quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Avatar Voz do Além

O Wikileaks ganha mais uma…

 

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Em junho, Bradley Manning foi preso acusado de vazar dezenas de milhares de documentos secretos do Departamento de Estado americano para o Wikileaks. Toda a operação de prisão aparentemente envolveu traições e delações por parte de Adrian Lamo e Kevin Poulsen, dois amigos hackers e jornalistas. Os detalhes dessa ação permanecem às escuras, mas uma gama de boatos e informações não-confirmadas surgiu, inclusive uma que dizia que Manning era transexual. Depois de um mês, os tais milhares de documentos - principal motivo da prisão do analista - não haviam aparecido ainda. Bom, não haviam…

Domingo (25/07) os documentos apareceram pomposamente  - na verdade, há controvérsias que sejam realmente esses, já que os documentos que os EUA disseram que foram vazados pertencem ao Departamento de Estado e envolvem menos militares do que as páginas que apareceram aí -  no site da organização e em três veículos que haviam sido selecionados com um mês de antecedência pela instituição para fazer uma interpretação da montanha de dados que são os documentos - ao todo são 91 mil documentos e mais de 200 mil páginas, abrangendo operações no Afeganistão no período de 2004 a 2009. A idéia era envolver a mídia na função de processamento dessas informações e torna-las palpável para o público em geral, afinal, nem 1% da população teria paciência e tempo disponível para destrincha-las por completo. Compondo o trio estava o New York Times, o Guardian e a revista alemã Der Spiegel. O grosso dos dados expostos contém informações sobre mortes de civis não-divulgadas e outras supostas motivações que levaram os EUA ao Afeganistão.

Os documentos surgem em boa hora. A Guerra do Afeganistão já é a maior operação militar oficial da história dos EUA, já consumiu mais de 300 bilhões de dólares e o Talibã continua forte como nunca em diversas regiões. Nas páginas dos documentos são relatadas informações interessantes, como o suposto apoio do Paquistão ao regime Talibã, o que mostra um triângulo amoroso/odioso extremamente hilário, que mais se aproxima de uma suruba: os EUA dão dinheiro para o Paquistão e fazem vista grossa a sua ditadura militar (com Saddam não teve vista grossa, né, Tio Sam?!) paquistanesa em troca do uso do território do país, enquanto esses apóiam e financiam o Talibã - e grupos terroristas da Caxemira. Lindo, não?!

Também é possível constatar que a sujeira das operações está atingindo níveis altos. Os militares - mais burocráticos e cheio de normas - estão cada vez mais dando lugar para o segundo escalão dos operários de guerra americanos: CIA e Mercenários (não são os comandados por Stallone) estão assumindo vários aspectos dos esforços de guerra americanos, e eles são completamente livres de tribunais, podem agir sem medo do futuro. Outro ponto interessante são as armas usadas pelo Talibã e por outros grupos anti-ocupação: boa parte delas é oriunda dos próprios EUA, que encheram o Afeganistão de armamentos na década de 80, quando os soviéticos entraram no país.

Também houve (e há) bastante contra-informação, e as chamadas Operações Psicológicas, entre os esforços de guerra norte-americanos. Rádios e outros veículos de comunicação afegãos só veiculam programas produzidos pelos EUA, enquanto os jornalistas do país são tratados como integrantes da imprensa oficial americana, se limitando a retransmitir tudo que Obama passa a frente.

Mas existem alguns não-pagos pelos EUA que se manifestaram. É o caso de dois blogueiros do país, que escreveram o seguinte:

 

Uma das principais questões reveladas nessas 90 mil páginas de documentos é o claro apoio do Paquistão ao Talibã. De acordo com estes documentos, o Paquistão tem laços muito estreitos com os talibãs e apóia os grupos extremistas como o Jalaluddin Haqqani. Os documentos que vazaram mencionam que o serviço de inteligência do Paquistão providenciou 1000 motocicletas para o grupo Haqqani, em abril de 2007. O relatório também fala sobre o apoio do Irã ao Talibã e as morte de civis que não foram relatadas. (Syed Akramoldin Taheri, no blog Isteqlal)

As 90 mil páginas de relatórios que vazaram mostram o apoio do Paquistão ao Talibã, o assassinato de civis, e a conspiração para matar líderes do Afeganistão, é provavelmente um dos mais originais acontecimentos de segurança/políticos da história recente. Parece que além do teatro político e militar no Afeganistão, outros cenários foram escritos … o povo afegão têm lutado com esses cenários nas últimas três décadas, e o resultado foi a morte e privação de milhões de pessoas. (Mahmoud Hakimi, no blog Tabarghanak)

Outro blogueiro - Nasim Fekrat, do AfghanLord - ainda comentou sobre o porquê da reação dos blogueiros e jornalistas afegãos ter sido aparentemente tão morna:

 

Todas as coisas [reunidas] no Wikileaks são uma questão tão evidente aqui [no Afeganistão] e as pessoas estão lidando com isso todos os dias. Eles sabem o que está acontecendo no local. Não parecem  arquivos secretos de inteligência reunidos para eles, como parece para o Oeste. Não faz sentido para eles.

A reação dos EUA foi exatamente como se esperava: o porta-voz da Casa Branca declarou que os documentos são uma ameaça a segurança nacional, e convocou Julian Assange, a cara mais conhecida entre os fundadores do site, além de ativista da liberdade e transparência nas informações governamentais; para um assassinato interrogatório. Manning também continua preso no Kuait, ainda sem provas o incriminando.

Pelo visto, não é assim que o Tio Sam aprende a lição. Prefere calar o denunciante do que admitir os próprios erros - mesmo que os vá cometer novamente cinco minutos depois do perdão.

 

[Via Guardian, Boing Boing, Tiago Dória, Global Voices e New York Times]

2 Comentaram...

keculango disse...

É incrível como os EUA conseguem cometer tantos erros,um,depois do outro,após se redimirem elegendo Obama,deixam vazar documentos,provando erros,ainda piores do que eleger o Bush(tanto pai quanto filho).
felipeboemio@hotmail.com

Thiago Luiz disse...

Gostaria de saber como baixar esses documentos completos?

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