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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Avatar FiliPêra

[HyperEspaço #23] Por que não defendo minorias

 

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Tem uma coisa chamada politicamente correto que, creio Eu, todos devem conhecer ou, ao menos, ter uma opinião do que seja. Politicamente correto - a meu ver - é um processo que pretende tornar os símbolos culturais nulos do que se convencionou classificar de preconceito em uma determinada época, dirigido a determinado grupo de indivíduos.

Um exemplo disso é a adoção da palavra “presidenta” após a Dilma ser eleita. O termo presidente é assim desde que aprendi a falar português (é um substantivo uniforme comum de dois) e só agora se inventa de querer criar uma versão feminina dele. “Ah, Filipe… agora chegou uma mulher ao posto máximo governamental do nosso país, então a palavra pede mudanças”. Ué, existem mulheres no tráfico de drogas há muito tempo e nem por isso inventaram o termo traficanta, o que mostra a dualidade presente na questão e um possível preconceito.

Claro que esse tipo de classificação é muito subjetiva e depende de interpretações de alguém - ou um grupo - supostamente instruído para criar uma espécie de padrão aceitável pela sociedade. Se estamos vivendo em tempos denominados Politicamente Corretos, é porque esse tipo de demarcação linguístico-cultural se espalha num ritmo assustador.

Um exemplo disso ficou patente nesse fim de semana, num embate no Twitter que revelou bastante sobre como funciona esse tipo de patrulha ideológica. Para resumir, o crítico de cinema Pablo Villaça linkou uma piada remixada que dizia basicamente o seguinte: “Existem mulheres que você ganha com um olhar. Existem mulheres que você ganha com um bom papo. Existem mulheres que você ganha com um beijo. Para todas as outras, existe Mastercard” [imagem abaixo].

 

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Só para esclarecer e tentar ser justo, a piada linkada foi uma forma de complementar uma piada anterior que dizia que vários homens não conseguem atrair mulheres e apelam para o dinheiro. Logicamente que a piada não quer dizer somente isso, pois têm um sentido invertido, com a afirmação que as mulheres é que são compráveis. Mas, antes de dizer que existem mulheres compráveis, a piada afirma que existem outras três categorias de mulheres, levando-se em consideração que tipo de atrativos elas vêem nos homens. E bom, quer doa em algumas mulheres quer não, existem mulheres que só pensam em dinheiro, como creio ter sido o caso de Anna Nicole Smith, que casou com o bilionário J. Howard Marshall II, de 89 anos - ela tinha 27 anos na época. Como ela, existem outras, e afirmar com toda a certeza do mundo que não existem mulheres que se interessam por dinheiro, me parece um salto no vazio da burrice.

Mas o nosso amigo Pablo tem 9.786 seguidores no Twitter e eis que surge alguém não muito satisfeito com a piada: a Maria Júlia, que se diz feminista de carteirinha. Vamos a alguns tuits dela com reações a piada acima (e somente a piada, nada mais, antes que se assustem):

Só se for a sua. RT @pablovillaca: Como conquistar as mulheres: migre.me/5udwP (:P) [Link]

@pablovillaca Isso é machista, e mostra que você é 1) incompetente pra discutir; 2) um completo imbecil. [Link]

@pablovillaca É mais simples do que parece: Ao pensar em piadas com mulheres, não as faça, pq são sempre machistas. [Link]

@pablovillaca A imagem que você postou serve, sim, pra perpetuar um preconceito contra as mulheres, de que elas são ganhas c/ $ [Link]

Sabe o que eu acho? Que homem, ao pensar em brincadeiras sobre mulheres, devia simplesmente CALAR A BOCA. [Link]

O mais engraçado é ver um bando de homens vindo socorrer o amiguinho. Solidariedade machista. [Link]

Esse é o @pablovillaca mostrando que não passa de um machista patético. Acha que piada com mulher, dinheiro e louça é engraçado. [Link]

E aí, @pablovillaca, aposto que cê curtiu a piada do Rafinha Bastos! Foi só piada, né? Bóra estuprar mulher feia!! Oportunidade pra elas! [Link]

Isso tudo da mesma criatura, só pra constar. Vamos do início: como primeiro movimento, ela começou com uma agressão, ao separar apenas uma parte da piada (machista, na opinião dela) e jogar para cima da mulher do Pablo, que linkou a piada. Em reação ao comportamento que considerou desmedido, ele inicia uma série de piadas ainda mais cínicas e engraçadas (para nós homens, claro, nenhuma mulher riria disso… tirando umas 15 que Eu conheço), incluindo TPM, louças, brincos e outras coisas, além de jogar argumentos dela contra ela mesma (as imagens foram capturadas pela Lola Aronovich, principal motivo desse texto, como demonstrarei nos próximos parágrafos).

Agora também sou racista? Então inclua homofóbico e anti-semita na lista. RT @_julinha: o mov. negro tb é "chato-politicamente-correto"? [Link]

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Ele não parou por aí, obviamente, tem mais coisas, mas Eu paro por aqui, porque essa batalha se estendeu por uns bons dois dias inflamados e não estou escrevendo uma Monografia, além da timeline dele ter muito mais tuits, o que dificulta a minha coleta dias depois dos fatos.

Após a mesma Julinha linkar um texto de uma feminista - que Eu (e várias pessoas que conheço, inclusive feministas) classificaria de radical - chamada Lola Aronovich, doutora em  Literatura em Língua Inglesa pela UFSC e dona do blog Lola Escreva, a discussão esquentou. O motivo é que ela, assim como Pablo, é relativamente famosa e é tida por muitas como uma espécie de representante da luta feminista.

Pois bem, ela não demorou e escreveu um texto relatando algo que ela chamou de “padrão eterno”, que resumidamente seria o seguinte (primeiro parágrafo do texto “PADRÕES QUE SE REPETEM SEMPRE”, da Lola):

Tem um padrão que se repete sempre. É assim: uma pessoa ou um blog ou uma coluna ou whatever com um bom histórico de publicações e declarações em defesa das mulheres escorrega. Publica um texto de alguém falando mal de feministas e chamando-as de feminazi, ou traduz um vídeo de um cara dizendo que o feminismo é uma droga, ou linka uma piadinha machista. Isso repercute, e o sujeito que escorregou é criticado por várias pessoas, incluindo, lógico, feministas. Como o sujeito reage a essas críticas? Negando que seu escorregão foi machista e usando clichês machistas pra ofender as feministas que o criticam.

A mensagem do texto escrito por ela casa e foi complementada muito bem por um tuit que ela mandou quase ao mesmo tempo:

Todo mundo escorrega e é machista às vezes. Acontece. Mas se alguém te critica por isso, saiba ouvir. Reflita. Peça desculpas. [Link]

Para alguém que diz lutar contra preconceitos linguísticos (inclusive o lance da presidenta), que é doutora em literatura - que entende de linguagem com um mínimo de profundidade, por consequência -, usar os termos sempre e todo mundo me parece uma linha argumentativa que se aproxima da tradição ególatra-messiânica com que foi redigida a Bíblia (que ela obviamente não curte, como deixou claro no texto “Assim me diz a Bíblia”), que trata basicamente da necessidade de um salvador que um mundo cruel e pecaminoso (onde nós habitamos) possui. Quer provas? Mando um versículo:

“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Romanos 3:23)

Repare na similaridade das mensagens. Se fizermos uma fusão do texto de Paulo e da Lola ficaria mais ou menos assim: “Pois todos são machistas, e carecem do feminismo”. E essa similaridade denota que ela parece querer saber mais sobre as mulheres do que as próprias mulheres (ou mais sobre mim do que Eu mesmo). “Todo mundo (…) é machista às vezes”. Me pergunto se uma mulher pode ser machista ou um homem feminista. E outra: se TODO O MUNDO é machista, então o machismo não é um problema.

Mais para frente ela manda outra distorção:

Piadinha dizendo que mulher se vende e só se interessa por dinheiro não é lá muito respeitoso à metade da população mundial, e é obviamente uma mentira.

Você entendeu a piada do cartão? Porque posso ter perdido completamente a minha (pouca) racionalidade e só Eu não ter visto essa mensagem de metade da população mundial só se interessa por dinheiro, como foi o caso dela (messianismo-ególatra novamente).

Antes de prosseguirmos, voltemos aos tuits da Júlia (apoiados pela Lola, como mostrarei abaixo). “Que homem, ao pensar em brincadeiras sobre mulheres, devia simplesmente CALAR A BOCA”, diz um deles. Não sei para vocês, mas para mim, isso soa como ela se colocando como representante única e exclusiva das mulheres no sentindo de dizer: “Se a piada me atinge, não a faça, mesmo que uma mulher goste”, ignorando uma série de mulheres que simplesmente não se sentiram atingidas pela piada e o Pablo retuitou posteriormente.

Imagine a seguinte situação: João é casado com Ana, e Júlia (digamos que é a Júlia dos tuits acima) está na casa deles para o almoço. Ana está a beira do fogão cozinhando e João passa atrás dela, dá um tapa em sua bunda, beija seu pescoço e diz algo como “É isso aí, cozinha direito”, o que leva Ana a esboçar um sorriso, retribuir o beijo, e lembrar que fez a mesma piada quando João cozinhou na semana passada. Júlia, uma feminista fervorosa e radical, tem direito de se indignar, e chamar João de imbecil e machista escroto? Pense bem aí…

 

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Para alguém que diz pregar a igualdade, isso me parece bastante absurdo, principalmente se levarmos em conta o tipo de palavreado que ela usou logo depois - e a Lola chamou simplesmente como uma “crítica não radical”, como demonstrou no tuit abaixo.

(+) Meu post ñ foi sobre uma piada ou pessoa, mas sobre UM PADRÃO.Quem vir os tweets verá q eu (ou @_julinha) ñ fomos as radicais da história. [Link]

E pior: em sua visão, Lola diz que Pablo é que deveria simplesmente não ter reagido as críticas (ele não tem o direito, aparentemente), ou simplesmente deveria ter ignorado Júlia (me pergunto por que ela não fez o mesmo, ou dirigiu o mesmo comentário a Julia?).

@brunotasca Quem podia(devia)ter tido atitude diferente ñ fui eu, mas o Pablo.Ele tb podia ter ignorado a @_julinha, ou mandado só 1 tweet. [Link]

Esse comportamento de achar que somente a interpretação dela é válida é que para mim parece um padrão (parece, não será com dois ou três exemplos que chamarei algo de padrão), como ela deixa claro em uma série de textos dela. Em outras palavras: a Júlia estava em seu direito de escrever impropérios contra a esposa de Pablo, mas ele não estava em seu direito de fazer piadas que elas classificaram como “machistas”. Mais uma prova tuitada desse comportamento quase paranóico? Toma:

Como tem feminista q se despreza! RT @joaopdias_m Feminista q se preze tem q lutar é por direitos,igualdade.Ñ por besteiras culturais! [Link]

Outro problema é a interpretação dela da piada em comparação com um outro texto dela que fala sobre a humorista Sarah Haskins: para ela, TODAS as mulheres podem ser compradas com cartão de crédito (ou dinheiro, bens materiais, em essência) e nessa piada não há espaço para outra interpretação, segundo ela mesma. Já os vídeos da Sarah - uma feminista que satiriza a forma como homens são retratados por propagandas destinadas as mulheres, principalmente de utilidades do lar - são apenas “críticas engraçadas”.

Em um trecho do tal texto ela diz:

Sarah começa dizendo que ser mulher não é fácil, já que a gente trabalha e cuida dos filhos e da casa, sem a ajuda daquelas bestas conhecidas como... nossos maridos.

Em outro trecho:

O primeiro pedacinho de comercial do segmento da Sarah mostra um pai tentando preparar o café da manhã dos filhos, que olham assustados. Sarah diz: “Gastei cinco anos pra fisgar esse cara. O motherf***er [Nota do FiliPêra: eu traduziria como “filho da puta” mesmo] não sabe nem preparar café da manhã”. Ela se frustra que os homens não consigam fazer as coisas, porque, afinal, lembra de como o seu amor era nos comerciais antes de se casar? Ele andava em carrões, paquerava mocinhas, se divertia com os amigos... Tudo acabou quando ele conheceu você e se casou. “E agora ele é ligeiramente mais burro que um cachorrro”. Hahahaha.

Ela termina o texto dizendo que “Ah, dá pra passar o dia todo gargalhando”, e está certa. É fácil entender que todos os esquetes representados por Sarah são piadas que ridicularizam estereótipos criados por empresas de publicidade, ou similares. Da mesma forma que a piada do cartão é uma crítica a existência de estereótipos entre o pensamento de certas classes sociais - incluindo várias mulheres.

 

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Em outro tuit, a Julinha responde exatamente o motivo de Eu não defender minorias:

O mais engraçado é ver um bando de homens vindo socorrer o amiguinho. Solidariedade machista.

Percebe a mensagem? Se ELA e a LOLA rotularam a piada de machista, NINGUÉM pode pensar diferente; fazer isso é “solidariedade machista”. É a mesma lógica do “cala a boca” dela em outro tuit. Da mesma forma que me parece estranho - para alguém que diz querer a igualdade - usar adjetivos como “escroto” e “imbecil” para responder uma piada consideraram preconceituosa. É estranho ela não ter a mínima capacidade de reconhecer que está reproduzindo o mesmo tipo de comportamento preconceituoso que diz combater.

É aí que entra meu problema com minorias. Em primeiro lugar, não podemos (digo cada indivíduo) ser descritos sob uma única característica que nos identificaria. Em segundo lugar, quais critérios utilizar para realizar essa classificação?

Explico: dizer “fulano é negro”, “fulano é machista”, “fulano é gay” é uma super generalização de uma estrutura tão complexa como o ser humano. Se auto-enquadrar em uma minoria (gênero não é uma minoria, mas logo explicarei como conecto as duas coisas) é automaticamente entrar em um preconceito simplista.

James Joyce, em seu clássico Ulisses, criou o herói Leopold Bloom, basicamente descrito como um judeu. Vários dos estudiosos mais dedicados da obra de Joyce classificaram Bloom como um judeu por mais de 40 anos e assim foi (o que automaticamente o coloca em uma minoria). Foi aí que entrou em pauta uma pergunta bem simples: o que é ser judeu? E quanto mais analisavam isso, mais chegaram a conclusão que Joyce queria justamente brincar com esse tipo de classificação.

 

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Noam Chomsky, filho de pais judeus e crítico ferrenho da política israelense, pode ser considerado judeu? 

Segundo minhas melhores referências - inclusive um comerciante judeu patrão de um primo meu -, um judeu pode ter quatro características básicas, que variam de acordo com quem está criando o rótulo: pelas leis civis judaicas, é necessário ser filho de mãe judia (ter crescido em um ventre judeu, em outras palavras); pela cabeça dos nazistas ou neonazistas, inclusive os americanos e brasileiros, judeu é quem teve um ancestral judeu qualquer e identificável; para os rabinos, judeu são os que praticam a religião judaica, o que inclui ser circuncidado, não comer carne de porco, guardar o sábado, ir a sinagoga, entre outras coisas; e, finalmente, para outros círculos, especialmente os políticos, o judeu é aquele ativo na comunidade judaica e, de preferência, que apóia o Estado de Israel.

Bloom, o herói de Ulisses, possuía duas dessas características apenas, e aí vem a pergunta: ele é judeu? Não é judeu? Ou é 50% judeu? Outra pergunta: Marilyn Monroe, ao casar com Arthur Miller - um judeu - e praticar a religião judaica, se tornou mais judia que um ateu nascido de mãe judia? Ser judeu é ter sangue de judeus ou praticar a religião judaica?

O mesmo caso - com muito mais complexidade - ocorre com os negros, outra minoria reconhecida. O que é ser negro? É ter uma foto tirada com uma luz padrão e ter a cor da sua pele medida com precisão pelo Photoshop com resultados indicando certa quantidade da cor preta? É ser branco (ou qualquer outra coloração de pele) e ter antepassados negros? É pertencer a uma comunidade negra? É qualquer um que se diz negro? Todas as alternativas anteriores? Nenhuma delas?

Uma analogia que ilustra isso bem está em um episódio do seriado Um Maluco no Pedaço (The Fresh Prince of Bel Air, no original). No tal episódio, Will e Carlton batem uma aposta que prevê que Carlton passe um fim de semana na periferia de Los Angeles para provar que é negro. Will, um negro da Filadélfia, é preconceituoso com Carlton pelo fato dele não ser da periferia, morar em um bairro rico e estudar nas melhores escolas. Em outras palavras: para Will, se Carlton não é pobre e oprimido, ele não representa os negros, é um “traidor do movimento” - vejo coisas similares em feministas como a Lola: se não pensa igual a ela, ou acha a tal piada do cartão verdadeira ou engraçada, o homem é machista ou a mulher não é mulher de verdade, ou algo assim. 

 

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Responda rápido: qual dos dois é negro?

Nem  gasto meus neurônios pensando nessas coisas, ainda mais no Brasil. Por isso não defendo qualquer luta comunista de classes, seja de gays, mulheres, negros, católicos, judeus, ou qualquer outra. Uma classe não é superior a outra, ou “mais oprimida que a outra”, não têm problemas mais urgentes que as outras. Indivíduos têm. A segregação começa exatamente aí, ao ressaltar os problemas de um grupo, minimizará o de outro grupo, ou indivíduo fora do seu grupo. Um “branco” pobre pode ter tanta dificuldade para entrar na faculdade quanto um negro, mas não existem cotas para ele. Exacerbar um aspecto do problema - mesmo que ele represente a maioria - não é resolver todo o problema.

Por isso defendo a Liberdade Individual, pura, simples e total. Todas as pessoas individualmente (e não todas as classes de pessoas, que dependem de julgamentos extremamente subjetivos, complexos e inúteis para serem classificadas, como demonstrei brevemente acima) terem os mesmo direitos. É isso, ponto! Um indivíduo deveria ter direito sobre seu corpo, se drogar, se suicidar ou praticar qualquer outro ato que envolva somente ele.

Existe também a liberdade de pensamento. João pode achar as mulheres a fonte suprema de todas as mazelas da sociedade, é direito dele. Também pode achar que os negros ou imigrantes estão roubando seu emprego. Pode achar também que os judeus formam uma conspiração para deixa-lo cada vez mais pobre. Isso é liberdade de pensamento, ele pode pensar o que bem entender e ter o direito de comunicar suas idéias para pessoas que pensam de forma similar - daí a Ku Klux Klan ter todo o direito de existir, isso é liberdade de associação. As leis e os movimentos sociais devem se preocupar em lutar contra/impedir/punir eventos, fenômenos espaço-temporais e não idéias, pois isso leva ao perigo da censura. Parece absurdo, mas é a esse tipo de abordagem que as leis e perseguições devem se concentrar - a meu ver, um cara que não pertence a nenhuma minoria, aparentemente.

Por essa linha de pensamento, João pode ser integrante da KKK, da Liga Anti-Judia, do Partido Machista… mas não pode praticar atos discriminatórios, ou difamar, ou atacar indivíduos utilizando veículos públicos, ou de comunicação de massa abertos ao público.  

Por isso certos aspectos da luta dita feminista tiveram extremo sucesso com a mudança de pensamento vindo pelo Iluminismo Humanista e outros não. Por se concentrarem em eventos, e não em subjetividade linguístico-ideológica.

Sufrágio, um sucesso, visto ser o combate a um fato objetivo: a proibição de mulheres votarem. Acesso ao mercado de trabalho: posso estar muito enganado, mas se elas não conseguiram isso, estão perto de conseguir, o que é outro fenômeno objetivo. Tive duas chefes mulheres, em instituições presididas por mulheres. Mulheres na política: a presidente do Brasil é mulher, e se não tem mais mulher na política é porque elas mesmas não votam em mulheres, já que são a maioria do público eleitor. O mesmo se aplica a luta do Movimento dos direitos civis, que mesmo iniciado nos EUA por Rosa Parks, uma negra, e ampliado por Martin Luther King, também negro, também combatia movimentos racistas negros, como o Nation of Islam.

 

Mas, parte dos resultados da luta feminista acaba por gerar desigualdade na resolução dos problemas, e isso mostra o problema de privilegiar uma minoria. Por que mulher tem licença-maternidade de seis meses e homem tem licença-paternidade de CINCO DIAS? Será que o filho não precisa do pai tanto quanto precisa da mãe? Por que a Lei Maria da Penha não prevê também auxílio e proteção a homens? Para se ter uma idéia do problema, nem existem estatísticas sobre violência doméstica contra homens, o que denota que autoridades viram as costas para o problema. A quem eles irão recorrer sem serem taxados de “mulherzinhas”, inclusive por várias mulheres?

Veja o trecho da reportagem “Homens também são vítimas de violência doméstica” (iG, 23/08/2010), escrita por Carina Martins:

Não há pesquisas específicas sobre a violência doméstica contra homens no país. Mas alguns estudos dão uma ideia do quanto existe de agressão entre os casais brasileiros – e não apenas de homens contra mulheres. O primeiro é o levantamento da Fiocruz “Violência entre namorados adolescentes: um estudo em dez capitais brasileiras”, que entrevistou 3.200 jovens e constatou que nove entre dez adolescentes já foram vítimas ou praticaram algum tipo de violência dentro do namoro. Os diferentes tipos de agressão, da verbal até a sexual (qualquer forma de toque sexual sem consentimento) são divididos de forma praticamente igual ou muito semelhante entre os gêneros. Ou seja, as meninas praticam atos de violência com tanta frequência quanto os meninos.

Na verdade, em alguns casos elas aparecem como as maiores agressoras. Quando os pesquisadores perguntam sobre violência física, 24,9% dos meninos disseram já terem levado tapas, puxões de cabelo, chutes ou socos, contra 16,5% das meninas. A parcela feminina que admitiu já ter agredido seus parceiros também é maior que a deles: 28,5% das meninas contra 16,8% dos meninos. A explicação, de acordo com os autores do estudo, passa pela reprodução por parte das meninas do modelo de dominação masculina.

Os dados são claros, porém, em um trecho no início, ela tentou conduzir a reportagem com a seguinte frase: “Mas embora o problema não seja sistêmico e disseminado como as agressões contra a mulher, homens também são vítimas de violência doméstica”. Para mim isso soou como: homem apanhar é um problema menor, menos urgente!

Mas os próprios personagens da reportagem mostram que esse também é um problema urgente, ao contrário do que a repórter pareceu quis dar a entender:

O comerciante do interior paulista que não quis ser identificado pela reportagem também preferiu não se revelar para a Justiça. Durante os treze anos que viveu com uma companheira, o homem de 48 anos diz ter sido vítima de agressões frequentes ao longo de pelo menos dez. Nunca procurou a Justiça. “Quem tem coragem de dizer que apanha de mulher?”, pergunta.

Há alguns dias, a polícia francesa encontrou o corpo do chef Jean-François Poinard, 71, desaparecido há quase dois anos. Sua companheira admitiu tê-lo matado a socos durante uma briga.

Veja o vídeo abaixo (postado pelo Edu Mad-Hatter):

 

Suponhamos que o rapaz do vídeo tenha ido ao tal Corujão e tenha transando com a tal Mirella (concordemos que essa é pior das hipóteses possíveis pelas acusações do que parece ser a namorada dele). Isso dá o direito dela bater nele? Não, mas ela bateu. Se ele reagisse (igualdade para todos, pode chamar de escroto imbecil quem faz piada com cartão de crédito, né?!) aos tapas na cara e desse um soco quebra-dente nela estaria sendo radical, machista, ou algo que o valha? Poderia ser enquadrado pela Lei Maria da Penha?

Falando em Lei Maria da Penha e continuando o assunto da violência doméstica, não vi as feministas reclamarem que a lei não prega a igualdade como elas tanto levantam em suas bandeiras - ou dizem levantar. Vamos a uma interpretação de quem saca do assunto mais que Eu - Rodrigo de Oliveira Machado, Advogado, Pós-graduado pela Fundação Escola Superior do Ministério Público do Distrito Federal e Território -, no artigo “Aplicação da Lei Maria da Penha a homens vítimas de violência doméstica” (2010) escrito para a revista Jus Navigandi, hospedada pelo UOL.

Nesse conspecto [da distinção], analisar-se-á a Lei Maria da Penha, a qual promove distinção de gênero, partindo do pressuposto de que toda a mulher, no âmbito familiar ou nas relações íntimas de afeto, é vulnerável. Conforme já salientado, entende-se ser inconstitucional sua interpretação literal, haja vista ferir o princípio da igualdade. Com fito de demonstrar isso, cumpre trazer a lume e aplicar os ensinamentos de Celso Antônio Bandeira de Mello, contido em seu livro Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade.

Outro trecho:

Para exemplificar, imagine-se a seguinte situação hipotética: um pai que espanca sua filha de 10 (dez) anos, causando-lhe lesões corporais de natureza leve, pode ser preso em flagrante, será indiciado em inquérito policial, poderão ser decretadas medidas protetivas em seu desfavor (tais como afastamento do lar, proibição de contato e aproximação, dentre outras), e não fará jus aos benefícios da Lei 9.099/95. De outra face, se praticasse esse mesmo ato contra um filho de 10 (dez) anos, ao invés de uma filha, o autor não poderia ser preso em flagrante, não seria indiciado em inquérito, e poderia gozar da transação penal ou suspensão condicional do processo. Note-se que disparidade.

Será que um homem que bate em uma filha é mais criminoso do que o bate em um filho? Um esposo que bate na esposa é mais criminoso do que uma esposa que espanca um esposo? Creio que não, mas não é isso que a Lei parece dizer e não somente a mim.

Na interpretação de L. G. Grandinetti Castanho de Carvalho, em seu livro Comentários à Lei de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (p.108, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009), a lei é falha por não visar a proteção de todos os integrantes da família, principalmente os homens.

Veja-se que o preâmbulo da lei ora examinada remete ao artigo 226, § 8º, da Constituição, que diz: "O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações". Percebe-se facilmente que a promessa constitucional não foi integralmente realizada [pela Lei Maria da Penha], pois a lei somente cuidou de proteger a mulher vitima da violência doméstica, não os demais membros da família, apesar de o texto constitucional referir-se expressamente a cada um dos que integram a família.

Para terminar esse aspecto da interpretação da lei:

O princípio constitucional da igualdade, contido tanto no caput, como no inciso I, do art. 5º, da Constituição, foi violentamente ofendido. É certo que o senso comum demonstra que as mulheres são usualmente as mais agredidas nas relações familiares. Mas a lei não pode descurar-se de proteger todos os membros da família que se encontrem na posição de vítimas de violência, pois assim determina, cogentemente, a Constituição.

Pense-se nas não raras possibilidades de a mãe causar lesão corporal dolosa de natureza leve no filho menor, ou de a neta fazer o mesmo com o avo idoso. Nesses casos não poderá ser decretada a prisão preventiva, pois o artigo 313, I, do Código de Processo Penal, somente admite a prisão preventiva para os crimes apenados com reclusão, o que não acontece com a lesão leve. Mas uma mesma lesão leve que venha a ser praticada pelo irmão contra uma irmã, ou pelo marido contra a mulher, ensejará a prisão preventiva, caso preenchidos os requisitos do artigo 312 e necessária para garantir a execução de uma medida protetiva.

Definitivamente, não há justificativa constitucional para a gritante diferença de tratamento, ainda que se entenda a situação cultural que leva as mulheres à condição de vítimas preferências de violência doméstica. Havia, conduto, outros meios de proteger vítimas de violência doméstica, incluindo o gênero feminino, observando a Constituição.

Note-se a desigualdade no tratamento do texto da lei, e nada disso foi exposto por feministas, que preferem se preocupar com piadas machistas e preconceitos que só elas vêem.

Espera que ainda pior: segundo o texto A LEI MARIA DA PENHA VS OS HOMENS RETRÓGRADOS, de autoria da Lola, o fato dos homens também apanharem e não terem lei para protege-los “não passa de uma idiotice” e quem diz isso tem “pensamento de neandertais”. Quer mais? Toma o trecho abaixo, do mesmo texto linkado acima:

Alguns homens são vítimas de violência doméstica também, mas é diferente. Mulher quando bate dá tapa, arranha (sou veementemente contra), mas homem dá soco. Homem que apanha tem que denunciar a parceira, e pra isso existe o Código Penal. Mas a violência é totalmente desproporcional.

Não sei que base minimamente objetiva e fenomenológica ela usa para fazer uma afirmação generalista e burra dessas, já que nem existem estatísticas relativas a violência doméstica contra homens aqui no Brasil. Em países em que existem estatísticas, os resultados mostram o contrário: um estudo publicado no American Journal of Preventive Medicine afirma que 29% dos homens americanos já foram vítimas de violência doméstica, verbal ou física [BBC].

A Lei Maria da Penha é ótima? É, com toda a certeza, mas por que cria esse tipo de disparidade e tratamento diferenciado? Por que feministas não são contra esse tratamento, já que ele é, de forma gritante, contra a igualdade única e absoluta defendida por elas?

E existe algo pior por trás da violência contra homens: várias mulheres a acham tolerável. Um estudo internacional feito por 36 universidades com as 6.500 mulheres revelou que 68% delas aprovam a agressão física contra seus parceiros e 35% admitiu que já agrediram seus parceiros, em ataques que resultaram em “escoriações, cortes e até mesmo ossos quebrados” [BBC - Tradução no Galácta].

Murray Straus, co-autor do estudo, parece pensar de forma diferente da Lola quanto a existência dessa categoria de violência:

“O ponto de partida é que precisamos ter a mesma “indignação” sobre a violência contra os homens que temos quando um homem agride uma mulher”.

Chamar de “idiotice” não me parece ser uma forma de se indignar. Mais disparidades estatísticas contra a falácia da “idiotice da violência contra homens”? Nos últimos cinco anos, cresceu 169% o número de mulheres presas no Reino Unido (país que começou um processo de criação de estatísticas sobre o assunto) por violência contra homens [BBC].

Dados fornecidos pelo Crown Prosecution Service (órgão britânico responsável por levar crimes investigados pela polícia aos tribunais) mostram que quase 4 mil mulheres foram presas por cometer violência doméstica no ano passado, em contraste com 1,5 mil em 2005 - um aumento de 169%. Para alguns especialistas, os índices são um sinal preocupante de uma cultura cada vez maior de violência por parte da mulher. Outros dizem que quem mudou foram os homens, hoje mais dispostos a contar que foram agredidos por esposas e namoradas.

E uma consequência direta do processo de simplesmente ignorar o problema é bastante claro:

Há poucas organizações oferecendo suporte a homens que foram vítima de violência feminina na Grã-Bretanha. Uma entidade britânica que oferece o serviço, a Mankind Initiative, disse que em todo o país existem apenas 70 leitos distribuídos entre 20 abrigos para vítimas homens, em comparação com 7,5 mil leitos para mulheres que são alvo da violência masculina.

Segundo o presidente da Mankind Initiative, Mark Brooks, apesar do número de mulheres condenadas, algumas organizações ainda se recusam a reconhecer que homens também podem ser vítimas de violência doméstica.

Isso tudo porque “mulher quando bate dá tapa, arranha, mas homem dá soco”. Explica isso ao Kieron, um inglês entrevistado pela reportagem acima, que “foi esfaqueado no peito pela ex-mulher, que hoje cumpre uma pena de quatro anos e meio na prisão”. Ou ao Peter, que afirmou “ter sido vítima de maus-tratos físicos e emocionais pela esposa durante quase um ano”, e quando chamou a polícia “não teve coragem de apresentar queixa”. Peter continua, e diz que “durante meses, ele foi obrigado a dormir na mesma posição, de costas. Se virasse de lado, a esposa lhe dava socos e chutes”.

Ele ainda continua seu depoimento:

"Não estava esperando o soco no rosto. Não esperava que alguém fosse me bater tão rápido."

"Sabe quando você ama alguém tanto e você acredita que a pessoa simplesmente pode mudar? Eu tinha esperança de que ela ia mudar".

Repare bem que Eu não disse em momento algum que mulheres são as que mais batem, mas seria completamente imbecil, retrógrado, ridículo, demente, além de poder ser configurado como cegueira mental, afirmar que quem diz que mulher bate em homem tem “pensamento de neandertal” ou uma “idiotice”. É a mesma coisa que dizer que violência existe somente em casais heterossexuais, embora pesquisas preliminares pareçam dizer o contrário [Público - PT].

Apesar de invisível, a violência nas relações homossexuais é “tendencialmente mais elevada”. Esta é a ideia-chave de um estudo que acaba de ser feito na Universidade do Minho (UM): 39,1 por cento dos participantes admitiram ter adoptado algum comportamento violento e 37,7 revelaram ter sido vítimas de, pelo menos, um acto abusivo no ano anterior.

 

Por motivos como esse que vejo Leis Maria da Penha (quando aplicadas de forma literal, o que não está sendo feito por muitos juízes), cotas para negros em universidades públicas, vídeos sobre gays em escolas, entre outras, são apenas medidas tapa-buracos para tentar consertar problemas na interpretação constitucional mais básica: somos todos iguais como indivíduos! Não existem minorias, raças, e outras classificações que só dão origem a mais divisões sociais, cada vez mais profundas e incentivadas por pessoas que parecem dotadas de cegueira mental, como a Lola. Todos devemos ter acesso a educação, saúde, emprego, lazer, respeito, direito de ir e vir, de nos associar, de contar piadas, de amar nossos companheiros(as).

sexta-feira, 20 de maio de 2011

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[HyperEspaço #22] Como nasce uma resenha

 

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O NSN nasceu com um objetivo muito definido e específico: publicar resenhas de filmes, quadrinhos, livros, séries de TV, música ou qualquer produto cultural que decidíssemos que valia uma resenha. Era essa a idéia primordial minha e do Bruner, os dois principais fundadores deste espaço. Não muitos meses depois, em nome da diversificação, acabamos nos desviando desse plano, escrevendo outros tipos de textos e aos poucos assumindo o formato que temos hoje. Mesmo assim, as resenhas ainda são uma parte importante do nosso blog - a mais importante, pra mim.

Sempre acreditei que um texto é uma das formas mais completas de expressão, provavelmente por ser a que mais me identifico e divirto. Não dou muito valor a dança, a retórica, a artes cênicas, e outras atividades de expressão corporal, mas o Texto, uma atividade essencialmente intelectual e não-física, sempre teve o máximo da minha estima. Procuro realizar todo o tipo de experimentação quando escrevo, nem sempre obtendo os melhores resultados. Às vezes experimento algumas pequenas mudanças estéticas, seja inserindo uma pomposidade gramatical irritante, próxima ao quase sempre maçante texto científico, seja acrescentando ao escrito uma fina ironia que fica no limite do sarcasmo barato.

Não por acaso, várias pessoas que posteriormente souberam que Eu também era o Voz do Além, me questionaram como conseguia diferenciar a linguagem textual dos dois - pergunta a qual nunca tive uma resposta muito satisfatória, até pra mim mesmo. Outras vezes busco alterar a forma como escrevo, fugindo do clássico bunda-na-cadeira-notebook-na-mesa: pode ser escrever sem dormir por um longo período, escrever na rua no meio da madrugada, ou após a ingestão de uma mega quantidade de café. Os resultados nem sempre são dignos de nota, mas ao menos limpam a consciência, invocam algum tipo de mudança quase religiosa, e impedem a mesmice.

 

Mas se tem um texto que nunca procurei mudar de forma tão dramática ou deliberada, esse texto é a Resenha. Uma resenha é o tipo de escrito mais simples possível: é só assistir um filme, ler um livro, ou coisa similar, e depois iniciar um processo de contá-lo a um amigo, seja exaltando suas qualidades ou detonando coisas irritantes que foram identificadas no meio do caminho. Coloque no meio um pouco de conhecimento sobre linguagem visual, teorias da comunicação, um pouco de experiência com atuação, e um blábláblá bem feito, e tá pronta uma resenha de filme de bom nível. Acrescente aí uma poderosa verborragia recheada de sinônimos e adjetivos que às vezes não falam absolutamente nada - os críticos de críticos conhecem isso muito bem -, presentes principalmente em resenhas musicais - é meio difícil descrever os efeitos da música na sua cuca, então dá um desconto.

Se não entendeu direito, pense num enólogo - um babaca que usa esse nome metido a bonito e se denomina “cientista dos vinhos” - que cumpriu seu ritual básico de beber uma taça de vinho - girou, cheirou, olhou para os lados pomposamente - e depois de uma golada define a bebida com um Ousado! Chamar um vinho de ousado não quer dizer porra nenhuma, mas dá uma boa dimensão do que um enólogo quer dizer ao descreve-lo: ele não esperava um vinho tão bom (Eu acho que é isso, ao menos, odeio vinho e praticamente todas as bebidas alcoólicas, e não poderia resenhar uma… mas resenhei strip teases).

É lógico que alguns Críticos de Raiz dirão que existem muito mais elementos por trás da construção de uma resenha/crítica (chamo meus textos de resenha por considerar os dois termos meros rótulos, se quiser chama-los de crítica, fica a seu critério, considerarei a mesma coisa), mas Eu encaro as coisas por esse lado, principalmente por ter uma idéia de ludismo muito forte por trás da profissão de jornalista cultural e crítico social, a linha que mais me identifico. Apesar de um senso de responsabilidade muito forte, sempre procuro me divertir - e, ainda mais importante, divertir quem lê - enquanto escrevo uma resenha. Isso mesmo que seja  ao escrever no NSN, no GamesBrasil, ou se fosse contratado pela Rolling Stone, ou New Yorker. No fim, ia encarar as coisas da mesma forma descabeçada, no melhor estilo P. J. O' Rourke escrevendo sobre hotéis bombardeados no Líbano (procura no Google e seja feliz, rendeu um livraço).

Pretendo ser bem sincero com esse texto, pra início de conversa e não esconderei que um dos principais propósitos da resenha é uma sutil manipulação. Não tem como ser diferente, uma resenha é um amontoado de palavras puramente opinativas, e quando alguém dispara uma opinião, ele quer basicamente impactar os que têm a coragem de lê-la ou ouvi-la. Nem sempre se espera esse impacto na forma de admiração, pode ser também na forma de pedradas de comentaristas que odiaram o texto, depende do filme/HQ/whatever em questão. E quanto mais inflamada e polarizada a reação melhor. Quando algum jornalista/crítico sério resenha Crepúsculo, ele não espera que seus leitores comuns o fiquem elogiando, mas que os fãs da série vampiresca gay odeiem sua resenha e o condenem a passar uma temporada mergulhado na purpurina. É isso, nem sempre os elogios são os melhores alimentos pro Ego, um pouco de conflito pode ter o mesmo efeito - ou melhor, quando o crítico tem uma síndrome de Messias mal alimentada.

Obviamente que toda a argumentação do autor para sustentar a opinião dele deve ter algum tipo de embasamento, mesmo que seja furado. É uma regra inclusive da escrita científica: você pode ser o cara mais revolucionário e criativo do mundo, mas suas teorias não podem ser anti-paradigmas o suficiente para que você não tenha autores reconhecidos do seu lado. É a vida, se vai mudar o mundo, não o faça sozinho! Se fizer, reúna as melhores provas empíricas que conseguir. Ou faça como Eu e escolha cuidadosamente as metáforas e capriche no bom humor, um leitor rindo geralmente vai ficar do seu lado. É por essa falta de senso crítico que os universitários medrosos enchem seus trabalhos científicos de citações, às vezes não conseguindo passar de um mero resumo.

É nesse fio de navalha extremamente incômodo e excitante que vive um crítico. Ele deve ser bom o suficiente para tentar colocar alguma inovação particular em seus textos, ao mesmo tempo que busca referências no passado pra mostrar que não está sozinho. É dicotômico, e por isso mesmo, divertido à beça!

Claro que existe uma espécie de hierarquia nessa construção aí. A Opinião do crítico (vou usar o termo crítico pra rotular o cara que escreve resenhas/críticas. Me parece mais egocêntrico que o insosso termo resenhista) é mais importante que sua porção Informativa. Explico. Como afirmou o psicólogo, filósofo, romancista, anarquista (e mais um monte de coisas) Robert Anton Wilson, citando o Dr. Leonard Orr, a porção racional do nosso cérebro se divide em duas partes: o Pensador e o Demonstrador. O Pensador elabora idéias, opiniões, visões, e tudo que junto, forma a chamada Visão de Mundo. Já o Demonstrador se encarrega de caçar embasamento pra tudo isso, com teorias, técnicas, até mesmo com pesquisas científicas sérias. Claro que o Demonstrador pode influenciar o Pensador, mas quando o segundo bate o pé sobre algum conceito, não existe demonstração contrária que mude isso.

**Nesse momento, reserve um minuto de silêncio para refletir como deve ser o Pensador dos líderes católicos, dos principais políticos do mundo e dos maiores executivos de Wall Street**

Então, a partir do momento que você não gosta de Lady Gaga, dos filmes de Steven Spielberg, ou mesmo dos quadrinhos de Geoff Johns, provavelmente não vai importar o nível de qualidade que porventura esses artistas possam alcançar, seu Pensador irá enviar um sinal impedindo você de gostar do mais novo trabalho desses seres, e o Demonstrador vai embasar cuidadosamente a visão preconceituosa do Pensador.

Acredite, isso é normal, e o trabalho do crítico deve ser o parcial o bastante pra passar por cima disso com elegância, às vezes até explicitando como "odeia os trabalhos da Marvel, mas apesar disso se amarrou em Os Supremos I e II" (situação hipotética me envolvendo, antes que perguntem quem disse isso). E hoje, com campanhas de marketing massivas, superexposição diária de atores e cantores, entre outras coisas extremamente desagradáveis, os Pensadores dos críticos (inclua o meu aí também, Eu gosto de vê-lo viciado nessas ideologias burras da cultura pop) estão cada vez mais impregnados de fatores extra-obra, suficientemente fortes pra influenciarem na avaliação final do produto. É a vida, somos todos humanos, e quem quer condenar os críticos à fogueira por isso, provavelmente coloca a opinião deles num pedestal dourado acima do Bem e do Mal.

 

P. J. O'Rourke

Deve-se analisar uma espécie de establishment crítico que existe em tudo quanto é camada jornalística. Esse establishment silencioso estabelece perigosos consensos massificadores que colocam em risco o trabalho crítico. Por exemplo, é consenso entre os críticos de cinema que os melhores filmes da história são O Cidadão Kane, O Encouraçado Potemkin e Casablanca. É difícil ver alguém fugir disso, mesmo os críticos dessa geração, que não presenciaram o impacto que foi o lançamento dessas obras. Eu não me faço de rogado ao dizer que os três melhores filmes da história (ou da minha geração, como quiser) pra mim são O Senhor dos Anéis (a trilogia), Clube da Luta e Coração Valente. Sei que tem uma multidão de filmes igualmente bons ao longo desse mais de um século da existência do Cinema, mas foram esses que me impactaram com força suficiente para serem classificados como "os melhores". Da mesma forma, existem filmes para ser odiados (estou usando os filmes mais como exemplo, pelos críticos cinematográficos serem mais conhecidos, apesar dos críticos musicais serem socialmente mais importantes, por motivos que Eu talvez aborde até o fim do texto).

Do outro lado do problema, apesar de divertidos, todos os filmes da série A Múmia são unanimemente odiados por boa parte da crítica. Parece uma rixa com seu diretor, o clichezento Stephen Sommers, mas não pesquisei o caso o bastante pra descobrir. Talvez seja uma coincidência, no fim das contas, ou os filmes sejam piores do que me parecem, por motivos tão obscuros que só críticos de verdade os tenham encontrado.

É aí que entra o que chamo de Calos Críticos, que são obras que o establishment gosta e o crítico odeia. E vice-versa. É quase um pecado reconhecer um Calo Crítico, principalmente pra alguém que gosta de se divertir levando esse lance a sério e criando rixas por causa de gostos alheios, como é meu caso. Creio que muitos conhecem vários dos meus gostos, como minha preferência pela Nintendo, pela DC Comics, meu fanatismo pelas obras de gente como Grant Morrison e Alan Moore. Mas, da mesma forma, possuo meus Calos Críticos e realmente não tenho medo de escondê-los. Muitos sabem que ouço (e gosto) de Avril Lavigne, um calo crítico dos piores, ou minha predileção por filmes de zumbi de comédia, ao invés dos clássicos de George Romero colocados num altar - o que gerou uma pequena polêmica na minha resenha de Zombieland. Também me amarrei na adaptação de Watchmen para os cinemas, indo contra toda uma série de fãs que condenaram o filme ao inferno - um dia faremos um podcast só com Calos Críticos (isso no dia que fizermos um podcast de novo). Odeio os filmes de Pedro Almodóvar e os livros de Sidney Sheldon, ambos aclamados pela crítica.

 

Outra coisa que se deve levar em conta quando se lê uma resenha é o veículo em que ela foi publicado. Um crítico não é um totem, não deve imaginar que o texto dele é imutável e independe de qualquer fator externo. Ele deve entender que a escrita deve variar com o público. Se você, um crítico que alcançou a fama recentemente, tá escrevendo uma crítica de um filme de Woody Allen para o Jornal dos Aposentados Ricos do ABC Paulista (algum físico diria que esse veículo existe num dos cerca de 10¹²²²²²²²²²²²² Universos Paralelos supostamente coexistindo num hipotético Multiverso), creio que ela será diferente de um texto similar escrito pra revista Adolescentes Geração Y (outro veículo, outro Universo). Você deve tentar entender que tipo de influências que esse público possui, que tipo de filme gosta, e outras coisas similares. A mesma coisa se um dia resenhar um filme de Almodóvar numa revista feminina: deve-se ressaltar coisas que o público da revista olhará, e não somente o que você está vendo.

O crítico deve ser os olhos desse público sobre o filme. Com os jornais não-especializados e revistas semanais de notícias esse tipo de diferenciação desaparece, já que esses veículos jornalísticos são essencialmente de generalidades. Se um jornalista de games escreve uma resenha (ou review) de Resident Evil 4 para a revista VIP, ela será diferente de uma escrita para a EDGE, por exemplo. Um leitor da VIP talvez não tenha jogado os games anteriores da série, e isso elimina a necessidade de ressaltar como RE4 ofereceu mudanças profundas na jogabilidade da série.

É esse tipo de desafio de estilo que fica no caminho de um crítico consciente que seu trabalho não se limita a falar mal ou bem de alguma coisa, é preciso conhecimento e um pouco de desprendimento. Basicamente um crítico deve saber responder a uma pergunta básica: por que você gostou/odiou desse filme? É no embasamento dessa resposta que está o principal trabalho dessa classe tão amada e odiada.

 

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Outro ponto a ser abordado é sobre o sistema de notas. Alguns o odeiam com todas as forças, dizem ser um rótulo excessivamente raso para abranger todas as qualidades/defeitos de um filme. Eu concordo, mas somente se a nota vier sozinha, sem um texto descrevendo como o crítico chegou àquela avaliação, e essa é a forma como fazemos por aqui. A nota não é uma avaliação acadêmica e nem deve ser utilizada como parâmetro comparativo - da mesma forma que tirar menos que um amigo na faculdade não quer dizer que você sabe menos - de uma forma absoluta. É lógico que um filme 5 sempre vai ser inferior a um 8 ou 9, mas nem sempre um 9,5 é melhor (por mais subjetivo que seja o melhor aqui) que um 8,5 por exemplo, existe muito mais coisa aí na jogada.

Como escreveu Niels Bohr na sua chamada Interpretação de Copenhague da Física Quântica: Tudo influencia tudo. Um experimento científico não deve ser encarado como uma Verdade Absoluta, mas sim como um rótulo que provavelmente se adequou bem a um fenômeno, da mesma forma que um cardápio representa adequadamente os pratos vendidos por um restaurante, ou um mapa representa cartograficamente um território. A própria temperatura de um termômetro influencia na medição, como observou ele. Logicamente que isso não coloca por terra os avanços científicos, mas epistemologicamente nos avisa que o Absolutismo deve ser dispensado como algo irrisório e desnecessário, podemos adequar nossas teorias a mudanças de conhecimentos e paradigmas temporários.

Isso tudo na Ciência, o campo de conhecimento humano considerado mais objetivo e livre de influências externas. E como a Crítica é um reino inteiramente, e permissivamente subjetivo, essas influências são ainda mais aterradoras. A expectativa de um crítico com relação a um filme com toda a certeza influencia na avaliação final, assim como um maldito do lado dele que se revelou um fanboy do diretor do filme, babando o ovo do cara em voz alta... e isso leva o cara a detonar o filme numa vingança silenciosa (Eu já fiz isso).

Essas Variáveis Críticas são muitas, e podem até mesmo ser a chamada "honestidade do diretor", coisa do povo do Omelete ao justificar uma avaliação ruim de A Origem, de Chris Nolan, e uma boa de Transformers 2. Um crítico também pode relacionar o personagem principal com a Teoria dos Arquétipos de Jung, como fez Mauro Saldanha ao dizer que "todos os homens queriam ser Edward Cullen", o vampiro gay e indeciso. Eu gosto de pensar em todas essas influências, e até as alimento com mais textos, geralmente sendo cuidadoso o bastante pra embasar e me livrar de um possível fogo cruzado. Acho que essa é minha maior especialidade: arrumar argumentos ao menos minimamente sólidos pra todas as minhas idéias (talvez Eu só possua idéias solidamente argumentáveis, mas não creio), por isso me ponho sempre como um fã e aprendiz dos odiados Sofistas.

 

Sentado em sua cadeira, enquanto escreve e imagina construir uma Nova Era, o crítico e sua soberba geralmente não gostam de pensar nessas coisas, se portando unicamente como estandartes da verdade e da evolução do gosto de seu público. Claro, se ele for um bom crítico, que pensa continuamente em evoluir, com toda a certeza faz isso: cuida de aumentar a exigência de seu público com relação a qualidade, e fazê-lo querer experimentar filmes que cada vez mais primem por experimentações vanguardistas. Eu gosto de pensar que evolui, principalmente quando leio os primeiros textos desse blog e solto algumas risadas, ao mesmo tempo em que cada vez mais gosto das resenhas que escrevo atualmente, mesmo que seja em menor quantidade do que antes. Creio também ser necessário que esse mesmo agente cultural seja capaz de fazer auto-avaliações periódicas pra entender a natureza de seu trabalho. O que nos leva ao que considero fundamental: a formação de um crítico.

O trabalho de um crítico, assim como de um jornalista, é essencialmente prático. Não adianta ter bagagem teórica da melhor qualidade, ele sempre será reconhecido pelo que já escreveu, e não pelo que estudou. Dessa forma, escrever bem (com clareza e bom humor, o que não quer dizer que se deva inserir uma piada a cada linha) é muito mais fundamental do que saber quem foi o assistente de produção de A Noviça Rebelde. Ainda assim, um crítico deve ter conhecimento do que fala, conhecer teorias cinematográficas, como é o processo de construção de um filme, possibilidades de edição e movimentos de câmeras, entre outras coisas que tornam o cinema possível. Posso dizer que ser um técnico de Produção de Vídeo formado me ajudou bastante a entender como se faz um filme, ao mesmo tempo que minha formação jornalística me colocou em contato com aspectos mais teóricos da Comunicação, e por isso mesmo me sinto mais a vontade ao escrever uma resenha de filme. Por outro lado, não me sentiria muito a vontade se fosse escrever uma resenha literária fora do NSN, mas creio que o Murilo Andrade se sai bem, assim como penso que a Beatriz se sai muito bem ao escrever sobre animes/mangás. Cada um deve reconhecer seus próprios pontos fortes e fracos, nada mais natural. Tal conhecimento se difere do já citado conhecimento enciclopédico, que gente como José Wilker faz questão de berrar que possui. Da mesma forma, ser cineasta não transforma um cara em um crítico - como disse Martin Scorsese: Eu gosto demais de cinema para criticá-lo - e vice-versa.

De uma forma romântica e próxima a silenciosamente descrita por Adorno e Horkheimer em sua seminal análise da Indústria Cultural, o crítico seria uma espécie de cruzado contra todos os clichês e maneirismos baratos comercialmente usados pela indústria de cinema/música/literária/quadrinística/outra. E uma resenha é sua principal arma, onde ele se sente livre - às vezes de forma quase infantil - para combater esse tipo de ameaça ao seu território e a seu público. Um crítico deveria ser um agente quântico-evolucionário responsável por saltos de qualidade contínuos nas coisas que resenha, antecipar tendências, apontar arbitrariamente o que ele gosta de forma quase canibalesca, entre outras atividades bem gloriosas e ruidosamente divertidas. Mas não é difícil ver hoje que a Classe Crítica foi vencida por uma ordem panfletária destinada simplesmente a criar hype e seguir a ordem publicitária que assolou a indústria.

E esse estado letárgico conduz ao quadro que vemos hoje: uma multidão de filmes adaptados de quadrinhos ou livros, poucas idéias novas, a lenta morte do cinema independente, diminuição do público nos cinemas - os recordes dos últimos anos devem ser encarados de forma diferenciada, já que mostra uma pesada concentração de público em pouquíssimos filmes - e um cada vez mais iminente colapso criativo. A receita para combater isso é óbvia: críticos vorazes e comprometidos com a qualidade cinematográfica, que não se deixem comprar por presentes de editoras (nem que seja as ultra-desejadas Edições Definitivas de Sandman), que não tenham medo de metralharem o que for ruim, ou tornar digno de culto as obras que merecem... é por aí, acredite: mesmo sendo odiados, os críticos ainda são necessários!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

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[HyperEspaço #21] A morte de Osama e a noite em que o 4Chan chutou a bunda preguiçosa da mídia

 

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Quem não dormiu cedo no domingo (só os bons que não têm medo daquela segunda-feira ressaquenta) leu em primeira mão a metralhadora de informações desencontradas sobre a suposta morte de Osama Bin Laden, alçado ao posto de inimigo número 1 do Mundo Livre depois daquelas cenas inacreditáveis do 11 de setembro. O palco dessa maluquice foi o Twitter, em que redes de notícias tuitavam com a voracidade de mordidas de um bando de hienas famintas e risonhas em cima de uma carniça recém-fedorenta.

A bem da verdade é que para uma sociedade amortizada por uma cultura de excesso de informações baratas, a Morte de Bin Laden foi um espetáculo bem broxante. Tirando umas tuitadas de um paquistanês que só sacou que tavam metralhando o Bin Laden depois que narrou todo o embate, o resto foi mais burocrático que o zeramento de qualquer Tomb Raider - incluindo o 2, que ela aparece de roupão depois de um banho de banheira.

Depois de 10 anos, trilhões de dólares cuspidos em guerras, milhões de mortos na caçada… esperava-se mais dos sempre espetaculosos Estados Unidos da América. Porém só rolou um pronunciamento do Obama estilo LIKE A BOSS afirmando de peito aberto que tinha sido ele o responsável pela morte do barbudo (sem levantar a bunda do Salão Oval), a garantia que um exame de DNA comprovava que era mesmo Bin Laden o baleado e a promessa de fotos.

Somos uma sociedade visual, de transmissões via satélite, queremos imagens! Já vimos Marte, já vimos o homem (supostamente) pisar na lua, como assim não podemos ver Bin Laden morto?! Será que Osama é Cristo, que morre e ninguém precisa ver o corpo?!

Para os americanos, essa escassez de material visual concreto - diferente do que rolou quando capturaram o piolhento Saddam Hussein, que teve até vídeo de enforcamento vazado na internet - não foi um entrave para uma festa tresloucada e carnavalesca em frente a Casa Branca e no Marco Zero (AKA o lugar onde eram as Torres Gêmeas). Só faltou garotas americanas mostrando ao vivo porque as estadunidenses são conhecidas mundialmente por seus pares de seios, ao fazer valer a tradição do flash do Carnaval de Nova Orleans.

 

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Nessa guerra voraz em busca da informação antes dos outros - a famosa furada jornalística - veículos do mundo inteiro escorregaram numa casca de banana das piores: postaram uma foto falsa - e porcamente montada - que seria a primeira a mostrar Bin Laden morto. A imagem havia saído do 4Chan, o lado mais podre da internet mundial, e na minha timeline foi postada pelo Bobagento, exatamente às 15 pra uma da matina. Isso tudo, alguns meses depois de Eu defender inflamadamente a superioridade da Mídia Tradicional sobre as Redes Sociais (mas aquele texto lá continua valendo, só pra constar).

 

Ainda na longa madrugada de domingo - segunda-feira foi feriado aqui no Espírito Santo, adentrei a madrugada no eterno nada-faz fingindo ser analista de mídias sociais - a coisa piorou: a Casa Branca informou que Bin Laden estava desarmado quando foi alvejado, e que seu corpo foi jogado no mar, “depois de ter um funeral nas tradições muçulmanas” em um porta-aviões que o sono não me deixou apurar o nome - ou não foi divulgado, assim como muita coisa nessa história.

Em resumo temos: CNN, New York Times, um paquistanês tuitando e outros veículos cuspindo informações desencontradas mas que no final das contas apontavam que Bin Laden estava morto… mas nada de imagens ou outras coisas concretas, só uns vídeos meio embaçados e mais acelerados que filme de Michael Bay. E ainda por cima, soubemos que os militares americanos chupinharam o estilo da ditadura brasileira de sumir com seus inimigos ao despachar Bin Laden dessa pra uma pior - que já era uma chupinhação do estilo siciliano, mais honrado, tradicional e cheio de significados.

Além de manchar técnicas mafiosas, o Exército dos EUA foi ainda mais longe: aparentemente cooptou a mídia - estou colocando um aparentemente porque não posso provar nada, estou apenas duvidando da história toda. E não foi só a mídia americana, o âncora do jornal que cozinhou por semanas as ações truculentas da polícia carioca na guerra travada no morro do Alemão, achou justa essa escassez toda de dados:

 

Quem não tinha idade pra entender o 11 de setembro há 10 anos, consulte o You Tube pra entender como Bin Laden quebrou regras do terrorismo. (LINK)

Pra quem compara: Saddam era um ditador no Iraque. Bin Laden, o líder terrorista internacional responsável pelo maior atentado da História. (LINK)

Os Republicanos, oposicionistas ferozes, cumprimentariam e elogiariam a atitude resoluta do Democrata Obama por absoluta ingenuidade? (LINK)

Os americanos mostrariam, felizes, um Bin Laden morto e desfigurado que virasse símbolo de martírio e estímulo a revanches? (LINK)

Os Estados Unidos enterrariam Bin Laden em local conhecido para estimular peregrinações? (LINK)

Obs: ainda quero saber quais são essas tais “regras do terrorismo”.

Tudo isso aí saiu do Twitter do dono do mais famoso “Boa noite” do Brasil, que nem mesmo deu uma questionadinha na versão oficial da história, através do uso de um princípio básico do jornalismo: cadê as provas?! Uma notícia não é notícia sem indícios que ela seja verdade. Declarações de políticos e militares não são compradas como verdade (num mundo ideal).

E, amigo, tem mais buraco na versão dada pelos EUA sobre a morte de Osama do que um queijo suíço - ou do que as paredes da casa onde rolou o tiroteio entre os fuzileiros e o terrorista. Dessa forma, é bastante compreensível que nem todo o mundo tenha engolido a história sem nem ao menos uma sobremesa açucarada pra ajudar.

 

Em primeiro lugar, o auto-proclamado matador de terroristas Obama - que tem o nome tão parecido com o alvo que mandou crivar de chumbo, que a Fox e o Estadão mataram ele no lugar do saudita… isso só as redes que Eu vi - descartou qualquer possibilidade de mostrar fotos dele morto, o que contrariou uma declaração do diretor da CIA, Leon Panetta, que disse:

"O governo esteve claramente discutindo sobre como fazê-lo melhor, mas não acho que haja dúvidas de que, em última instância, um fotografia será mostrada ao público".

No outro dia, temos a seguinte declaração, do porta-voz da Casa Branca, Jay Carney:

“Revisamos essas informações e tomamos as decisões da mesma forma que fazemos todas as outras coisas: levando em conta o que estamos tentando alcançar e se isso vai servir aos nossos interesses ou prejudicá-los, tanto nacional quanto internacionalmente”.

O motivo para não divulgar imagens seria “evitar que as fotos estimulem atos violentos”, ou evitar que elas “inflamem terroristas”. "Nós (os americanos) não somos assim", chegou a dizer Barack Obama, se esquecendo de refletir na quantidade de merda que a guerra que ele mantém de pé leva ao povo afegão. Será que uma “mísera” fotografia é mais forte do que as ações nefastas de uma trupe de soldados malucos agindo no país? Soldados americanos com um parafuso a menos emboscando civis deliberadamente e os matando seria menos chocante que mostrar um líder terrorista morto em uma fotografia?

 

A fala de Jay Carney acima não diz respeito somente a divulgação de fotos, mas de “equívocos” (vamos chamar assim) nas informações divulgadas preliminarmente pelo governo americano. Essa revisão de informações casa bem com um aparente planejamento cuidadoso feito por Obama, aparentemente para capitalizar ao máximo a operação para sua pessoa - reeleição taí, né… e ele tava mais afundado na opinião pública do que bomba de sucção de petróleo. Então, se imagens do presunto terrorista não ganharam o mundo, Obama fez questão de mostrar ele mesmo de olho nos desdobramentos da operação, e ontem colocou os pés no Marco Zero, para homenagear as vítimas do atentado.

As contradições do governo ao descrever a operação chegam a soar patéticas. No calor do momento, quando o mundo gritou “Tá Morto!”, os EUA soltaram uma versão o pintando como um vilão da pior espécie: ele estaria armado, resistiu a prisão trocando tiros com os soldados e ainda usou uma mulher - uma suposta esposa - como escudo humano, que também morreu. Ou seja: Osama morreu lutando!

Mas no outro dia o discurso tomou outro tom: Bin Laden não estava armado, mas "outras pessoas” da casa ofereceram “grande resistência” a chegada dos soldados. A história do escudo humano também desceu pelo ralo, a tal mulher não foi usada como escudo e nem morreu, mas “resistiu aos soldados” e levou um tiro na perna.

 

Com isso, quero dizer que discussão mais importante sobre a questão não é se Osama realmente está morto - duvido que esteja, mas isso é outro caso, não estou muito conspirólogo hoje - ou se ele merecia morrer ao invés de ser julgado, ou mesmo se o modo de vida ocidental é “superior” ao empreendido por sociedades islâmicas - já vi análises sobre isso por esses dias, não se surpreenda…  a questão envolve o fato de que o povo engoliu a versão oficial sem problema algum.

Obama disse, o New York Times, Willian Bonner e a CNN reverberaram, pronto… o caixão tá fechado! Nada mais é necessário para se construir uma verdade, o que mostra que mesmo com a chamada Era da Informação por aí, os humanos ainda agem como chimpanzés que ouvem o líder do bando sem questionamento - principalmente quando ele anuncia que matou violentamente o líder do bando inimigo.

E para os que ainda levavam fé na imagem de Obama como um presidente do povo, gente boa e amante da liberdade: desista, mas acho que não é o caso de muita gente que lê o NSN! Quem precisa de (mandar) meter uma bala na cabeça de outra pessoa para obter alguma popularidade, nem deve ser levado em conta.

 

[Com informações do iG, André Forastieri, Contraversão e GamerBr]

segunda-feira, 28 de março de 2011

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[HyperEspaço #21] A bizarra celeuma pra cima da capa de abril da Wired

 

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Não me considero machista, e muito menos me considero feminista - e continuo achando impossível um homem ser feminista, mas não entrarei nesse assunto hoje. Prefiro me manter alheio a essa discussão, que considero extremamente recheada de conceitos retrógrados e de uma regressão argumentativa que não leva nada a lugar nenhum, tanto de um lado como de outro. Pra mim o Sexismo é como o palco político, um problema por si só… e que não será combatido com mais Sexismo, mesmo que vindo do lado oprimido. Da mesma forma, vejo a política como um problema em si, e por isso não resolverá nada, independente de quantos Obamas, Lulas, ou outros salvadores da pátria surgirem. Um exemplo disso é na quantidade de revoluções conduzida por camadas oprimidas, que tirou ditadores do poder… e colocou ditadores piores no lugar.

Mas o fato de querer me manter alheio, afastado da discussão sexista, não me impede de comenta-la e identificar algumas recaídas estranhas e discussões inúteis que afetam a área em que academicamente (e supostamente) tenho algum conhecimento aprofundado: o Jornalismo. Não sou do tipo que acredita - salvo raras exceções - em “tomar um lado por obrigação”, como parece ser o praxe hoje. Como já escrevi no início da terceira parte do meu ensaio sobre Repressão Estatal, esse tipo de dualismo excludente não é nada mais que uma armadilha mental para conduzir a um jogo de péssimo e menos pior, e nunca a uma solução de caráter mais efetivo. Você não gosta do Capitalismo? Logo é Comunista, entre outras variantes de um jogo de realidade ultrapassado herdado de Aristóteles e que insiste em perdurar ainda hoje, mesmo abandonado nos modelos mais modernos de Filosofia, Física e Psicologia.

Então, dentro dessa lógica, não considero dizer “Eu não apoio o movimento feminista” como um grito de machismo, da mesma forma que dizer “Eu não apoio o movimento gay” não me parece uma afirmação de caráter homofóbico. Mesmo achando que essas camadas da população têm todo o direito de buscarem resolver o que acham estar errado, não contarão com a minha ajuda, assim como não conto com ajuda deles quando falo acerca de Direitos Autorais.

 

Pois bem, considerações iniciais feitas, corta pra capa acima, da edição do mês que vem da Wired, a mais importante revista tecnológica do mundo. A moça que posou pra foto não é uma modelo típica de capas de revista femininas ou das Vogues de plantão, mas sim uma “operária”, a mestre e engenheira elétrica Limor Fried, da Adafruit Industries. A revista GOOD parece que não se amarrou no conceito por trás da capa e, através do seu editor de cultura Cord Jefferson, mandou o seguinte [tradução do Gizmodo Brasil]:

 

A Wired não colocou Limor Fried em sua nova capa. Como Fried realmente se parece está abaixo – ela é uma jovem mulher normal com um piercing labial e um cérebro muito acima da média e isso foi o que fez maravilhas para ela durante toda sua vida. O que a Wired colocou na sua capa é um Photoshop quase cartunesco que fez com que um amigo olhasse essas fotos lado a lado e perguntasse, “É a mesma mulher?”

Antes ele havia começado o artigo meio revoltado, dizendo que a atitude da Wired está “fudidamente errada”, e que a revista desnecessariamente cartunizou a imagem de Fried em sua capa. O motivo da revolta parece derivar do fato de que ela seria a primeira mulher engenheira (ou mulher com QI alto academicamente falando, com currículo, essas coisas) a aparecer em uma capa da revista. E justamente quando isso acontece, rola um tratamento desse tipo, que aos olhos da revista GOOD é uma diminuição das mulheres.

Nos comentários, Fried fez o seguinte apontamento:

A capa está estilizada, mas é assim que eu realmente sou. Eu não estou “plastificada” ou “com toneladas de Photoshop”. Se eu tirar meus óculos, arrumar meus cabelos, e usar maquiagem, é assim que eu fico.

 

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Foto da “verdadeira” Limor Fried apresentada pelo artigo

Primeiro é preciso dizer que não é a primeira vez que uma acadêmica aparece na capa da revista. Em 1996, Sherry Turkle, pesquisadora de Sociologia Tecnológica do MIT foi capa da publicação, e dois anos antes Laurie Anderson, uma artista experimental, repetiu a dose. Fora essas, que foram tema de de reportagem e de perfis bem escritos, as outras mulheres que foram capas não passaram de uma espécie de fetiche, que cederam sua imagem unicamente como ilustração. Foi o caso de Martha Stewart, em 2007, e Sarah Silverman em 2008. Outros casos foram classificados como ainda piores, a exemplo de Julia Allison e Uma Thurman, que apareceram na capa em matérias relacionadas  a fama na internet e romances de Philip K. Dick.

 

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A gota d’água para quem atacou veementemente essa espécie de fetichismo sexista da Wired em suas publicações, foi a capa de novembro do ano passado, quando um par de seios figurou triunfante, ilustrando uma matéria sobre implantes e o futuro da medicina.

Realmente não me parece uma boa perspectiva de tratamento, bem como me parece ser um quadro irreal, já que acredito que existam muitas mulheres fazendo coisas interessantes na área de tecnologia, como escreveu Cindy Royal de forma brilhante em uma crítica pessoal no blog dela, ao ponto de Chris Anderson, editor-chefe da revista, ir se manifestar em tom de desculpas nos comentários.

Obviamente que a resposta de Chris Anderson por lá - dizendo que faltam “mulheres de alto nível na indústria de tecnologia que são reconhecíveis o suficiente para vender uma capa” - não parece satisfatória o bastante, mas diz muito sobre a cultura comercial presente nas revistas em particular, e na mídia de modo geral. O que rola nas capas da Wired é uma mera consequência do que começa acontecendo nas revistas classificadas de femininas, como a Nova - versão nacional da Cosmopolitan -, Elle, Gloss, Cláudia, e similares (googlem as capas dessas pra entenderem, depois olhem a composição das redações delas e vejam que são quase todas formas por… mulheres). A Wired não criou um modelo, ela adotou um modelo, o que parece ainda mais claro se levarmos em conta que a revista é publicada pela maior editora de revistas dos EUA, a Condé Nast. Não estou dizendo que usar um modelo pré-pronto é algo positivo, mas simplesmente que deve ser levado em conta ao condenar uma atitude dela.

E pontuar o caso com um simples “o pensamento machista vigente entre os jornalistas foi o causador de tal coisa” me parece reducionista, além de constituir-se como um jargão clichê que pode ser usado como saída fácil para classificar qualquer coisa que desagrade. Para mim seria o equivalente a um “isso é coisa do diabo” ou “armação de esquerdista/direitista”.

 

Mas se a crítica da Cindy foi embasada e com um motivo bem claro pra olhos atentos - fetichização das capas da Wired -, o tiro de Cord Jefferson, da GOOD, parece saído pela culatra. Cindy escreveu calcada no histórico da revista e no tratamento de mulheres de modo leviano em suas capas, e foi ainda mais longe: questionando se não haviam mulheres trabalhando no ramo tecnológico que poderiam dar boas capas.

E a GOOD, bem a GOOD reclamou do Photoshop, o que me leva a uma conclusão bem óbvia: a percepção do autor acerca de mulheres inteligentes não parece ser das mais acertadas - além de não ter sacado que rolou uma óbvia referência a Rosie, a Rebitadora. Parece que pra ele deve existir um muro que separe beleza feminina de inteligência feminina. Mulheres reconhecidas por sua beleza E por sua capacidade intelectual - entenda capacidade intelectual como capacidade neurológica de transmitir informações de forma acertada e sem ruídos [definição do grande Alfred Korzybski] - seriam exceções a uma regra. E aí entra o que percebi da crítica equivocada da GOOD.

Limor é do tipo perfeito para uma capa da Wired - e pode ser o início de uma mudança na linha da revista no tratamento a questão, já que Anderson pediu desculpas em novembro do ano passado: bonita (com ou sem Photoshop, o que é uma busca secundária em vendagem de capas) e com um currículo invejável e condizente com a matéria. Ela possui mestrado em engenharia elétrica pelo MIT (o mais famoso instituto de tecnologia dos EUA) e é um dos símbolos dos eletrônicos DIY e open source. Ela afirma que pretende fundir arte com elétrica e criar ferramentas para dar liberdade para cada pessoa criar seus próprios eletrônicos.

Mas além disso o caso serviu para mostrar como existe um denuncismo de certos setores (ou “certo setor”, não vou coletivizar algo baseado em um exemplo) da mídia, que queriam ver uma Limor como ela supostamente é, “uma mulher jovem normal, com um piercing no lábio e um cérebro anormalmente forte”, como descreveu o artigo da GOOD, também se esquecendo da subjetividade presente na beleza - e na inteligência, o que mata todas as discussões e argumentos apresentados até então.

Por que não simplesmente esquecermos gêneros que nada influem na inteligência ou na capacidade mental de alguém, o que não me parece uma concessão muito complexa de ser realizada?! Limor é uma mulher brilhante numa função normalmente ocupada por homens? Ótimo, mérito dela, e acho ótimo que tenha sido reconhecida por isso. Mas uma crítica em cima de algo que simplesmente não aconteceu, me parece fruto de visões distorcidas.

 

Claro que existem questões secundárias em cima do caso, e nos fatores levantados pelas críticas - assim como em casos assim por todo mercado editorial, especialmente o americano. Com relação ao Photoshop, creio que não tem nada a se fazer a curto prazo: é a imagem que a publicidade criou, embora várias revistas européias - mesmo algumas pornográficas, como a Femjoy, que tem o slogan Pure Nude - praticamente preterem o uso de correções que plastificam, se limitando a apagar algumas cicatrizes maiores. Dobrinhas, pintas, imperfeições… tudo fica na foto, às vezes nem efeitos de iluminação são usados. Esteticamente fica muito mais bonito, na minha opinião, sem padrões idiotas, mostrando mulheres mais verdadeiras.

Revistas como a Vice geralmente se esquivam de padrões visuais mainstream, como os da Playboy, Vogue e outras. Outras masculinas como a Front criaram um padrão próprio bastante sofisticado, que tornam as fotos da revista reconhecidas em qualquer canto, no estilo das grifes fotográficas Suicide Girls e GodsGirls. Fotógrafos como Terry Richardson e Merkley vão pelo mesmo caminho. Com isso quero apontar que existe muito mais do que o padrão conhecido pela gente aqui, que é prejudicial e enjaulado por uma lógica mercadológica tacanha, e deve ser analisado não só pela reducionista ótica de “fruto de um pensamento machista dominante” ou qualquer outro rótulo que exista por aí e parece gritar quando vemos algo assim.

Outra questão é a deficiência de mulheres nas redações de revistas americanas, especialmente as mais ligadas às artes e política - as mais sofisticadas, por assim dizer. Não sei o exato motivo disso, principalmente pelo fato do jornalismo americano (América como continente, dessa vez) ter em sua maioria profissionais mulheres. E não só em cargos de redação, como de chefia, a exemplo de uma das estrelas do jornalismo atual: Arianna Huffington (que não é bem jornalista, mas tudo bem). Fora ela ainda, admiro a Amy Goodman, do Democracy Now, a Natália Viana, Marina Amaral e Tatiana Merlino, parceiras da agência de jornalismo investigativo Pública, entre muitas outras.

Já tive três chefes mulheres trabalhando com jornalismo, e as três foram ótimas - na verdade, a primeira que sou chefiado por um homem é agora, trabalhando no GamesBrasil. Então, dizer que o mercado não possui mulheres ou não permite a entrada de mulheres é meio falacioso. Talvez existam resquícios de gerações passadas que resultam na maioria dos postos de chefias ocupados por homens (não tenho dados nacionais ou de algum outro país específico mostrando isso, é apenas fruto de observação e estudo histórico), mas creio que esses números tendem a se equilibrar, e as mulheres passarem a ser maioria inclusive nas chefias de redação (se é que já não são).

No caso das revistas americanas, a situação é a seguinte:

 

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Quadro de composição das redações de algumas revistas americanas (clique para ver maior)

Naturalmente que essa predominância masculina acaba tendo reflexos nos poemas e textos ficcionais publicados por essas revistas. Homens conhecem mais homens que mulheres, geralmente, e provavelmente por isso recebem mais indicações de autores masculinos, Claro que essa em si não é um motivo, mas vejo com ainda menos cautela o principal motivo apontado pelas mulheres, que relacionam a situação com um suposto “favoritismo sexista”. Creio que esse pode ser um motivo, mas é necessário critérios um pouco menos subjetivos para resolver a situação. E sem um estudo com uma metodologia clara, fica difícil chegar a conclusões, ficando apenas em margens especulativas. A autora do estudo, a organização VIDA (estudo completo linkado na lista no fim do artigo), fez um levantamento correto, com metodologia apresentada, e reconheceu que esse é apenas um lado da questão.

 

“(…) Mas também entendemos que estas estatísticas são apenas o início de uma conversa, que acreditamos ser necessária, e não um ponto final”.

Os números do estudo completo mostram um dado: livros, poemas, textos ficcionais de homens predominam nas revistas literárias americanas. Ponto. Dizer que existe um favorecimento já é especulação. Para um estudo mostrando outro ângulo de abordagem seria necessário saber a porcentagem de textos enviados as revistas, além de dados relativos a porcentagem de autoras no mercado global de livros. Sem essas comparações, não é possível chegar a uma conclusão.

E como não temos dados dessas revistas, vamos analisar uma plataforma aberta e sem essa rigidez editorial na escolha dos textos: a Wikipedia. Alguns podem argumentar que como o trabalho por lá é sem remuneração ele atrai menos pessoas, mas creio ser desnecessário refutar tal linha de pensamento, já que a produção de conteúdo “sem remuneração” direta supera e muito a paga sob contrato, e a qualidade deles muitas vezes é equivalente. Através da Wikipedia, pode-se chegar a conclusão que talvez as mulheres não escrevam tanto assim (embora esse seja um caso específico, não vamos generalizar). Conforme dados divulgados pela Wikimedia Foundation - mantenedora da Wikipedia -, cerca de 85% dos seus artigos são escritos por homens, o que é uma discrepância ainda maior do que as diferenças apresentadas pelo estudo da VIDA. A fundação está preparando campanhas para atrair mais mulheres e espera que esse percentual aumente para 25% até 2015.

Essa diferença de números, mais uma vez, causa certas interferências no conteúdo - da mesma forma que causa nas redações de revistas dos EUA. Artigos de coisas relacionadas ao universo feminino recebem menos destaque do que deveriam, como Sex and the City, por exemplo. E é preciso reconhecer que homens darão pouca atenção a criar conteúdo relacionado ao universo feminino, da mesma forma que algo parecido pode influenciar escolhas estéticas com relação a textos, embora considere isso injustificável de um ponto de vista.

Mais uma vez, nada conclusivo, apenas indícios que parecem apontar numa direção mais complexa do que a limitada ótica sexista.

Nas anotações do estudo da VIDA, é dito que as integrantes da organização - que milita justamente para uma maior participação das mulheres no mundo das artes - se comunicaram com chefes de redação dessas revistas e receberam respostas como uma que diz que a revista faz campanhas para receber mais textos de mulheres, que eles nunca foram meio a meio. Outros disseram que nunca atentaram pra essas diferenças, que só se preocupam com o texto em si.

Sem conclusões aqui, só estou tentando mostrar que não existe o preto e branco, e mesmo a pomposa exatidão dos números pode levar a um erro de julgamento se não forem contextualizados. A discriminação talvez não exista - e uma organização que luta exatamente a favor de uma maior participação das mulheres na arte literária, admite isso.

A mesma coisa pode ser dita da capa da Wired. A velocidade da GOOD em tecer uma acusação estranha e infundada - que para mim foi mais machista do que qualquer atitude da Wired - foi fruto de uma rapidez de julgamento que não levou em conta essa multiplicidade de fatores presentes na questão - e a crítica da própria fotografada mostrou isso.

 

E é por motivos como esse que procuro me manter afastado desse tipo de discussão. Se nos campos mais progressistas das sociedades humanas - a Ciência e a Academia - vemos mostras de comportamento reacionário do nível da queima de livros e perseguição a Wilhelm Reich, imagine onde impera a política, religiões totalitárias e discussões racistas, sexistas e territoriais.

 

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