pela dica :)

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