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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Avatar Colaborador Nerd

Evangelização é mesmo importante na mídia?

Por Carla Cavalcante

 

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A moda da atualidade é exposição de propagandas e programas de doutrinação na mídia, principalmente na televisão. Eles são basicamente de duas vertentes religiosas: a protestante e a católica, com o primeiro grupo representado pelas igrejas evangélicas neopentecostais.

Ao invés dos meios de comunicação serem ocupados com informações que agregam conhecimento a sociedade, eles são ocupados com doutrinação religiosa. A meu ver a mídia não deveria abrir espaço para religião em sua programação diária, que não sofre nenhum tipo de fiscalização, para saber se ferem os direitos humanos ou outras religiões.

Infelizmente, a desculpa dos manipuladores de fiéis é, na maioria das vezes, a mesma: o mundo atual esta perdido, nossos jovens estão sem rumo, vazios de Deus e fé. Todos têm o livre arbítrio e caso alguém sinta vontade de buscar “Deus” opções de igrejas não vão faltar e o local ideal para a exibição de idéias religiosas é em qualquer lugar, menos nos veículos de comunicação.

Pessoas a favor da religião na TV e nos outros veículos destinados a informação e entretenimento vão dizer que todos têm algo no cérebro chamado filtro, apto para passar todo conteúdo divulgado em uma peneira e ficar só com o que é bom. Mas não podemos esquecer as crianças, que ainda não desenvolveram esse filtro e não tem uma mentalidade formada capaz de saber o que é bom ou ruim.

Que a igreja católica e a maioria das religiões são contra o sexo antes do casamento a grande maioria já sabe, até aí tudo bem. Mas desse ponto em diante abrir seu jornal pela manhã, ou ligar a TV e ver declarações vindas diretamente do Vaticano que o Papa é contra o uso da camisinha, seja para evitar filhos ou doenças sexualmente transmissíveis, dentre elas o vírus HIV, já é inadmissível. Vivemos em uma sociedade onde adolescentes na idade de 15 anos engravidam, para um líder religioso dar esse tipo de declaração.

Em uma noticia publicada no jornal Folha de S. Paulo saiu a declaração do Papa sobre o uso da camisinha e a forma que ele acha mais adequada para evitar o vírus da AIDS. Segundo o papa, a AIDS se vence com “uma humanização da sexualidade, uma renovação espiritual humana que comporta uma nova forma de conduta de uns com outros e por meio da amizade, disponibilidade e amor pelos doentes”.

Seria muito interessante se a cura ou a luta para não adquirir o vírus da AIDS funcionassem apenas com humanização e a amizade, isso seria lindo se não estivéssemos na realidade do século XXI. Onde existem aproximadamente no mundo todo 33,4 milhões de pessoas infectadas pelo vírus do HIV, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), matéria publicada em 2010 na revista Exame, da editora Abril.

Pois é, eu sou contra esse tipo declaração em todos os lugares, principalmente na mídia, exposta pelos padres que seguem fielmente as leis do Vaticano vindas diretamente da cabeça do Papa, e isso é só a ponta do iceberg da evangelização nos meios de comunicação. Não podemos esquecer as diversas cenas de preconceito, principalmente contra as religiões afro-brasileiras, vindas tanto de católicos, quanto de protestantes.

A mais conhecida delas foi o episódios conhecido como “Chute na Santa”, em 12 de outubro de 1995, quando o bispo Sérgio Von Helder, no programa “O Despertar da Fé, da Rede Record, chutou e xingou uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. O episódio vergonhoso teve repercussão internacional e acabou por influenciar em diversos conflitos entre igrejas neopentecostais e integrantes de cultos afro-brasileiras e a Igreja Católica.

São casos como esse que mostram como a doutrinação e evangelização são nocivas aos princípios que regem as concessões a rádio e TV. Mesmo em programas que não têm foco nas religiões ocorrem esse tipo de discriminação, como em episódios em que o apresentador Datena disse que “os ateus são criminosos”, o que denota uma lamentável incitação ao preconceito e ao ódio.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Avatar Felipe

A nova encarnação dos Thundercats

 

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Na semana passada eu assisti aos dois primeiros episódios da nova animação dos Thundercats e fiquei realmente empolgado. Porém, antes de escrever sobre as minhas primeiras impressões, resolvi assistir mais um episódio pra ver ser iria manter a qualidade dos primeiros. E, que me desculpem os saudosistas, mas após três capítulos eu já acho que esse remake tem tudo para ser muito melhor que a série original. Para se ter uma idéia, o Snarf não fala nessa nova série, o máximo que ele faz é ficar repetindo o próprio nome.

Essa nova animação já começa interessante por não tentar repetir o que foi feito na original da década de 1980, quando os Thundercats viviam no Terceiro Mundo e apenas mencionavam seu planeta de origem, Thundera. Aqui, nós somos apresentados ao passado de Thundera... ou seria o futuro do Terceiro Mundo? Posso até estar enganado, mas pelo que foi mostrado nos primeiros episódios, o novo Thundercats revela justamente o futuro dos personagens originais, vários anos depois que a guerra com Mumm-Ra acabou.

Logo no começo do primeiro episódio, uma narração diz que são dias de paz na Terceira Terra e que o império dos gatos conseguiu ser mais forte que todos os outros, incluindo a raça dos répteis. Além disso, a tecnologia é mostrada como algo muito antigo e que foi esquecido por todos. Mais um indício que me faz acreditar que a série se passa muitos anos no futuro.

É interessante que esse novo Thundercats não tenta mostrar todos os gatos como grandes heróis que protegem o planeta. Pelo contrário, Claudus, pai de Lion-O, governa com mão de ferro e todos os répteis são tratados como lixo pela sociedade. Até que, com a ajuda de Mumm-Ra (por enquanto, apenas em sua forma decadente), eles conseguem tecnologia suficiente para atacar os gatos, que contam apenas com armas brancas e alguns poucos clérigos que lançam feitiços, entre eles o velho Jaga.

A partir daí, a história segue Lion-O se tornando líder dos gatos ao empunhar a Espada Justiceira e tendo que buscar o tal Livro dos Presságios, que contém respostas que podem ajudar a derrotar Mumm-Ra. Junto com ele, vão Tygra (irmão mais velho de Lion-O) e Cheetara, que é uma clériga a serviço de Jaga.

E falando nos personagens, eles estão muito mais interessantes nessa nova versão. Lion-O, por exemplo é um jovem rei impulsivo, que não tem maturidade para governar, mas se vê obrigado a isso. Além disso, ele e Tygra nutrem uma rivalidade um pelo outro. Lion-O é o rei por direito, enquanto Tygra é o mais habilidoso dos dois, o que gera ciúmes de ambos os lados. Por enquanto, os dois foram os mais trabalhados, mas Cheetara sendo uma clériga também tem potencial para boas histórias. Sem falar em WilyKit e WilyKat, que são dois órfãos cuja única opção é seguir Lion-O após a capital de Thundera ser dominada pelos répteis.

Graças ao som original em inglês, após mais de 20 anos chamando a Espada Justiceira de Espada Justiceira, descubro que o nome original dela é Espada dos Presságios (Sword of Omens). E esse nome faz ainda mais sentido nessa nova série, já que ela permite que Lion-O enxergue o futuro. Se não me engano, na série original, ela só mostrava algum Thundercat que estivesse em perigo.

 

Com apenas três episódios lançados até agora, eu acho que esse novo Thundercats tem bastante potencial. Principalmente porque ainda falta mostrar o que aconteceu com Panthro, fora que Mumm-Ra até agora não abandonou sua forma decadente. Além disso, fiquei bastante curioso para saber se o desenho se passa no futuro mesmo ou se é tudo viagem da minha cabeça. Pra quem gostava dos Thundercats que eram reprisados infinitamente pela Globo nos anos 80/90, fica aí a dica dessa nova animação.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Avatar FiliPêra

Quando novela da Globo começa a plagiar Watchmen é hora de sentir (muita) vergonha

 

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Alguns chamaram de referência, inspiração, tarantinização, ou qualquer coisa similar, mas Eu chamo de plágio mesmo. E de uma forma ridícula, pois se assemelha a peça que os aposentados realizam na minha rua querer ser igual a O Senhor dos Anéis. Não rola e ponto. Na tal cena que a novela O Astro (novela das 11h, deve ser coisa de alguém da emissora querendo “inovar”) plagia Watchmen, o personagem Salomão Hayalla é assassinado e, assim como o Comediante, é lançado janela afora.

Por que achei a cena tão ruim? É por causa da merda do botão. Se em Watchmen surge o botton do Comediante manchado de sangue - que se tornaria um símbolo de anti-vigilantismo posteriormente -, na novela surge um… botão. Um descompromissado botão de camisa que não serve pra nada, a não ser plagiar a cena de forma grotesca e primária. Se ao menos o diretor fizesse surgir alguma coisa importante em cena, creio que a cena ficaria menos tosca e deslocada, mas não creio que foi o caso.

Creio ser essa a maior diferença de plagiador pra “referenciador”.

O diretor da novela, Mauro Mendonça Filho, se defendeu em uma entrevista para o jornalista Mauricio Stycer, do UOL.

Existe uma enorme cadeia de referências, que vão se repetindo, às vezes invisíveis, às vezes não, em todo o audiovisual. É lógico, que sim. Não tenho o menor problema em dizer isso. Acho uma baita hipocrisia essa patrulha da originalidade. E na escrita, o mesmo. Você percebe o estilo de Moliére em Ariano Suassuna. Qual jornalista pop não bebeu em Hunter Thompson? O aclamado “Kill Bill” (de Quentin Tarantino), que é um baita filme. É todo igual ao origianl do Bruce Lee. Até o macacão amarelo é igual.

 

E que comecem os discursos de “anti-nacionalismo”, “estrangeirismo”, e tudo o mais! Outro dia, comento melhor o que acho das diferenças entre plágio vs referência!

PS: se o botão da cena tiver alguma importância a mais na novela, avisem nos comentários!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Avatar FiliPêra

100 Balas ganhará para TV americana

 

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Quem já leu 100 Balas sabe que é foda. Não é a melhor coisa que a Vertigo  já fez (difícil dizer o que é o melhor que a Vertigo já pariu), mas com certeza é uma série policial de primeira, com muita conspiração, gente da pior espécie, e uma trama noir bem intrincada. A série, escrita por Brian Azzarelo, com arte de primeira de Eduardo Risso, foi concluída em 2009 nos EUA, no número 100 (li até o número 32, se não estou enganado) e agora chegará as TVs americanas.

A produção e roteirização será do competente David Goyer, que roteirizou Blade (dirigiu o terceiro, inclusive… bem ruinzinho) e O Cavaleiro das Trevas. A outra boa notícia é que o canal Showtime está por trás de tudo, e como eles também comandam Dexter e Borgias, creio que vem coisa boa por aí.

Pra quem não saca, 100 Balas conta a história do Agente Graves, que escolhe a dedo pessoas que se lascaram na vida e entrega a elas uma maleta indicando quem foi a pessoa que as meteu na merda, com provas incontestáveis disso, e 100 balas irrastreáveis pela polícia. Mas, o que parecia ser somente uma pessoa fazendo justiça, se revela uma teia de conspirações loucas e intrincadas. Vale muito a leitura!

 

[Via Judão]

terça-feira, 21 de junho de 2011

Avatar FiliPêra

Um lento adeus às televisões nos EUA…

 

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Joe Raedle / Getty Images

Vamos direto à “bomba”: pela primeira vez em 20 anos, o número de casas norte-americanas que possuem TV diminuiu - e diminuiu consideravelmente. Ano passado, 98,9% dos lares dos EUA possuíam uma TV, enquanto esse ano o número passou para 96,7%. Segundo a Nielsen, que divulgou esses números - prioritariamente para anunciantes -, duas razões podem ser apontadas como primordiais para essa queda.

Uma é a pobreza cada vez mais real dos EUA, o que obriga a famílias de baixa renda a adotarem “soluções mais baratas” (Eu diria assistir a uma peça teatral, mas teatro é mais caro que TV), como a continuidade do uso de TVs analógicas, praticamente abolidas dos EUA após 2009; e o advento de novas tecnologias, que levou toda uma geração de jovens a assistir seus programas favoritos via Internet.

Claro que a questão vai além da pura estatística. É preciso redefinir o conceito de TV doméstica, e torna-la um formato de programação e não um aparelho em si, como fica patente em hardwares que são híbridos de TV e monitores de computador.

"Nós temos tido conversas com os clientes", disse Pat McDonough, vice-presidente sênior de insights e análise da Nielsen. "Isso seria uma grande mudança para esta indústria, e nós estaríamos fazendo isso, em consulta com os clientes".

Porém, mesmo com essa migração para a internet, a Nielsen admite que um número cada vez maior de americanos simplesmente está abandonando as TVs, seja por motivos financeiros ou simplesmente por estilo de vida. Aliás, “motivos financeiros” é uma espécie de desculpa da empresa para explicar a diminuição de audiência geral das redes de TV americanas, como ela fez quando houve queda em 1992, graças a “recessão financeira”.

"São pessoas na parte inferior do espectro econômico (…)”, argumenta McDonough ao declarar qual é o público que não vê mais TV. Segundo ele, os que não querem mais saber de TV “vivem em áreas rurais e não têm acesso a internet, em sua maioria”, o que me parece um discurso pra agradar anunciantes.

A Nielsen parece otimista, mesmo com uma diminuição brusca dessa envergadura, mas é certo que o reinado das TVs lentamente vai enfraquecendo, até o dia em que televisões gigantes só servirão pra ver Blu-Rays, jogar videogame e veicular conteúdo Full HD de uma estação de mídia caseira.

 

Enquanto isso, no Brasil… Globo e Record travam uma briga imbecil com mais acusações, dessa vez envolvendo dirigentes de futebol, tudo graças a vitória da Globo (de novo) pela transmissão exclusiva do Campeonato Brasileiro.

 

[Via NY Times]

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Avatar FiliPêra

Steve Jobs é ‘tio espiritual’ de Homer Simpson

 

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O fato é estranho, mas é verossímil.

Como talvez vocês saibam (não era meu caso), Steve Jobs foi colocado pra adoção, sendo seus verdadeiros pais Joanne Carole Schieble e Abdulfattah Jandali, que não eram casados na época e acharam que não conseguiriam criar o filho. Anos mais tarde, já casados, eles tiveram outra criança, Mona Jandali. Mas, Adbulfattah se separou da família quando Mona tinha cinco anos, Joane casou de novo e a filha (Mona) decidiu usar o sobrenome do padrasto, Simpson.

Quando mais velha, Mona cresceu e tornou-se uma escritora de sucesso, com vários romances lançados. Nos anos 1980, ela se casou com Richard Appel, também escritor e produtor que trabalhou no seriado Os Simpsons, batizando a mãe de Homer com o nome da esposa.

Resumindo: Steve Jobs é o irmão biológico da inspiração da mãe de Homer. Ou, o tio dele - em outra categoria de realidade.

Pode falar agora que esse é o post com a cultura inútil mais divertida que já fizemos.

 

[Via Cult of Mac]

terça-feira, 22 de março de 2011

Avatar FiliPêra

A série de Sandman e a chatice da boataria nos sites de notícias

 

Sandman

Já escrevi como odeio a indústria da boataria que se instalou na imprensa “cultural” - e como odeio mais ainda os fãs que vão nessa onda de hype exacerbado e mercantilista. Às vezes, as notícias saem de tal forma que é difícil não imaginar que a escrita delas não tenha sido orquestrada pela produtora noticiada (isso me lembra que ainda não escrevi nada sobre minha péssima experiência como assessor de imprensa e como não considero a profissão “fazer jornalismo”. Um dia escrevo). E foi algo assim que pensei quando li novas sobre a série de Sandman para a TV - um vaporware no nível de Duke Nukem Forever.

Em setembro passado uma notícia afirmou que Eric Kripke, criador de Supernatural, foi escalado para produzir a chegada de Lorde Morpheus às telas pequenas… mas, em entrevista que deu na semana passada afirmou que a produção não tava rolando.

 

“Infelizmente, por um monte de motivos variados, Sandman não está em produção, pelo menos para esta temporada. [...] Não foi por culpa de ninguém que não aconteceu nesta temporada e espero que possamos fazê-lo no futuro”

Ele complementou que havia conversado com Gaiman, comentou que se amarra no material, e essas coisas pra acalmar nossos nervos e nos fazer desistir da idéia de esperar uma merda homérica. E convenhamos, com o tom certo e gente talentosa, Sandman pode ser um marco histórico na TV americana - ou uma bomba histórica, porque a complexidade da trama tá num nível estratosférico, e não algo pronto pra TV no estilo The Walking Dead.

E com essa declaração o assunto morreu, alguns choraram, outros comemoraram… ATÉ QUE, um dos homens fortes da DC Entertaiment (minha editora preferida, para quem não sabe), Geoff Johns, resolveu usar o Twitter para “desmentir” a declaração de Kripke e mandou essa:

 

Correção para o mundo: The Sandman está acordado! :) Estou emocionado por trabalhar com @neilhimself  [Neil Gaiman] no desenvolvimento de uma das melhores séries ever!

Os que choraram agora riram, e os que riram agora choraram…

A interpretação desse lance pode ser feita por dois ângulos: chutaram a bunda do Kripke e ele continua achando que tá tocando a série, ou ele continua na série, mas Johns achou por bem não esfriar os ânimos do pessoal, até porque se olharmos as declarações dos dois e conflitarmos, perceberemos que uma não desmente a outra. Kripke disse que está conversando com Gaiman, e Johns falou o mesmo… só estava mais animado. Só acho que foi uma questão de querer manter o nome de Sandman e da Warner na mídia.

Bom, espero que a série seja boa, caso veja a luz do dia. Não vou pagar aqui de fã chato e torcer contra a adaptação, apesar de achar que algo assim não dará certo, definitivamente.

 

[Via emQuadrinho e Judão]

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Avatar FiliPêra

Heavy Metal na TV… comemorem

 

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Quem é um pouco mais velho e tem queda por histórias de fantasia e ficção científica, com toda a certeza já leu alguma coisa da série Heavy Metal. Violência, pornografia e arte arrojada era rotina na série surgida na França, com o nome Métal Hurlant, e levada pros EUA pelo editor Leonard Mogel. Moebius foi um dos fundadores da revista, que também teve em suas páginas a ultraviolência cult de Ranxerox, assinada por Tanino Liberatore, por exemplo. Se nunca leu, corra atrás e seja uma pessoa mais feliz - só reiterando, caso não tenha entendido: é leitura pra adultos!

Pois bem, está em produção (o título do post deveria ser Métal Hurlant na TV, mas aí ninguém entenderia) pela We Prods. e pela United Humanoids, a série Métal Hurlant Chronicles, adaptando todas as histórias que saíram no título francês. Da mesma forma que nos quadrinhos, os episódios da série - com meia hora cada - serão formados por duas histórias sem qualquer ligação entre si, tudo em inglês e francês e seguindo a risca histórias publicadas na Métal Hurlant.

A venda mundial tá indo bem. Com o piloto conseguiram vender a série para mais de 20 países, incluindo Alemanha, Polônia e Rússia. A promessa é que em janeiro de 2012 entreguem a primeira temporada com 12 episódios. Agora é aguardar, e ver se algum canal brasileiro se interesse pela produção - não que isso impeça que a compaixão dos nossos comparsas do EZTV e do Pirate Bay aflore e anos ajude.

 

E… pra quem não sabe ou lembra, David Fincher está adaptando a contraparte americana da série (aí sim, a Heavy Metal do título) para os cinemas. Por causa do conteúdo erótico e da frescura americana, ele está tendo certas dificuldades na empreitada, mas tem a bordo do projeto gente do peso de Zack Snyder e James Cameron. A última coisa que li a respeito do projeto, foi uma entrevista que ele deu pra MTV, em agosto do ano passado.

 

Estamos tentando convencer as pessoas a abraçarem três elementos do projeto: a censura 18 anos, a estrutura de antologia e o 3-D. Você deve imaginar que não teríamos problemas para tanto, já que temos tantos exemplos de sucesso para demonstrar como essa trinca funciona, mas o processo ainda está em andamento. Esse será um daqueles filme que quando finalmente ficar pronto as pessoas vão dizer 'sim, claro, nós sempre soubemos que daria certo', sabe?

Torçam aí, quem sabe não teremos um combo épico com Heavy Metal nos cinemas e nas TVs (torrents, para os apressados)?!

 

[Via Judão]

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Avatar Voz do Além

FOX nos lembra como downloads podem ser melhores

 

The Walking Dead, não à toa pelo visto, é uma das séries novas mais celebradas do momento, junto com outro possível titã: Boardwalk Empire, da HBO. Tô falando meio que sem saber, porque como alguns sabem, espero temporadas completas para ver séries de TV. Bom, mas Walking começou bem em seu primeiro episódio: recordes de audiência para o canal AMC - 5,3 milhões viram esse primeiro episódio -, campanhas de marketing pelo mundo todo e uma legião de fãs dos quadrinhos elogiando. Fora que ainda teve uma espécie de lançamento mundial, com exibição em diversos países dois dias depois do lançamento americano, o que é sempre ótimo para combater pirataria e essas coisas.

Mas aí é que morou o problema. A FOX, que tem os direitos de transmissão aqui no Brasil e em alguns outros países, inventou de picotar a série pra encaixa-la na grade da emissora… e o resultado são uns 30% menos de episódio (1h 06m nos EUA e 50 minutos com dois comerciais no resto do mundo). A cereja do bolo é a dublagem, que dizem ficou meia boca em certos momentos.

Um português fez algumas comparações no vídeo abaixo e expôs de forma contundente os picotes mal feitos da FOX. Não sei com certeza absoluta (até porque não tenho certeza absoluta de nada) se os cortes foram iguais em todo o planeta, mas a lógica aponta que sim, o que torna o vídeo bem válido.

Resumindo: baixem que vocês verão os 66 minutos que têm direito!

 

[Via O Buteco]

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Avatar FiliPêra

Carnivàle [Parte II]: O Fim da Era da Magia

[Primeiramente, meus mais sinceros agradecimentos a minha amada Nane Ulsan, pelas explicações acerca do Tarô, e pelas nossas conversas sempre elucidativas sobre Filosofias Orientais. Sem ela esse texto não seria o mesmo; ganhou o cargo de Consultora Editorial para Assuntos Transcendentais. E agradeço também ao Rodrigo "Lorde Velho", por ter me indicado a série depois da minha decepção com a última temporada de Lost e ter me incentivado a escrever esse texto]

 

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Tudo é impossível até não ser mais.

Ben Hawkins, Avatar da Luz

Como avisei, esse texto será cheio de spoilers, resultantes de uma análise da mitologia e das referências da série. Portanto, se pretendo assistir a série, não leia agora. Para quem não assistiu a série, será um pouco difícil entender o que escrevi, já que é necessário um conhecimento dos acontecimentos do programa para associa-los as referências mitológicas. Mas, mesmo se não tiver visto, fique à vontade pra ler, visto vários conceitos empregados na série serem universais. Eu fiz o possível pra tornar o texto coeso, explicativo e linear, mas em alguns momentos vou citar elementos da série que só explicarei mais abaixo. Portanto, é só ler o texto completo.

A grande atração de Carnivàle, como já exposto no outro texto, é o confronto entre o Bem e o Mal e a vasta mitologia arraigada a essa luta. Aqui esse confronto existe através de Avatares da Luz e das Trevas que a cada geração entram em combate. Na personificação mostrada na série eles, são justamente Ben (da Luz) e Justin (das Trevas). Toda a narrativa joga pistas bastante importantes acerca da fusão mitológica e alegórica de Carnivàle, mas muito disso termina por passar despercebido graças às múltiplas camadas narrativas que Knauf construiu - fora alguns não totalmente explicados por causa do prematuro cancelamento da série. Sonhos, visões dentro de sonhos, tarô, profecias, ordens secretas... vários dos elementos presentes no programa exigem um certo background por parte de quem assiste pra não ficar no escuro a todo o momento. A diferenças da série para um filme de vampiro e zumbi, por exemplo, é que as mitologias expostas ali não são integrantes do Inconsciente Coletivo, sendo necessários certos estudos para compreendê-las em sua totalidade. É de se igualar Carnivàle ao arco Arcádia, de Os Invisíveis (inclusive existe uma referência ao contexto desse arco no meio da segunda temporada, quando Henry Scudder revela que o segredo dos templários se encontra na igreja de Rennes-le-Château), onde uma gama de tramas e subtramas míticas e literárias de difícil compreensão leva o leitor/espectador a entrar num dilema bem drástico: ou mergulha de cabeça no universo da série e tenta compreender o que tá rolando ali, ou simplesmente desiste e conclui que aquilo não é pra ele. Muitos desistem, é natural (e triste) que não queiram gastar um pouco de energia mental para escrutinar uma trama densa, mas ao mesmo tempo bem gratificante; enquanto os que se propõe a isso se tornam fanáticos conhecedores de detalhes. Meios termos pra esses pólos são bem raros.

Na frase inicial proferida por Samsom na abertura da série está a chave pra compreender muito do caráter da luta: "E a cada geração nascia uma criatura de luz e uma criatura de trevas". Aqui fica clara a natureza básica de como os embates se localizam no Espaço-Tempo, com cada Avatar distinto lutando por seu lado. Avatar é um termo hindu que significa a encarnação de um ser supremo, divino. Por isso é tão natural dentro do Hinduísmo que se adorem crianças e adultos com deformidades, encarando-as como dádivas e reencarnações de deuses - o que me remete a uma das passagens mais geniais de Do Inferno, obra prima de Alan Moore, quando Willian Gull diz a John Merrick que se ele tivesse nascido na Índia, seria adorado como reencarnação de Ganesh.  O escrito indiano Vedas provavelmente possui a melhor definição do termo: "Avatara, ou a encarnação da Divindade, descende do reinado divino pela criação e manutenção da manifestação em um corpo material. E essa forma singular da Personalidade da Divindade que então se apresenta é chamada de encarnação ou Avatara. Tais Personalidades estão situadas no mundo espiritual, o reinado divino. Quando Eles transcendem para a criação material, Eles assumem então o nome Avatara". Não sei até onde a aplicação absoluta dessa definição é correta em relação aos personagens antagônicos da série, pois aqui os Avatares são humanos com poderes a serem desenvolvidos - cura, profecia, matar e controlar pessoas com o pensamento - além de representações de forças opostas, mas dotados de personalidade e livre arbítrio. Em resumo, não são necessariamente deuses, mas sim possuidores de uma essência divina.

Os nomes dos personagem também retratam essa dualidade: Hawkins remete a falcão, ave nobre, do dia; e Crow remete a corvo, ave sombria, necrófaga. O que diferencia a série do contexto aristotélico de oposição positivo-negativo é a sobreposição da personalidade dos Avatares sobre a própria missão deles. Geralmente, em narrativas desse estilo, os personagens agem inconscientemente, são meras marionetes da encarnação deles, sujeitos a um Determinismo extremamente reducionista, resumindo a trama a um embate de entidades poderosas, como vimos na conclusão de Matrix Revolutions. Em Carnivàle, Scudder quebra essa escrita, e torna sua condição de Avatar das Trevas - que deveria ser instintiva, inconsciente - consciente, o que o leva a abandonar sua missão, desfigurar o próprio rosto e sumir, tornando-se peça-chave da busca da penúltima geração de Avatares (já falo sobre a linha sucessória da Dinastia Avatárica). Por outro lado, é fácil constatar que os dois Avatares da geração focada na série não tomaram essa consciência, principalmente Justin, que parece sem rumo e controlado por seu inconsciente das Trevas, enquanto Ben recebe a ajuda do Avatar da Luz anterior, Lucius Belyakov, a Gerência.

A hereditariedade dos Avatares é outro conceito a ser explicado, pois não necessariamente o filho de um Avatar da Luz vai ser um da Luz, por exemplo. Esse tipo de troca ocorreu na geração de Avatares da série: Justin, das Trevas, é filho de Belyakov; enquanto Ben, o da Luz, é filho de Scudder, que era das Trevas. Os poderes deles são diversos, embora não descritos totalmente ao longo da série. Pelo fato da série ter sido cancelada apenas com um terço dela lançado, Knauf fez declarações acerca dos poderes deles: somente os Avatares das Trevas sofrem dores físicas quando os Avatares da Luz usam suas habilidades; os dois podem transmitir ou receber visões de outros, bem como localizar a proximidade do seu oponente de modo físico, o que contribui para a inevitabilidade do confronto deles.

Abaixo está uma genealogia de uma linhagem avatárica, mostrando o Alfa, que dá origem a toda a linhagem, os Profetas, os Príncipes Ascendentes e o Ômega - só Alfa e Ômega são obrigatoriamente mulheres, os Avatares são obrigatoriamente homens (é por uma interpretação do Vedas, que muitos consideram Jesus Cristo uma divindade feminina, após ele ter dito que é o Alfa e o Ômega).

 

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No contexto da série, o Alfa, segundo Daniel Knauf (como a série não se desenvolveu o bastante, muito do descrito aqui é derivado de escritos que ele mandou pra HBO buscando a aprovação da série), seria uma mulher pré-diluviana e todas as informações sobre ela se perderam com a destruição de Alexandria e sua vasta biblioteca. Em Alfa, a matriarca da linhagem avatárica, estariam os dois poderes antagônicos unidos e equilibrados, e a passagem deles para um próximo integrante seria como obra ocasional. O parto de Alfa é obrigatoriamente de gêmeos, cada um deles representando um lado da luta, além de serem os primeiros Profetas da Luz e das Trevas. A sucessão de nascimentos daria origem a duas Dinastias (ou Casas) distintas, que poderiam perdurar por séculos ou morrer em uma geração. O próprio poder avatárico impede que mais de um sucessor seja gerado, pois a mãe de cada um dos avatares se torna estéril e insana após o parto, como bem prova o estado da mãe de Ben Hawkins, a mãe de Scudder - que arrancou os próprios olhos - e a mãe de Sophie, eternamente vegetalizada depois de dar a luz a uma filha de um Avatar das Trevas.

Sophie é o elemento Ômega da linhagem, fechando-a completamente, por ser filha de um Avatar das Trevas e ter feito sexo com um Avatar da Luz. Ela contém as duas Dinastias dentro de si. O Profeta é o possuidor do sangue azul, também chamado de Vitae Divina. Ele seria o Avatar atuante, e mesmo que exista um sucessor dele nascido, somente através de um ritual que veremos logo abaixo ele abandona essa condição e seu sucessor deixa de ter sangue vermelho pra ter sangue azul. Os Vectori são integrantes (geralmente) femininos intermediários da Dinastia, e mesmo inseridos na genealogia avatárica, não possuem os poderes dos Profetas, mas podem desenvolver pequenos poderes e níveis diferentes de insanidade.

A sucessão de Profetas ocorre com a benção, quando o sucessor já nascido - chamado de Príncipe Ascendente - mata seu antecessor. Mas existem certos requisitos para essa morte ocorrer da forma correta. O Profeta assassinado pelo Príncipe deve ser pego de surpresa para evitar que ative defesas psíquicas. Ele não pode estar drogado, pois drogas trazem confusões mentais que estragam a benção. Caso o Príncipe assassine o Profeta fora dessas condições, se tornará completamente insano. Se o Profeta morrer por qualquer outro fator, o Príncipe se torna Profeta, mas com deficiência de poderes, que jamais atingirão seu auge. Knauf, em um fórum de fãs de Carnivàle, faz insinuações sobre a sucessão avatárica ao longo da história, apontando Buda, Maomé e Jesus como Avatares da Luz, e grandes conquistadores como César, Alexandre, Vlad como Avatares das Trevas. Além disso, Rasputin seria o início de uma das Dinastias sendo levada pra Rússia. Só é importante frisar que boa parte desses conceitos e nomes não chegaram a ser inseridos na série, pelo seu prematuro cancelamento. 

 

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Imagens da abertura da série

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Cartas Lua e Sol

Na abertura da série encontra-se outra pista sobre a natureza dos personagens, já que ao final da sequência as duas cartas (lâminas) de tarô que sobram são a Sun e Moon - ambos os símbolos representam a dualidade presente no próprio logotipo do circo, que possui um sol e uma lua -, ou Deus e o Diabo. Toda a abertura da série mostra uma sucessão de acontecimentos pós-Fim da Última Era da Magia, com a associação de cartas de tarô com símbolos modernos da Era da Razão - a Torre com o Capitólio, a Morte com criminosos em massa, como Stalin e os líderes da Ku Klux Klan, o Mago com os grandes representantes dos circos modernos, como músicos, esportistas e celebridades -, mostrando como a degradação da existência humana se acentuou com o triunfo Iluminista-Materialista. E é nos sonhos e visões que os personagens (e nós) descobrem várias coisas relativas a própria natureza da missão deles. Essa sobreposição de camadas de realidade - realidade misturada com sonhos, onde os sonhos e visões geralmente são mais importantes do que os fatos - é um dos principais motivos pelas quais os espectadores, e mesmo os críticos de TV experientes, reclamaram do modo como Carnivàle é narrada. O crítico de TV do site The Midway admitiu isso, afirmando que a primeira temporada de Carnivàle é "muito artística e esotérica, e a sua falta de envolvimento o impediu de compreender o que diabos estava acontecendo, o que pode ser um problema para uma série dramática da televisão".

É durante os sonhos/visões, por exemplo que conhecemos a história dos dois soldados que se enfrentam durante a I Guerra Mundial. E nesse exemplo é fácil perceber como a série se utiliza desse tipo de elemento para fisgar um público mais sofisticado. É possível sentir que o embate é importante, embora a narrativa não nos diga como - ao menos não da forma fácil. O roteiro ainda faz pior e relaciona esse embate com personagens misteriosos à Justin e Ben, ao colocar Ben sem pernas e somente com um braço ao lado de um vitorioso reverendo Justin. Para piorar, nessa altura dos acontecimentos pouco conhecemos a respeito de Avatares e embates históricos.

Carnivàle usa fartamente desse modo de construção dramática. E quando as revelações chegam, elas vêm de forma nada fácil. É durante uma das experiências oníricas de Ben, por exemplo, que lemos a palavra repetida TARAVATARAVA repetida a exaustão no interior de uma mina. Mais tarde, durante uma tentativa de suicídio, Ben é capaz de rearranjar a palavra e perceber que é AVATAR (o que mata o questionamento que alguns podem ter a respeito da associação de Avatares com a sucessão genealógica dos personagens da série). A partir daí, a série não se presta a explicar como se comporta uma linhagem avatárica, somente expondo algum conceito que difere da mitologia estabelecida pelo hinduísmo. Então, a iniciativa de buscar conhecimento é de quem assiste - e mesmo que não o busque compreenderá tudo, ainda que de forma menos ampla. Dessa mesma forma, ouvimos várias vezes durante a série a frase Todo Profeta em sua casa. Como a série possui um vasto conteúdo religioso, é de se imaginar que seja algo relacionado a Bíblia, mas a frase logo pode ser ligada ao conceito de Dinastia, onde Ben e Justin, como Príncipes Ascendentes, devem se tornar o Profeta de sua geração, realizando o ritual da benção.

Nesse ponto, alguns (principalmente os que viram a série, já que para mim seria bastante custoso dissecar a mitologia e ao mesmo tempo explicar toda a sucessão de eventos das duas temporadas) devem estar se perguntando a relação dos Avatares com os sonhos e visões acerca do Condutor, o Homem Tatuado (mesmo com a revelação de que Justin seria ele). Dentro da série, a árvore da tatuagem seria a famosa Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, que foi morada do Diabo incorporado de serpente no Jardim do Éden, palco da primeira tentação da história da humanidade. A Árvore, como seu nome deixa claro, representa conhecimento, representa abrir os olhos, como explicou a Serpente para Eva. Ela seria o ponto-chave do coração do Condutor, que é o Avatar das Trevas da última geração, prenunciando a destruição que viria através do Falso Sol. Justin é o Condutor, o prenúncio do Armagedom vindouro, e como tal só pode ser morto por um golpe num dos ramos da árvore tatuada dado por uma faca banhada com Vitae Divina - assim como pode ser visto no último episódio da segunda temporada (só lembrando que a faca de Hawkins havia sido banhada pelo Vitae após ele matar Belyakov). O Condutor daria origem também ao Anticristo, que na série é Sophie, como prenunciou Lodz depois de possuir o corpo de Ruthie e escrever com batom num espelho que Sophie é o Ômega.

Então, resumindo tudo que vimos até agora, pra facilitar. Os Avatares da série fazem parte de duas Dinastias distintas com uma matriarca em comum (Alfa). Os gêmeos patriarcas dessas dinastias que Alfa gerou foram os primeiros Profetas. Profeta é o Avatar atuante, possuidor do sangue azul, o Vitae Divina. Uma Dinastia pode gerar Avatares das Trevas e da Luz. O sucessor do Profeta é o Príncipe Ascendente, que deve matar o Profeta para se tornar o Avatar atuante. Vectori são outros filhos nascidos de mães de Avatares - nascidos antes, já que depois de parir um Avatar, a mãe enlouquece -, e geralmente possuem pequenos poderes ou algum nível de insanidade. O fim da linha de sucessão avatárica - que é o evento narrado na série - é o nascimento do Ômega, uma mulher que possui ligações com as duas Dinastias antagônicas. No caso, é Sophie, que é filha de Justin e fez sexo com Ben. Para anunciar o fim dessa linhagem, existe a figura do Condutor, que é o genitor do Ômega. Agora continuando...

 

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O Condutor

Na fala inicial de Samson no primeiro episódio da segunda temporada podemos entender melhor como a geração de Avatares Scudder-Belyakov foi de fato única: "Usando roupas de um combatente e chamando ‘a guerra de todas as guerras’, aquele das trevas tentou enganar seu destino, vivo como um mortal. Então, ele fugiu através do oceano, até um império chamado América. Mas com sua mera presença, um câncer corrompeu o espírito da terra, pessoas ficaram submissas a tolos que falavam muito e não diziam nada... para que a opressão e covardia eram virtudes... e liberdade uma obscenidade. E nesta terra de trevas, o profeta perseguiu seu inimigo até que, subjulgado pelos ferimentos, ele se voltou para o próximo na antiga fileira de luz. E foi assim que o destino da humanidade acabou por repousar nos ombros fracos do mais relutante dos salvadores".

A fala remete a trajetória de Belyakov e de Scudder, que transferiram os confrontos das Dinastias para os EUA. Henry Scudder combateu na I Guerra Mundial - que foi chamada de "a guerra para acabar com todas as guerras" - e estava sendo caçado por Belyakov. Numa dessas caçadas, Belyakov foi surpreendido pelo urso Bruno, que pertencia a Lodz. O ataque o deixou sem as pernas e um braço e Scudder aproveitou e fugiu após conhecer Lodz. Poucos anos antes, Belyakov havia tomado consciência de ser membro de uma dinastia avatárica e tentou matar seu próprio filho após ter estranhas visões depois do nascimento dele - mas ele e a irmã Iris (que é uma Vectorus) foram resgatados pelo reverendo Norman e passaram a viver nos EUA. Scudder combatia na Europa porque havia sido condenado por pequenos crimes nos EUA e no pós-guerra acabou se juntando ao circo de Lodz - que logo percebeu os poderes dele - em apresentações pela Europa devastada. Belyakov, por outro lado, lentamente se recuperou de seus ferimentos e se pôs a estudar manuscritos antigos até entender completamente a essência dele. Scudder podia sentir que Belyakov o procurava e se mudava constantemente.

De um atrito com Lodz resultantes dessas andanças, ele fez a troca: deu poderes paranormais a ele em troca da visão dele. Essa concessão de poderes resultou numa ligação mental entre eles, que Belyakov compreenderia quando encontrou Lodz em Veneza, prometendo a ele restaurar a visão caso o ajudasse a encontrar Scudder. Scudder, por sua vez, retorna para a América, se casa e tem um filho, mas volta a fugir e morar em diversas cidades diferentes quando pressente a chegada de Belyakov. Em Babylon, mora numa mina por um tempo, e acaba se unindo ao circo Hyde & Teller Company, onde trabalha por quase um ano e conhece Samson e vários outros freaks presentes na série. Belyakov usa a ligação mental de Lodz para chegar ao paradeiro de seu inimigo e compra o Hyde & Teller Company, mas Scudder escapa dias antes. Como novo dono, Belyakov muda o nome do circo para Carnivàle (e o dele próprio para a Gerência) e passa a rodar uma série de cidades em busca do seu oponente espiritual, substituindo Samson por Lodz como co-gerente. Quando Lodz falha ao prever que Scudder entrou na Ordem dos Templários, Samson retorna a seu antigo emprego. Dezoito anos depois de comprar o circo, Belyakov sente que Ben Hawkins tem idade suficiente para se juntar a ele, e o aborda, dando início a primeira temporada de Carnivàle.

 

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Símbolo dos Cavaleiros Templários na série

Outros conceitos inerentes a série merecem explicação. A Ordem dos Templários é descrita no documento inicial de Knauf entregue a HBO - o Carnivàle: The Pitch Document - como uma "fraternidade de companheiros de viagem, um desdobramento contemporâneo de uma antiga ordem de monges guerreiros inicialmente ligados a Igreja Católica Romana, com a missão de localizar e auxiliar o Avatar [da Luz]. No final do dia 14 século, a ordem foi injustamente acusada de heresia em massa, a maioria de seus membros foram presos, torturados e queimados na estaca. Os poucos sobreviventes da Inquisição se esconderam, e formaram uma sociedade secreta assegurada por juramentos de sangue, cimentados por rituais misteriosos". O documento continua descrevendo-a, dizendo que seus membros esqueceram da missão original da Ordem, passando a simplesmente desempenhar serviços comunitários. Mas um círculo de poderosos membros se mantinham fiéis na busca de novos Avatares, embora a falta de estudos destes acabou por minar sua capacidade de ação e terminando por ajudar Avatares das Trevas, como é o caso de Scudder. Knauf afirmou depois que os Templários apareceriam novamente em temporadas posteriores, e a importância deles seria levemente aumentada.

O Tarô é um elemento bastante importe a mitologia da série - como expliquei ao descrever um pouco a abertura do programa -, prenunciando vários acontecimentos importantes. As leituras de Sophie no primeiro episódio, por exemplo, revelaram fatos passados da vida de Ben relacionados ao poder de cura dele, enquanto no quinto episódio da segunda temporada, Sophie repete a visão de Ben acerca da explosão de Trinity, dessa vez observando ela mesma inserida na visão, beijando Ben em meio ao cogumelo atômico. O baralho usado por Knauf para estruturar o esoterismo de grande parte da primeira temporada é o Rider-Waite, um dos mais usados no meio místico. Em alguns episódios posteriores ele fez certas misturas de baralhos, inserindo elementos do Tarô de Marselha - o mais conhecido e usado no Brasil -, enquanto na abertura ele uniu pinturas clássicas aos Arcanos do Tarô.

No primeiro episódio da segunda temporada, Ben se revolta com a armação de Belyakov para matar Lodz e fazê-lo compreender o mecanismo de transferência de vida que é a base do poder curativo dele. Para fazê-lo entender sua missão, ele induz uma visão, colocando Hawkins no meio de um deserto onde soa um alarme e uma gigantesca explosão ocorre. Essa visão se liga diretamente a fala inicial de Samson - "E foi assim até o dia em que um falso sol explodiu sobre Trinity, e o homem trocou para sempre a magia pela razão" - sendo o "falso sol" a bomba atômica. Aparentemente, a missão dos Avatares das Trevas é justamente preparar o caminho para esse evento, que seria o prenúncio de uma Era particularmente sangrenta (Guerra Fria, isso logo após as explosões atômicas no Japão). A missão deles seria justamente acabar com a Era da Magia. Reforçando isso, temos a fala de Justin proferida no meio da explosão, durante a visão dele: "Seu filho de serpentes, quem lhe mandou fugir da fúria que está por vir?", dando uma idéia de inevitabilidade da explosão de Trinity. Em várias legendas, o termo Trinity foi traduzido como "trindade" ou "todos nós", o que é uma pequena incoerência. O mais correto seria manter o termo, pois é uma clara referência a Experiência Trinity, o primeiro teste nuclear da história, feito em Novo México.

 

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Bom, isso é o que consegui identificar vendo a série uma única vez e pesquisando um pouco os roteiros de Knauf. Naturalmente existe bem mais para se achar ali, e outras coisas que com certeza seriam inseridas nas outras quatro temporadas. Mas a série fica como exemplo de bom uso temático para a criação de um Universo único, coeso e original. Pena que o público não esteja muito preparado para absorver algo com tamanho nível de complexidade. No mais, Carnivàle é uma mostra de como alta sofisticação narrativa e temática está intimamente ligada a qualidade.

 

[Referências]

Rennes-le-Château

Dust Bowl

[PDF] Carnivàle: The Pitch Document

Experiência Trinity

Vedas

Tarô

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Avatar FiliPêra

Carnivàle [Parte I]: Despertando os que dormem

[Essa primeira parte do meu texto sobre Carnivàle se concentra nos aspectos narrativos e técnicos da obra. A segunda parte, que sai amanhã, focará os aspectos mitológicos e será recheada de spoilers]

 

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Antes do início, depois da grande guerra entre o Céu e o Inferno, Deus criou a Terra e a entregou ao ardiloso macaco chamado homem. A cada geração nascia uma criatura de luz e uma criatura de trevas e grandes exércitos se digladiaram na noite da antiga guerra entre o bem e o mal. Era um tempo de magia, nobreza e inimaginável crueldade. E foi assim até o dia em que um falso sol explodiu sobre Trinity e o homem trocou para sempre a Magia pela Razão.

Samson, dono do circo Carnivàle

 

As pessas nessas cidades estão dormindo... nós as acordamos.

Sophie, cigana leitora de tarô

 

O Bem e o Mal são conceitos profundamente arraigados na mentalidade humana - principalmente no pensamento ocidental. Enquanto os orientais possuem o Yin Yang, que prega a idéia do equilíbrio entre forças opostas, e o i Ching, com seus hexagramas de diferentes estados; os ocidentais se atém a Filosofia aristotélica de bem e mal em luta de forma inteiramente separada e não-complementar. No Aristotelismo não existe meio termo, dúvida, complemento, o cinza e nem qualquer tipo de equilíbrio: é sim ou é não - enquanto a filosofia do Tao abarca todos os estados naturais e intuitivos da natureza e da humanidade< mesclando mais de um ao mesmo tempo. Correlata a essa visão de estados da principal corrente de pensamento grega - mesmo que derivada de uma interpretação essencialmente exagerada e errônea - surgiu o maniqueísmo fundamentalista que conhecemos hoje. Todas as religiões monoteístas se baseiam na visão aristotélica da oposição de forças e da necessidade de seguir um dos dois lados que existem no mundo. O grande problema dessa filosofia surge justamente ao traçar de forma cimentada o que seria o caminho "certo", absoluto a se seguir. A visão de uma única pessoa - ou um grupo pequeno - acabaria se estendendo a toda uma população. As próprias bases da computação se baseiam nessa dualidade dicotômica - o que é zero não é um e daí se deriva toda a infinidade de funções digitais.

Se analisarmos a Bíblia facilmente entenderemos como esse conceito é errôneo se aplicado de forma tão generalista e absoluta. Todos os 66 livros da Bíblia narram a luta da Trindade Divina contra Satanás para resgatar a humanidade do Pecado, e para isso Jesus desce dos céus e se sacrifica pela humanidade com o objetivo de cumprir uma lei que ele mesmo havia imposto - e que sabia que seria quebrada antes mesmo de criá-la. Durante essa saga milenar podemos ver com certo nível de detalhes - ignoremos que os escritores da Bíblia não são exímios em qualquer tipo de linguagem literária mais apurada... embora Eu tenha consciência que esse tipo de comparação não é lá muito correta - que Deus, mesmo sendo o Todo-Poderoso, Fonte de Todo o Amor, Luz do Mundo... tem falhas e desejos humanos. Em alguns momentos ele age como uma criança birrenta. Durante a adoração ao bezerro de ouro, Deus fala a Moisés que destruirá seu próprio povo escolhido e que fará dele um patriarca. Moisés diz que se destruir o povo, terá que destruir a ele próprio e arranjar outro patriarca e Deus desiste da idéia - sim, Deus sucumbiu a uma chantagem emocional, além de ter-se arrependido de uma maldade que fizera (Êxodo 32: 8-14). Esse é apenas um dos inúmeros episódios bíblicos - livro que deveria não deixar dúvida quanto ao supremo amor de Deus - que mostram como o conceito dicotômico de Aristóteles é falho em sua própria concepção. Não existe perfeição na Terra nem no Céu, assim como não existe maldade pura. O mundo e a existência humana é recheada de áreas cinzentas, um monge shaolin extremamente bondoso pode matar um guarda que se atreve a entrar em seu templo, assim como um estuprador pedófilo pode dar a vida para salvar a própria filha. O mais correto seria dizer que uma pessoa possui uma forte tendência para o mal, e outra possui o mesmo para o bem. Boa índole e má índole, sem nada absoluto - por motivos óbvios não vou analisar possíveis estruturas psicológicas humanas para tentar lançar um pouco de luz sobre o assunto.

No geral, quando uma obra propõe mostrar essa dualidade - que em maior ou menor grau influencia praticamente todos os filmes americanos - ele se atém a jornada heróica de algum personagem falho que toma consciência de seu poder e missão. É assim com Matrix, por exemplo, onde Neo aos poucos vai aprendendo sobre seus poderes e sobre o que ele deve combater. Desde o início conhecemos a personalidade de Neo, o que ele representa e as metáforas inerentes a construção do personagem, assim como reconhecemos Smith como amoral, a máquina contra o humano, a destruição contra a vida. Não existem muitos meios termos a serem analisados nesse embate. Então, Matrix é uma obra muito mais aristotélica e cristã do que a própria Bíblia, pois não vemos nos métodos e ações de Neo & Cia traços que refletem ações análogas às de Smith. Eles são inteiramente dicotômicos, os objetivos dos dois são maiores do que qualquer resquício de personalidade que possuam. Para reforçar essa visão, na última luta é exposto o modo como Neo mata seu oponente: simplesmente com Luz, que fisicamente sempre vence as trevas, só dependendo de intensidades.

Um modo um pouco diferente de construção dessa jornada de herói pode ser vista em Os Invisíveis. Mesmo que Jack Frost represente o Bem (ou algo próximo a isso), e seja o herói na narrativa, é possível enxergar o que é chamada de guerra suja, indistinta nos métodos dele. Existem momentos em que os heróis estão paranóicos, não sabem exatamente o que estão fazendo ou mesmo se somente são parte de engrenagens dentro de um sistema maior. Perguntam a si próprios porque participam de verdadeiras carnificinas. E a partir disso, questionam se realmente estão do lado certo, se a missão deles é válida. Pouco desse aprofundamento surgiu em Matrix - Grant Morrison, que escreveu Os Invisíveis, insiste que Matrix é um plágio descarado de sua série, e bem, muitos conceitos escritos por ele estão por lá - tendo o herói dúvidas somente em relação ao que vem ser o sistema a ser destruído, principalmente quanto à confiança dos rebeldes com a Oráculo. O final, que podia ser bastante consistente, acabou sendo palco de um desvio narrativo que colocou Smith como o centro do Mal na trama, o que dentro dos conceitos iniciais da trilogia pode ser visto como falho - embora muitos aplaudam pela mensagem pacifista, chegando a compara-la a de Watchmen.

 

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E daí surge a beleza e uma inovação na apresentação de Bem e Mal de Carnivàle. A série se apropria de todos esses clichês envolvendo lutas entre o Bem e o Mal, e de certa forma os distorce ao máximo. Somos lançados nos EUA em tempos depressivos, mais precisamente em 1934, quando os efeitos do Crack da Bolsa de 1929 estão estremecendo a nação. No meio de áreas atingidas pelo Dust Bowl - uma série de tempestades de areia devastadoras que atingiram os EUA durante toda a década de 1930 -, conhecemos o circo itinerante Carnivàle, comandando pelo misterioso anão Samsom - que recebe ordens da Gerência, um estranho ser que vive atrás de uma cortina e é dono do circo. Em uma parada num ponto qualquer, eles encontram Ben Hawkins, um fugitivo da lei que está enterrando a própria mãe e esconde poderes paranormais, além de ter acabado de ficar sem casa, destruída por tratores. Ao mesmo tempo conhecemos o reverendo Justin, um metodista obcecado pela obra de Deus, a colocando acima de tudo, e tendo estranhos sonhos proféticos que ele interpreta como o caminho que deve seguir. Ao longo da série, as duas linhas narrativas paralelas aos poucos - e sutilmente - vão se unindo, dando sinal de um inevitável embate entre as partes. O caminho de Ben e Justin parece se encontrar num mistério central: descobrir o paradeiro do misterioso Henry Scudder, um ex-integrante do circo que guarda estranhos poderes e desapareceu depois de um tempo.

Basicamente é esse antagonismo que é o tema central da série, o que parece mostrar uma certa simplicidade excessiva da parte de Daniel Knauf, escritor por trás de tudo. Como disse no começo, dicotomia entre bem e mal é um assunto manjado e Carnivàle usa essa premissa somente como mote para apresentar uma série de camadas quase sempre complexas. Aos poucos descobrimos que o fato de Ben ter entrado por circo foge do mero acaso, assim como uma sucessão de acontecimentos na vida de Justin, principalmente relacionados ao passado dele e a missão que ele acredita que Deus o deu: criar uma congregação com imigrantes fugindo do Dust Bowl e demitidos pela crise econômica. Logo Ben se envolve num jogo parapsiquíco com Lodz, o cego leitor de mentes do circo, além de apresentar uma estranha ligação com Ruthie, a encantadora de serpentes. Justin, por outro lado, tem dificuldades com seus superiores eclesiásticos, e logo depois com a própria lei, precisando tornar-se maior que ela.

A visão de Ben do circo é a nossa (na verdade, é bem clássico esse artifício de começar narrativa com a chegada de um Escolhido ao grupo, o que tem também a função de nos contextualizar no universo ficcional da obra), e felizmente a série foca no dia-a-dia do espetáculo circense - alguns com certeza não irão gostar, principalmente pela pegada meio Freaks de certos momentos - e dá a esses personagens a profundidade necessária para inseri-los na trama, não recorrendo somente ao trio Ben-Justin-Samson. Os outros personagens circenses são mais do que meros extras na série, e possuem motivações e são parte de subtramas geralmente interessantes, constituindo teias dramáticas às vezes não relacionadas à história central da série. A família das stripers, bem como a relação dela com Jonesy, o manco braço direito de Samson, é um desses personagens, assim como os problemas de Sophie - que lê cartas de tarô - com sua mãe em estado vegetativo.

 

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Apesar de ser uma série de alta qualidade, ganhadora de cinco Emmys e nove outros prêmios importantes da TV, ela não é de fácil assimilação, e mistura temas pesados como manipulação, religião, sistemas mágicos, psicologia, religiões orientais... tudo entrecortado de cenas de nudez explícita e violência. Como disse Matt Roush, do TV Guide, Carnivàle é o "show perfeito para aqueles que pensavam que Twin Peaks era muito acessível". Em primeiro lugar ela não possui qualquer tipo de cliffhanger ou grandes momentos de ação, baseando sua continuidade nas descobertas dos dois personagens principais a respeito de sua própria natureza. Dessa forma, o que você não sabe se torna tão importante quanto o que você sabe, e isso subverte várias regras áureas da ficção. O ritmo é essencialmente lento, vai te fisgando aos poucos, e essa soma de fatores acaba por minar um pouco a adequação de Carnivàle como série de TV - ao menos do modo como o público a absorve - sendo mais adequada para se assistir em maratonas (como Eu fiz, e sempre faço com todas as séries que vejo).

Foi esse tipo de crítica que se fez quase onipresente quando a série alcançou seus primeiros capítulos: focava-se na qualidade inigualável dela, mas ao mesmo tempo identificavam uma inadequação de ritmo e um excesso de hermetismo que minava a experiência do público médio. Basear a série em mistérios e altas doses de esoterismo dava a impressão que nada acontecia para os que não se punham a decifra-la. James Poniewozik, da revista Time disse que os "três primeiros episódios são frustrantes... mas ao mesmo tempo fascinantes". Já Joseph Adalian, editor de TV do Daily Variety, pontuou que "a série vai ser positivada na maior parte revisões, mas algumas pessoas vão ficar estarrecidas com estranheza geral do show". Com o pack da primeira temporada lançado, as críticas melhoraram. Duas delas merecem ser citadas: "Carnivàle pode exigir mais de seu público do que muitos estão dispostos a investir. [...] Sem prestar muita atenção, é tentador assumir que o show é desnecessariamente pretensioso", "Carnivàle tem uma história longa e complexa, e se você não começar bem do início, estará completamente perdido".

O problema talvez tenha sido o excesso de ambição de Knauf ao conceber a série. Bom, a culpa não é exatamente dele já que encaro ambição narrativa como mérito, mas sim da falta de visão comercial ao estruturar sua cria. Com um custo de quase 50 milhões de dólares por temporada - 4 milhões por capítulo, 12 episódios por temporada -, e se fixando em temas não tão comuns assim do público médio norte americano, a série acabou por perder parte da sua audiência na segunda temporada - de uma média de 3,54 milhões de espectadores da primeira temporada, para 1,7 milhões na segunda -, o que minou sua longevidade e provocou um cancelamento prematuro demais. A idéia de Knauf era fazer seis temporadas e a cada duas temporadas fechar um arco, até chegar a "explosão do falso sol sobre Trinity" (falo sobre isso depois), que representaria o fim da Era da Magia e a consolidação da Era da Razão Materialista na Terra.

 

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O básico da história concebida por David Knauf surgiu da insatisfação dele com o emprego de corretor de seguros, o que o levou a escrever uma primeira versão do script da série entre 1990 e 1992. Seu interesse por circos na época foi projetado para a trama, e a parte freak vem da pouca aceitação que tinha seu próprio pai deficiente na sociedade. Era seu primeiro roteiro, que se destacava porque mesmo em sua fase mais inicial continha inúmeros detalhes e um plano bem elaborado para um fechamento. Seu tamanho era de 180 páginas, o que é mais ou menos o dobro da maioria dos roteiros completos de longa metragem. E mesmo com esse tamanho, ele chegou a conclusão que o roteiro ainda não fazia jus a sua história e decidiu engavetá-lo e só retoma-lo a sua escrita quando tivesse mais experiência. Após não conseguir emplacar nenhum roteiro significativo em colaboração com alguns escritores de Hollywood, um amigo dele dá a idéia de montar seu roteiro de Carnivàle para a TV, no formato de uma série episódica. Após conversas com Chris Albrecht, um dos chefões da produção da HBO, ele obtém sinal verde e liberdade quase total, tendo 21 dias para produzir o episódio piloto e estabelecer os rumos definitivos da história das primeiras temporadas. Foi durante esse período inicial que o papel de Justin cresceu, assim como o da irmã dele, Iris. Também foi acrescentada a família de strippers - a mãe e duas filhas, além do pai, que apresenta o show - que se tornaria de grande importância pra série - e que só seria concebida graças a extensas pesquisas de Knauf acerca dos clubes burlescos.

Tecnicamente a série é impecável, como praticamente tudo que sai da HBO. Os atores estão na ponta dos cascos, com destaque para Michael J. Anderson, como o anão Samsom - na verdade, rolou uma sincronicidade quando comecei a escrever esse texto: no exato dia em que iniciei essa resenha, assisti, minutos depois de concluir a introdução, um episódio de Twin Peaks onde Anderson aparece pela primeira vez na sala vermelha dançando e falando ao contrário -,  e Nick Stahl como Ben Hawkins. Não existe um ator sequer que não dê profundidade ao seu personagem. Até os vilões causam a antipatia necessária. Não se surpreenda se odiar a petulância e a obsessão de Justin - sendo acobertado e incentivado por Iris -, a irritação de Lila (a mulher-barbada, que protagoniza uma cena de sexo especialmente repugnante com o Lodz), e outros personagens propositalmente irritantes. Aliás, Linda Hunt também merece destaque, por dublar a Gerência (dublagem não creditada), com uma voz andrógina e metálica como pedia o papel. A ambientação é perfeita, com cenários bem detalhados, figurinos bem feitos - cheios de terra e surrados, pra dar o ar da Depressão do período - e uma extensa pesquisa musical e de gírias da década de 1930, o que complementa o clima (clima que é ajudado pela decisão da HBO de não inserir comerciais entre os episódios).

Falar mais de Carnivàle sem leves spoilers é complicado, principalmente porque o que sustenta a série é justamente o mistério. Existe um clima de horror e suspense no ar a todo o tempo, no melhor estilo dos longas sonho-realidade de David Lynch. Aliás, muito da concepção de Carnivàle se deve a outra série de cheia mistérios famosa, na verdade uma das pioneiras nisso: Twin Peaks. A narrativa aposta num certo sentido instintivo de quem assiste: é fácil sentir que algo está acontecendo - algo ruim, geralmente - mesmo não sabendo exatamente o que é. É uma inversão interessante da importância consciente-inconsciente dentro de uma construção ficcional, e isso é muito constante também no modo de agir dos próprio personagens, que têm que confiar em habilidades que nem eles entendem. O modo de contar a história abusa de momentos oníricos - sempre representativos e importantes pra trama... aliás, as camadas oníricas chegam a ser mais importantes do que as reais em vários momentos - e da não-linearidade, e cria uma conexão densa com o mundo circense e religioso do presente. É uma forma pouco usada de apresentar as coisas, deixando claro que a jornada de Ben-Justin é apenas um ponto de um contexto grandioso envolvendo gerações, algo bem diferente do propósito de várias séries.

Essa forma de narrativa não-linear pode parecer pouco amigável para muitos, mas em suma é superior na maioria dos casos. Imagine um grande quebra-cabeças do quadro Escola de Atenas. Caso te dessem as peças de forma linear e ordenada, o processo de montá-lo seria extremamente mecânico, drenando sua atenção quanto a própria figura. Como você sabe a ordem exata e o lugar em que as peças se encaixam, vai se concentrar unicamente em colocá-las no lugar e pronto, dispensando observações mais atentas da figura. Mas se as peças chegassem de forma completamente não-linear - como um quebra-cabeças de verdade - sua atenção quanto ao objeto a ser montado seria redobrada, tudo precisaria fazer sentido e você a todo o momento precisaria olhar a figura total para saber o que já foi montado e onde mais peças precisam ser encaixadas. Montando o quebra-cabeça de forma não-linear você teria mais possibilidade de saber onde está Platão e Sócrates no quadro.

 

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Carnivàle é uma das melhores série de TV que assisti nos últimos tempos, não fazendo concessões narrativas e não necessitando se ater a estruturas comuns de séries americanas. Se estiver disposto a mergulhar num universo mitológico rico, profundo e difícil, ela é obrigatória. Mas, como toda obra de arte, é necessário realmente ir a fundo nos temas propostos, pesquisando temas e destrinchando mistérios. Definitivamente não é para qualquer um, mas o resultado é recompensador. Uma pena ter sido cancelada na segunda temporada - mas existe um fechamento, um final -, pois a tendência era ficar cada vez melhor. A única esperança que resta é o fato da HBO ter recusado vender o roteiro para Knauf, que pretendia escrever graphic novels para completá-la. Então, quem sabe um dia eles não resolvam retomá-la? Seria um novo marco na TV americana!

 

Carnivàle (EUA, 2003–2005)

2 temporadas, cada uma com 12 episódios de cerca de 60 minutos

Criação: Daniel Kauf

Nota: 9,5

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Avatar FiliPêra

The Event… confidencial

 

kit (1)

Estreou dia 18 passado The Event, a série (mais uma) que tem por missão substituir Lost, com aquela pegada de mistério e quebra-cabeças espalhados pro tudo. Para aumentar esse clima meio paranóico, o Universal Channel - que está exibindo a série no Brasil - me enviou um dossiê com segredos ligados a trama da série.

Pode-se dividir o dossiê em dois: a Evidência A, um papel com mensagens pela metade, mas que pode ser lido com uma caneta de luz UV, enviada junto com o material; e a Evidência B, um pendrive com um vídeo de 521 MB que contém um trailer e vídeos de bastidores da série e outros extras, além de 30 fotos pra divulgação. Com a caneta é possível ler (catei do Pink Vader):

 

kit (2)

“A namorada de um jovem rapaz desaparece durante um cruzeiro. A busca por seu paradeiro provoca um enorme impacto em um eclético grupo de pessoas que inclui o recém-eleito presidente americano, numa série de acontecimentos extraordinários e aparentemente inexplicáveis.

Mistério envolvendo instalações militares secretas, informações acobertadas pela CIA, suspense e intriga sobre um grupo de prisioneiros até então desconhecidos. Estes são alguns dos ingredientes escolhidos pelo time de roteiristas para envolver o público numa teia de acontecimentos que nos leva à maior e mais bem guardada conspiração na história americana, que pode mudar o destino de toda a humanidade.

Isso é tudo que se sabe sobre esta surpreendente trama. O que não é segredo para ninguém é que THE EVENT, a série mais disputada e aguardada nos EUA chega ao Brasil pela Universal Channel, no dia 18 de outubro às 22h.

Assista ao conteúdo exclusivo disponível no pendrive anexo. São trechos inéditos, entrevistas com o elenco e imagens dos bastidores. Acesso também www.qualasuateoria.com.br, onde encontrará mais informações sobre a série e poderá compartilhar sua própria teoria sobre qual é o grande evento.”

O vídeo do trailer você pode ver abaixo - as entrevistas são meio longas, mas interessantes, só que não achei vídeos delas - e me lembrou um pouco Heroes e (bate na madeira) Flash Foward.

 

Na pasta ainda é possível encontrar fichas (no melhor estilo serviço secreto) dos personagens, sinopses e rápidas explicações sobre como será o andamento da série. Entre as fichas, descobrimos que o namorado que busca a desaparecida no cruzeiro é Sean Walker e Leila Buchanan é a desaparecida, descobrimos também uma ficha do presidente dos EUA Elias Martinez,  e outra do chefe da CIA Blake Sterling, além de uma da prisioneira Sophia Maguire.

 

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O material é de primeira - parabéns pra Universal - e dá uma boa instigada pra ver a série. Resta saber se ela merece esse hype aí. Como só vejo séries com temporadas completas, vai demorar pra Eu assistir, mas se vocês postarem comentários razoavelmente explicativos com as impressões do primeiro episódio aí embaixo, faço um post compilando-os.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Avatar Colaborador Nerd

Defensores da Luz Maskman: ótima ideia, mas com execução ruim

Por Felipe Camargo

 

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Maskman foi uma dessas séries que passaram pouco na Manchete (uma ou duas vezes, não me lembro), e por isso tinha uma visão romântica sobre ela: tinha qualidade, uma boa história, boas lutas etc. Depois pesquisando sobre o tokusatsu, percebi que outros tinham essa mesma visão, talvez por uma resenha favorável na revista Herói. E por isso quem se arriscava a assisti-la acabava se decepcionando.

Pois bem, quis correr o risco. Baixei aos trancos e barrancos, junto com Gundam 00, e assisti aos episódios. Deixo claro que vi a série antes de ler sobre ela, embora minha opinião concorde com a de alguns por aí. A série em si não é ruim. A história é boa, veja só: um império subterrâneo quer dominar a Terra, mas conta com a resistência de um grupo de jovens lutadores que são orientados por um chefe místico. O império em questão é o Tuve, liderado pelo Sr. Zehba, que tomou o trono do imperador, mas mantém as princesas como servas. Já o grupo é Maskman, liderado pelo Chefe Sugata, e composto pelos membros clássicos dos Super Sentai – Red Mask, Black Mask, Blue Mask, Yellow Mask e Pink Mask. Cada um tem uma arma específica e um veículo que, unidos, formam o robô (ou mecha, como quiserem), o poderoso Great Five.

A série também concentra em um pseudo-triângulo amoroso. Nele, a princesa Ian, que foi congelada no primeiro episódio ao avisar seu amado (Red Mask) da invasão de Tuve, é motivo de disputa entre o líder dos Maskman e do vilão Kiroz. No mais, a fórmula dos episódios é a mesma dos demais Super Sentai. Muitas lutas, pouco enredo, tudo para distrair os espectadores. Mas eu me lembrava mais do lado dramático e da relação magia-tecnologia (presente em várias séries, como Dragon Ball e até Lost), que poderia render bons roteiros.

Por isso um pouco da decepção ao assistir a série depois de 18 anos. As expectativas eram de uma grande produção, com atuações excelentes, foco nos personagens, na descoberta da magia e a interação da mesma com as máquinas (a figura do Buda metade humano metade robô, atrás de Sugata quando medita, é um dos exemplos). Só que um tokusatsu não tem isso. Se tivesse, não seria sucesso entre a garotada, que quer porrada e mais porrada – eu pelo menos queria. Ao assistir novamente, achei que os melhores momentos da séria estavam no início: como a descoberta do segundo robô e o mistério em relação à verdadeira identidade do Sr. Zehba. Todos com episódios com continuação. Os demais poderiam ser classificados como “encher linguiça”, pois não fogem do padrão tokusatsu.

Por fim, minha avaliação é positiva (darei uma nota 7). Principalmente pela produção. Vale lembrar que ela foi produzida em 1987, e a tecnologia da época é bem usada, fazendo o expectador visualizar bem o que o diretor queria passar. Claro que existem melhores (Flashman e Changeman, por exemplo), mas teria sido o melhor seriado Super Sentai se fosse mais vanguardista e fugisse do convencional. Ainda assim não me arrependo de ter assistido.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Avatar FiliPêra

Lost e uma importante lição: leia quadrinhos!

 

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[Contém spoilers, assim como o texto anterior. E você pode ler outras considerações minhas sobre a série AQUI]

Eu realmente admiro a capacidade de uma pessoa em conseguir narrar alguma coisa com qualidade. Não só porque também sou escritor - não ficcionista, mas jornalístico - mas por saber o quão difícil é criar uma narrativa instigante e estimulante. Se conseguir o sucesso de público e artístico ao mesmo então, é ótimo. E Lost alcançou isso! Se tornou um fenômeno, um exemplo de série bem escrita, bem amarrada, com situações interessantes, um bocado de quebra-cabeças, tramas interligadas, e aquele senso especial de Destino, de urgência. Foi a série perfeita para uma nova geração… por cinco temporadas!

Por cinco temporadas - que sofreram de certa instabilidade, mas se seguraram bem - Lost foi balanceada, com background, com propósito, com tempo para construir situações intrigantes e (alguns) personagens bem desenvolvidos. Sofreu por excesso de subtramas, e uma orgia de situações, mas estava conseguindo administrar tudo a contento, de modo equilibrado. Rolaram coisas bizarras, como o clássico urso polar; e cliffhangers matadores, como a escotilha sendo aberta; e era esse tipo de frescor que alimentava uma legião de fã(náticos)s da série mundo afora, que lotavam wikis, grupos e fóruns. Era um grande mistério, um grande quebra-cabeças.

Quebra-cabeças inteligentes não exigem respostas fáceis e acho perfeito quando uma obra - de arte ou de entretenimento - é capaz de colocar seus admiradores para pensar. Pode soar elitista (e não é), mas antes elitista que massificador. Se nivelar por baixo nunca é o caminho a se seguir. Esse foi outro ponto que Lost teve iniciativas louváveis. Referências ao budismo, mitologia egípcia, diversas correntes filosóficas, boas doses de ficções científicas… tudo isso esteve presente em Lost de uma forma estupenda. Repito: até chegar a sexta temporada e jogar praticamente tudo isso no ralo!

Eu não estou reclamando do fato de Lost ter um final metafísico/místico, pelo contrário, achei até corajoso e interessante. Mas jogar todos os conceitos criados pela série, pistas jogadas e questões levantadas para o alto em nome de algo místico denota a mais profunda preguiça que já pude ver na TV. E ainda fizeram questão de deixar claro que não estavam nem aí para a busca de respostas dos fãs: Cada resposta só gera mais perguntas! Sim, isso foi os produtores e roteiristas dizendo um Não estou nem aí para vocês e suas respostas bem sonoro, usando a boca de uma das personagens semi-inúteis e inexplicáveis da 6º temporada. Foi como maquiavelicamente jogar um osso desprovido de carne para uma horda de cãezinhos famintos bem no fim de uma longa jornada… e, bizarramente, muitos deles ficaram felizes com isso.

Deve estar imaginando que estou dizendo isso só por causa do epicamente grande último episódio da série - intitulado The End. Não, toda a sexta temporada, com raros episódios, é um tremendo equívoco. Personagens ridículos sendo colocados na trama, uma perfeita pastelização de outros, e uma virada dramática no tom da série: do nada, ela deixou de ser uma série de mistérios e passou a ser uma série de pessoas, como quiseram frisar inúmeros fãs. Analisemos as pessoas, então! Na sexta temporada tivemos Dogen (inútil, assim como seus seguidores e toda aquela truncada trama no templo); a ajudante de Charles Widmore, Zoe (também inútil); o próprio Charles, que aparentava ser a chave para muitas coisas importantes da ilha… só serviu para despertar Desmond.

E esses são apenas alguns vacilos sérios da sexta temporada, recheada de tropeços. E os roteiristas nem podem dizer que rolou algo parecido com o que aconteceu com Twin Peaks, uma espécie de irmã mais velha das série de mistério e recheadas de hype, onde David Lynch, seu mentor e principal escritor, simplesmente abandonou a série após uma primeira temporada matadora, e foi dirigir Coração Selvagem. Com Lost, J.J. Abrams e sua trupe tiveram tempo, dinheiro, suporte e tudo o mais para refletir e fazer um final bem feito, mas simplesmente preferiram se ater um artifício grego antigo para resolver seus problemas: o citado Deus Ex Machina.

Um Deus Ex Machina é uma resolução simples e artificial para um Ihhhh, fudeu!. É criar um desmafagafizar enquanto joga Palavras Cruzadas com um amigo, é fazer um hotel com apenas duas casas no Banco Imobiliário, é vender seus filhos no final de Jogo da Vida (pera aí, isso pode!)… é pisar em cima de tudo que tinha feito, e criar uma regra nova que te favoreça e resolva todos os seus problemas - neste caso: criados pelos próprios produtores. E isso me leva a pergunta: se respostas geram perguntas, e não queriam responder a todas elas… pra que as criaram?

Eu não queria explicações einsteinianas para questões como viagens no tempo, ilhas que mudam de lugar, números misteriosos (se quisesse, ia ler Stephen Hawking)… mas sim algo mais do que: Ah, era só um risco na parede, achei que você não queria ser candidata sendo mãe. Foi o que Jacob disse a Kate sobre o fato do nome dela estar riscado da caverna. Rolou até autoflagelações por parte dos roteiristas, como no momento em que o Fumaça diz que Jacob foi óbvio demais na escolha dele como substituto.

E o que dizer de The End? Digo que não foi um final de todo ruim, foi como ter um alívio por ver que algo na linha do final lenda-urbana de Caverna do Dragão realmente é plausível, mas o maior problema foi simplesmente colocar a metafísica acima de qualquer situação terrena, deturpando todo o caminho traçado pela série até ali, e descartando todo o amontoado de tramas e subtramas, deixando todas as explicações para a mente dos espectadores. Dessa forma, The End é mais como uma coroação das besteiras dos produtores e roteiristas nessa temporada do que qualquer outra coisa.

 

E chegamos a nossa mais importante lição, expressa no título desse artigo: leia quadrinhos! Se atenha a uma série mais ou menos parecida com os conceitos de Lost: Sete Soldados da Vitória. Temos diversos personagens em tramas interligadas a um grande evento no final, uma saborosa mistura de sci-fi com metafísica fantasiosa, uma mitologia própria… e a grande diferença: nada de Deus Ex Machina. Sete Soldados é surpreendente sem precisar apelar para algo completamente estranho à obra até ali, não deixa pontas pra trás e não entrega nada mastigado. Muito pelo contrário, às vezes, Sete Soldados oprime o leitor, ao buscar referências a histórias de heróis de décadas passadas, ou ainda citar eventos que nem aconteceram no mundo dos quadrinhos ainda. E cabe ao leitor saber o quanto da série irá absorver. Mas quem escolher não ir muito além de ler os sete volumes da série, vai ter à frente uma trama intricada e densa… e bem satisfatória.

Lost, assim como Matrix, preferiu nos entregar um final hiponga e sentimentalóide, não passando de uma tentativa barata de colocar emoções à frente das tão odiadas respostas. É como estar prestes a apanhar da sua mãe e apelar para um Eu te amo! É importante dizer pra sua mãe que a ama? Com certeza, a todo o minuto. Mas, naquele momento, ela provavelmente tá a fim de explicações, de saber porque você fez o que fez. E o simples ato de apelar para o sentimentalismo pode desarmá-la e te salvar da surra. Terminar tudo com um abraço e um beijo é garantia quase certa do esquecimento das explicações e de um final feliz. Foi isso que o final de Lost fez: passou a mão na cabeça dos fãs (a mãe) e apelou para uma questão maior do que “besteiras” como responder qual é a do Walt. Querem finais sem afagos? Leiam Preacher, Os Invisíveis, Homem-Animal, Sandman… Eu ficaria por parágrafos e parágrafos dizendo como esses finais fecham com absurda perfeição essas séries, e como os quadrinhos, como a arte vanguardista que são, conseguem deixar a TV para trás com extrema facilidade, mas não quero estragar as experiências de vocês, caso resolvam (e DEVERIAM) ler essas séries.

Mas, como certas pessoas, não entrei nessa onda idiota de Perdi seis anos da minha vida com Lost. Bom, se alguém acha isso, deve-se considerar um idiota, por achar que duas horas e meia (ou mais que isso, se não gostou da 6º temporada praticamente inteira, como Eu) estragaram completamente toda uma experiência longa e divertida. É como dizer que uma prazerosa viagem de uma semana foi completamente perdida porque o ar condicionado do ônibus quebrou nas horas finais de viagem, ou que o vôo de volta atrasou três horas. Não, tirando a 6º temporada (fingirei que a série foi cancelada no final da 5º), Lost foi uma série muito boa. Fora que ainda aumentou a minha vontade de ver séries, e arregimentou uma legião de fãs, seeds de torrents e grupos de legendas. Com certeza, Lost vai mais ser lembrada como um fenômeno social do que como uma série que primou pela excelência.

Enfim, respeito os que gostaram da resolução de tudo. Só não me venha com esse papinho de que as respostas não eram importantes, série sobre pessoas, sempre foi uma série mística, é uma série charmosa porque não explica muita coisa… Isso é simplesmente preguiça, porque as teorias já eram tantas e tão bem formuladas, que os roteiristas nem precisavam mais pensar muito. Pena que apelaram para o óbvio e se juntaram ao time de Manoel Carlos! Podem dizer o que quiser do fim de Lost: é metafísico, transcendental, trás paz… mas, ao menos, deve-se considera-lo extremamente mal escrito.


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