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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Rum: Diário de um Jornalista Bêbado

 

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Como a maioria dos outros, eu procurava alguma coisa, vivia em movimento, nunca estava satisfeito e às vezes me metia nas mais imbecis enrascadas. Nunca ficava parado por tempo suficiente para me dar ao luxo de pensar, mas de algum modo sentia que meus instintos estavam certos. Compartilhava uma espécie difusa de otimismo que dizia que alguns de nós estavam realmente progredindo, que estávamos num caminho honesto, e que os melhores de nós inevitavelmente chegariam ao topo.

Ao mesmo tempo, nutria suspeitas melancólicas de que a vida que levávamos era uma causa perdida, que não passávamos de atores, enganando a nós mesmos, numa odisséia sem sentido. Era a tensão entre esses dois pólos – um idealismo incansável e uma sensação de catástrofe iminente – que me dava forças para seguir adiante.

 

Uma das coisas que mais me fascinam na literatura é a possibilidade de transformar pessoas comuns em gigantes imortais. E tudo isso sem precisar de vultuosos orçamentos ou de uma série de equipamentos. Uma caneta e papel já dão muito bem conta do recado. Sem a literatura, Franz Kafka seria apenas um homem torturado psicologicamente que ninguém notava, Jane Austen uma solteirona convicta e Charles Bukowski apenas mais um velho bêbado entre milhões de outros. Com isso em mente, um jovem e desconhecido Hunter Stockton Thompson, escreveria dois romances nos 60: Prince Jellyfish e Rum: Diário de Um Jornalista Bêbado. Mas diferente do que apontavam suas maiores ambições, ambos os romances seriam recusados editora após editora. Décadas depois, quando já era o dono da alcunha de criador do Gonzo Jornalismo, a injustiça finalmente seria reparada com a publicação de ambos os livros. Claro que o fato de Hunter Thompson já ser tão famoso que poderia publicar até a sua lista de compras no supermercado pesou bastante.

Apesar do que essa demora para ser publicado pode atestar contra Rum: Diário de um Jornalista Bêbado, a verdade é que ele se prova um entretenimento excelente. Não é o grande romance americano como Thompson o considerava enquanto escrevia no auge do seu ego juvenil, mas é bastante divertido e bem escrito. Herdando o estilo direto e firme de Ernest Hemingway, ele explora suas experiências do curto período em que trabalhou como redator em uma revista esportiva de San Juan, em Porto Rico, para contar uma história completamente nova, como poucas vezes foi visto.

 

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O protagonista é Paul Kemp, um jornalista americano que desembarca em Dan Juan para trabalhar no Daily News, um jornal tão decadente que parece sempre estar prestes a fechar. E é neste país novo e neste trabalho louco, tão deprimentes que a única forma de agüentar é enchendo a cara de rum, que Paul nos conta a história.

Homens de todos os tipos vieram trabalhar no News: de homens honestos e verdadeiramente talentosos a degenerados e perdedores irremediáveis que mal conseguiam escrever um cartão-postal – malucos, fugitivos e bêbados perigosos, um cubano ladrão que carregava um arma debaixo do sovaco, um mexicano retardado que molestava criancinhas, vigaristas, perdedores e todo tipo de cancros venéreos em forma humana, e a maior parte deles trabalhava por tempo suficiente apenas para conseguir dinheiro para alguns drinques e uma passagem de avião.

O jornalismo é uma das profissões mais romantizadas que existem e fica claro o esforço de Thompson para derrubar esta imagem de uma vez por todas. A profissão é sempre mostrada no livro como algo aborrecido, onde se é obrigado a cobrir eventos intermináveis e entrevistar pessoas vazias. E depois ainda ter que quebrar a cabeça para encontrar mil palavras para falar de cada um deles. Mesmo sendo um jornal fracassado em vendas e publicidade, o Daily News é o sonho de trabalho para muitos dos seus empregados. Em meio a tantos pinguços e vagabundos, qualquer um que tenha o mínimo de competência consegue se manter empregado, faça o que fizer. Mais que isso, qualquer menção a pedir demissão faz Lotterman, o dono do jornal, arrancar os cabelos de desespero.

Muitas pessoas que trabalham com palavras não confiam muito nelas, e não sou exceção – especialmente quando se trata de palavras grandiosas, como Feliz, Amor, Honesto e Forte. São palavras fugidias, relativas demais quando comparadas a palavrinhas afiadas e maldosas como Marginal, Vagabundo e Charlatão. Com essas me sentia em casa, porque são mirradas demais e fáceis de definir, mas as grandiosas são difíceis. Você precisa ser um sacerdote ou um tolo para usá-las com alguma segurança.

O ambiente de San Juan também não ajuda a melhorar a situação. A cidade é uma mistura inóspita de paraíso natural, ponto turístico repleto de americanos esbanjadores e criminalidade desenfreada dos porto-riquenhos. No mesmo dia em que você mergulha em uma paria de águas cristalinas, você pode ser assassinado pela irrisória dívida de um dólar, ter sua esposa estuprada por dezenas de vagabundos e levarem até suas meias sujas se você deixar a janela da sua casa aberta por alguns poucos minutos. Uma terra que parece sempre encoberta por um véu de irrealidade, onde pobreza e riqueza convivem lado a lado, e as manhãs guardam a promessa de grandes acontecimentos enquanto as tardes a certeza decepcionante de que nada interessante pode acontecer por ali.

Os porto-riquenhos nutrem grande interesse por carros abandonados, caem sobre eles somo animais famintos e os despedaçam. Primeiro somem as calotas, depois as rodas, depois os pára-choques, as portas e por fim a carcaça do carro – vinte ou trinta deles, como formigas carregando um besouro morto. Levam a carcaça até um ferro-velho, lucram uns dez dólares yanquis e em seguida brigam com facas e garrafas quebradas para resolver como dividir o dinheiro.

 

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Thompson consegue o feito de criar personagens únicos, todos meio malucos, mas mesmo assim verossímeis. Paul Kemp é um típico anti-herói, não se importando com quase nada e ninguém, sendo capaz de espancar até velhinhos se eles pegarem no seu pé. Já Yeamon é um tipo de contraponto a Kemp. O símbolo de tudo o que Paul abandonou e desistiu de ser ao envelhecer em nome da prudência, Se Kemp é tão pessimista em relação ao futuro de Yeamon não é porque encontre grandes indícios para isso. Mas sim porque acreditar nisso é tentar provar a si mesmo que ter largado tudo o que acreditava e o definia foi mesmo a escolha certa.

Cultivo uma vontade secreta de esmurrar o rosto de um vendedor qualquer, quebrar seus dentes e deixar seus olhos roxos e inchados.

O que o tornava único era o fato de não ter o mínimo senso de distanciamento. Sala era como o torcedor fanático que invade o campo para agredir um jogador. Enxergava a vida como um Grande Jogo, e a humanidade inteira se dividia em dois times – A Turma do Sala e Os Outros. Os riscos eram tremendos e toda jogada era vital – e, embora ele assistisse a tudo com interesse quase obsessivo, não passava de um torcedor, berrando orientações que ninguém ouvia, acompanhado de uma multidão de treinadores ignorados, o tempo todo consciente de que ninguém lhe dava nenhuma atenção, porque ele não estava no comando do time e nunca estaria. E, como todos os torcedores, sentia-se frustrado pela consciência de que o máximo que poderia fazer, na melhor da hipóteses, seria entrar correndo no campo, causar algum tipo de transtorno ilegal e em seguida ser arrastado para fora pelos guardas, ao som das risadas da multidão.

Mas Hunter Thompson só consegue ser tão feliz na composição dos seus personagens graças à estrutura de conversa de bar que ele impingiu no romance e seu talento inegável para os diálogos. Não só por serem incrivelmente plausíveis em todas as situações e personagens, mas também por ajudarem a definir cada um deles. Pode-se sentir a personalidade deles a cada frase, suas motivações, sonhos e medos. Thompson nem mesmo se dar ao trabalho de mostrar as expressões corporais dos integrantes da história. Nós mesmos, inconscientemente, acabamos fazendo isso por ele durante a leitura.

Fiquei apenas sentado e bebendo, tentando decidir se estava ficando velho e sábio ou apenas velho e nada mais.

Escutando Yeamon, percebi que fazia tempo que não tinha mais a sensação de ter o mundo nas mãos, que muitos aniversários tinham se passado rapidamente desde meu primeiro ano na Europa, quando era tão ignorante e confiante, que cada mínimo golpe de sorte fazia com que eu me sentisse um campeão invencível.

Não me sentia daquele jeito havia muito tempo. Talvez, em meio a toda a confusão do passado, a idéia de que eu era um campeão tenha sido roubada de mim. Mas naquele momento me lembrei dele, e isso fez com que me sentisse velho e irritado por ter feito tão pouco em tanto tempo.

Testemunhar aquela cena que me trouxera diversas lembranças – não de coisas que tinha feito, mas de coisas que fracassara em fazer, de horas desperdiçadas, momentos frustrados e oportunidades perdidas para sempre. O tempo tinha devorado uma porção enorme da minha vida, uma porção que eu nunca mais conseguiria recuperar.

 

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O tema que permeia todo o enredo de Rum: Diário de um Jornalista Bêbado é a frustração que a idade pode acarretar. Qualquer pessoa de 30 ou 40 anos já deve ter se lamentado alguma vez ao olhar para trás e perceber que não fez nada de importante em sua vida, não realizou nenhum dos seus sonhos e tudo não passou de perda de tempo. Paul não é nenhum velho, tem apenas trinta e dois anos, mas tem a total noção de que seu tempo está ficando cada vez mais curto. A cada minuto a chance de morrer na mesma merda e nunca passar de um fracasso se torna maior.

Não importava o quanto eu quisesse todas aquelas coisas que só poderia comprar quando tivesse dinheiro. Alguma espécie de repuxo demoníaco me arrastava em outra direção – rumo à anarquia, à pobreza e à loucura.

O melhor de tudo é constatar que muito do estilo que consagraria Hunter Thompson como jornalista gonzo já estava presente em Rum: Diário de um Jornalista Bêbado. Mesmo que as drogas e a insanidade da escrita ainda estejam distantes, podemos percebê-lo claramente afinando seus instrumentos para os concertos cada vez mais inspirados que daria em livros como Hell’s Angels e Medo e Delírio em Las Vegas. A grande indiferença é que aqui Thompson segue o caminho inverso: usa seus conhecimentos de jornalismo para aperfeiçoar sua prosa.

Ler Rum: Diário de Um Jornalista Bêbado é como beber enquanto se conversa bobagens com os amigos. Em alguns momentos, a narrativa se torna tão fluida que chegamos a sentir o álcool correr em nossas veias, como se estivéssemos realmente ali no bar entre os personagens da história. Talvez seja essa a razão do sucesso de Thompson em manter seu romance atual mesmo depois de mais de cinquenta anos. E é isso que garante que Rum deixe de ser apenas mais um livro de um Thompson ainda imaturo para ser um dos mais sarcásticos e inspirados retratos sobre a perda de ilusões já escritos.

Autor: Hunter Thompson

Páginas: 256

Editora: L&PM

Nota: 8

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A Estrada da Noite

 

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Vou ‘vender’ o fantasma do meu avó pelo preço mais alto.

Jude tinha uma coleção particular.

Tinha desenhos emoldurados dos Sete Anões na parede do estúdio, entre seus discos de platina. John Wayne Gacy, o ‘Palhaço Assassino’, fizera os esboços e os mandara para ele. Gacy gostava tanto da Disney dos anos dourados quase tanto quanto gosta de molestar crianças pequenas, quase tanto quanto gostava dos discos de Jude.

Jude tinha o crânio de um camponês do século XVI, que fora perfurado para os demônios saírem. Guardava um monte de canetas enfiadas no centro do crânio.

A crença em fantasmas, na vida após a morte, é quase tão antiga quanto a própria humanidade e se encontra em todas as culturas do planeta. O passado até então não era tido como algo morto. Muito pelo contrário, ele podia irromper a qualquer momento, feroz e ameaçador. A morte ainda não era a fronteira final, o último obstáculo a ser superado. Os mortos, acreditava-se, continuavam entre nós. Eles podiam retornar para assombrar nosso mundo, pedir ajuda para salvar suas almas ou exigir algo prometido ainda não cumprido. Centenas de milhares de páginas eram preenchidas com a então chamada ciência dos espectros, cadáveres eram desenterrados e condenados por crimes cometidos em vida e rituais eram feitos para garantir que os mortos tivessem uma boa “vida” lá em baixo.

Uma crença tão eterna e marcante como essa, capaz de produzir novos mitos até hoje, não deixaria de ser presença importante na literatura e no cinema. A popularização da literatura gótica e de seus clichês perpétuos (um dia escrevo um texto inteiro só sobre eles) apontaria a figura como o fantasma seria geralmente reconhecido: pálido e imponente, capaz de atravessar paredes, flutuar, gemendo espectralmente. Desde então, tema seria o mais rico subgênero do terror daria as caras em histórias de diversos outros estilos, gerando inúmeras obras-primas. Em 2007, surgiria o último bom livro sobre fantasmas, A Estrada da Noite, pelas mãos de um escritor ainda pouco experiente. Depois do sucesso da premiada coletânea de contos Fantasmas do século XX, Joe Hill alcançaria a consagração com A Estrada da Noite, seu primeiro romance, realizando o feito inédito de ser chamado de mestre já em sua estréia literária.

Como todos os sites e blogs se apressam a avisar aos leitores mais desinformados, Joe Hill é filho do célebre Stephen King. Embora ainda tenha se esforçado bastante para esconder o parentesco, não demorou muito até que a verdade fosse revelada e as comparações viessem à tona. Mesmo não sendo tão bom quanto o pai, ele conseguiu aquela rara emancipação que poucos parentes de pessoas famosas conseguem. Da mesma maneira que Alexandre Dumas (filho), Luís Fernando Veríssimo e Sofia Coppola, Hill gravou seu nome na arte por causa do seu próprio talento. Isso se tornou uma verdade tão grande que as edições de seus livros mal precisam estampar nas capas o nome de Stephen King para que entrem na lista de mais vendidos.

Não fazia sentido o modo como as coisas tinham se desenrolado. Judas Coyne sempre fora o astro; a banda se chamava O Martelo de Judas. Era ele quem devia ter morrido tragicamente jovem. Jerome e Dizzy deviam ter sobrevivido para poder contar, anos mais tarde, numa retrospectiva, 13 histórias selecionadas a seu respeito, (ambos ficando calvos, gordos, com as mãos e unhas tratadas, em paz com sua riqueza e com seu rude, ruidoso passado.)

Os integrantes do My Chemical Romance estavam num talk show na TV. Tinham cabelos espetados e argolas nos lábios e sobrancelhas, mas sob o pó branco da maquiagem e o batom preto havia uma coleção de garotos gorduchos que provavelmente tinham participado, alguns anos antes, da banda do colégio. Pulavam de um lado para o outro, caíam um em cima do outro, como se o palco debaixo deles fosse uma placa eletrificada. Brincavam febrilmente, aterrorizando uns aos outros. Jude gostava dos rapazes. E se perguntava qual deles ia morrer primeiro.

 

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Jude Coyne é um ex-vocalista cinqüentão de uma extinta banda de rock pesado, que vive atualmente apenas da vultuosa renda dos direitos autorais das suas músicas. Mesmo se esforçando para manter a postura durona e auto-destrutiva até mesmo para a sua namorada gótica Geórgia, ele sabe muito bem que seus dias de rockstar já se passaram há muito tempo. Para ocupar suas várias horas livres, cultiva uma bizarra coleção. Comprando em leilões na internet ou ganhando de fãs, Jude guarda em seu estúdio de gravação pequenos objetos macabros. Uma fita snuff, uma caveira da idade média, uma forca, a confissão de bruxaria de uma garota para a Inquisição, entre outros. Um dia, ao encontrar disponível para venda um fantasma preso em um antigo paletó, Jude não pensa duas vezes. Compra-o imediatamente. O que ele não sabia era que o paletó era mesmo assombrado e que ele caiu em uma armadilha.

O fantasma do paletó, Craddock McDermott, um especialista em hipnose, quer vingança. Está louco para matar Jude, que julga ter provocado o suicídio da sua neta, e todos os que ousarem entrar em seu caminho. Então se inicia uma fuga desesperada pelos Estados Unidos, com uma pick-up possuída por um fantasma logo atrás, onde nada jamais é o que parece ser.

Se o inferno fosse alguma coisa seria conversa de rádio - e família.

Nos tempos do colégio ele enfiou a bala de fuzil numa tira de couro e usou-a em volta do pescoço até o diretor confiscá-la. Jude se admirava de não ter encontrado um meio de matar alguém naquela época. Possuía todos os elementos-chave de um estudante atirador: hormônios, angústia, munição. As pessoas não entendiam de que forma algo como Columbine podia acontecer. Jude se perguntava por que não acontecia com mais frequência.

Diferente do pai, famoso por alimentar incansavelmente o suspense em seus livros, Joe Hill prefere contar suas histórias com a sutileza de uma bomba. Em míseras seis páginas, a caixa preta em formato de coração chega, Jude já está com o paletó mal assombrado em mãos, tendo que lutar por sua vida contra um oponente implacável, praticamente invencível. De forma que não chega a surpreender que o romance seja curto, com tantos capítulos concisos. Ao lê-lo, percebe-se que o estilo rápido de Hill não permitiria que fosse diferente.

A Estrada da Noite é o romance do século XXI. Não só pela agilidade que a maioria dos leitores parece exigir hoje, mas também pelo rico panorama tecnológico que faz dos nossos tempos. Todos os personagens (com exceção de Jude) são pessoas extremamente conectadas, usuários fiéis do Google, MSN e email. O fato de o fantasma ser comprado em um leilão virtual não foi à toa. Jude, que faz questão de nunca compartilhar do mesmo interesse pelo mundo digital, chega a comparar os hábitos das pessoas na internet ao de viciados em cocaína. Quando pensamos na quantidade de pessoas se descabelando, irritadas, que precisam verificar seus emails, a comparação nem parece mais tão absurda. De repente, nos tornamos tão dependentes de uma tecnologia que mal pudemos cogitar viver sem ela.

Os fantasmas sempre nos alcançam, é impossível trancá-los do lado de fora. Eles simplesmente atravessam a porta, mesmo que esteja trancada.

Para mim, sempre foi difícil aceitar a idéia de que espíritos iriam querer vagar a esmo por casas abandonadas, assustando qualquer engraçadinho que entre uma delas, quando eles podiam estar no lugar que eles quisessem. Parece-me tão absurdo quanto vampiros passarem suas eternidades indo repetidamente à escola. Joe Hill consegue alterar isso maravilhosamente bem. Seu fantasma ganha um nome, passado e objetivo claros. Craddock assombra Jude apenas porque o seu ódio foi tão grande que venceu todos os limites da morte, da estrada da noite. Para matar Jude, ele é capaz de fazer muito mais que atravessar paredes e flutuar. Controla as freqüências de rádio, as imagens da televisão, influencia sonhos e, pior: utiliza sua experiência com hipnose para subjugar as mentes das pessoas por completo, obrigando-as a fazer o que ele quiser.

 

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Joe Hill, já em seu primeiro livro, demonstra um grande domínio psicológico e habilidade em criar personagens extremamente críveis. Ele não se prende a caracterizações clichês, conseguindo com que cada um deles nos pareça único e real. Jude, por exemplo, foge completamente do papel do típico mocinho. Ele é um canalha autodestrutivo em muitos aspectos, traindo os companheiros de banda e largando a garota que amava no momento em que ela mais precisava dele. O realismo dos personagens chega a influenciar os diálogos, sempre cotidianos e realistas, passando longe do pacotão de frases de efeito a que muitos escritores recorrem.

A Estrada da Noite é um dos muitos romances que enfocam o mundo do rock e, como não poderia deixar de ser, Joe Hill se diverte bastante enchendo a história com diversas referências ao heavy metal e ao punk. O título do livro em inglês, por exemplo, é o mesmo de uma música do Nirvana e cada parte do livro tem o nome de uma canção de rock.

O som dos banjos dos Ozarks, da música gospel deu-lhe uma sensação de prazer. Sentiu-a subir pelos antebraços e pela nuca. Muitas de suas canções, quando começavam a brotar, soavam como músicas antigas. Chegavam assim à soleira da sua porta, como órfãs sem rumo, como crianças perdidas de grandes e veneráveis famílias musicais. Chegavam a ele com o som de piano dos ragtimes e dos blues no Tin Pan Alley ou dos empolgantes riffs de Chuck Berry. Jude as vestia de preto e as ensinavaa gritar.

Mas, apesar de tudo, A Estrada da Noite não é exatamente a perfeição que algumas pessoas parecem considerar. Em meio a tantos quilômetros percorridos na fuga por Jude e Geórgia (A Estrada da Noite é um verdadeiro road book de horror), Joe Hill parece deixar claro que seu objetivo é transformar a jornada dos protagonistas em uma oportunidade de redenção. O problema é que Jude e Geórgia continuam praticamente os mesmos no fim da história. A única diferença em relação ao começo é que agora os conhecemos melhor. Isso transforma o desfecho da história em uma solução bastante insatisfatória, destoando completamente do que se esperaria daqueles personagens e de uma história que enfoca temas densos como abuso infantil e mutilação.

Entretanto, A Estrada da Noite ainda consegue ser um dos principais lançamentos do horror dos últimos anos. Mesmo sendo um gênero tão popular, a verdade é que bons escritores de terror são muito difíceis de encontrar. É por este motivo que os fãs receberam a estréia de Joe Hill com tanto entusiasmo. Ele consegue provar aqui que é mais que só bom. É um novo e necessário sopro de modernidade.

Autor: Joe Hill

Páginas: 254

Preço: R$ 29,90

Editora: Sextante

Nota: 7,5

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Avatar Colaborador Nerd

Supergods: O que um careca escocês pode nos ensinar sobre quadrinhos?

Por Synthzoid, do NerDevils 

 

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Se você pegar o encarte de Supergods, o primeiro livro do escritor Grant Morrison, vai encontrar a seguinte citação de Stan Lee: “Grant Morrison is one of the great comic writers of all time. I wish i didn’t have to compete with someone as good as him” se Jack Kirby estivesse vivo, provavelmente diria: “cai dentro!”, mas a verdade é que sem Lee ou Kirby, não existiria Morrison, ao menos não da forma como conhecemos.

Supergods é a primeira empreitada do escocês careca na literatura convencional, neste livro, o mesmo busca desenvolver – sem pretensões acadêmicas – suas visões profissionais, ideológicas e espirituais sobre o meio, analisando o espírito de cada época assim como desenvolvendo um paralelo biográfico.

O livro começa no início do século passado, no auge dos males daquela época, a Grande Depressão, a Bomba e a sombra de Adolf Hitler pairando sobre a Europa e assim Morrison toma seu tempo para explicar, de forma empolgada e eletrizante, o advento do Super-homem e o início da Era de Ouro das HQs.

Logo de cara, podemos detectar a principal falha do livro, a constante perda de fôlego que Morrison exibe em sua dissertativa, capítulos como “The Sun God and The Dark Knight” ou “Superpop” apresentam não apenas um nível alto de argumento, como também humor e atmosfera. Mas em compensação, em demais outros, o escocês patina, como se entrasse em um modo automático, preenchendo lacunas até chegar em um ponto mais pertinente.

É espantosa a intimidade do autor com o meio, conhecendo a essência criativa por trás das principais obras e as motivações dos escritores e desenhistas da época, Morrison inclusive, trata com carinho períodos “negros” da indústria, como a Era de Prata, enfatizando o esforço criativo da época em contornar ou criticar o Comics Code Authority.

Interessante analisar como Morrison “distribui” a culpa dos eventos que levaram à Era de Prata, não apenas evidenciando de forma sardônica certos sentimentos enrustidos de Frederic Wertham, autor do controverso Sedução dos Inocentes, onde argumenta que a degeneração moral da juventude norte-americana se encontra, em partes, nas HQs. Assim como a indústria de HQs na época, incapaz de realizar uma contingência de reação perante a opinião pública e o próprio declínio criativo dos artistas da época.

Entre os capítulos mais louváveis dessa fase, é “Shamans of Madison Avenue” e o surgimento de New Gods por Jack Kirby e o início da “meta-espiritualidade” nas HQs e “Brighest Day, Blackest Night” onde Dennis O’Neil em Green Lantern/Green Arrow evidenciou as inquietações sociais americanas e mostrou o quanto isto era contraditório à proposta do CCA. Para os leitores atuais, é engraçado perceber como Morrison evita comentar sobre a Marvel Comics, como se o autor – por uma série de razões até mesmo editoriais – se sentisse desconfortável para comentar sobre a Marvel Comics.

Claro, o livro não deixa de dar mérito pra importância de títulos como Fantastic Four, Spiderman e Captain America, mas como o próprio Morrison afirma em suas notas biográficas, ele achava que os títulos da Marvel tinham uma certa dose de realidade que ele considerava intragável para sua infância.

E o mesmo reconhece que foi em Stan Lee, que surgiram diversas das suas inspirações, como a idéia de trabalhar metalinguagens em trabalhos como Animal Man e Doom Patrol na DC/Vertigo.

 

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A parte bigráfica é um show a parte, e em diversos momentos considerei mais atraente que a própria proposta do livro, desde sua infância pacata em Glasgow, o crescente tédio na adolescência, o divórcio de seus pais e sua inevitável empreitada no mercado editorial, assim como o início da fama, com Zenith na 2000 AD, seu contato com as drogas, o vegetarianismo, as experiências lisérgicas e sua primeira crise existencial, há quase duas décadas atrás.

Claro que o livro reflete os maneirismos criativos de Morrison, a relação entre espiritualidade e cultura pop é amplamente explorada, exemplos como o dualismo Apolo/Dionísio entre Superman/Batman, a questão de símbolos e palavras mágicas e ai o mesmo argumenta que Captain Marvel, ao pronunciar “SHAZAM”, se tornou o primeiro grande xamã da ficção moderna.

A verdade é que, tirando suas discussões sobre a Era de Ouro e de Prata, se o leitor conhece a obra recente de Morrison, então pouco sobra do livro, em muito, o livro é considerado um manifesto em prol da edificação do arquétipo super-heróico. Na terceira parte do livro, Morrison prefere chamar a “Era Moderna”, iniciada por Frank Miller e Alan Moore como a “Era das Trevas”, onde se deu início a uma obsessão pelo “realismo” nas histórias, trazendo o vício insalubre que ficou conhecido pela crítica como “grim n’ gritty”

Morrison condena o “realismo” por duas instâncias: primeiro, pois ele é fruto de uma mente adulta e limitada pelas vicissitudes do cotidiano adulto, e que, por fim, o mesmo não passa de um exagero de violência e repreensão sexual que visa não transformar as histórias em algo real, mas sim “desmoralizá-las”.

E ai o escritor reforça sua crítica em cima de Watchmen, onde de forma ambígua, elogia o esforço criativo de Alan Moore em talhar sua história em uma “perfeita simetria”, mas condena a obsessão do barbudo com suas personagens, deixando bem claro que “realismo” não é sinônimo para “fatalismo”, “humanizar” personagens não é o mesmo que “humilhar”.

Alguns fóruns acusaram que o livro, levando em conta a recente reformulação do Universo DC, se tornou um golpe publicitário, é importante frisar que Morrison tem dado uma série de entrevistas sobre o futuro criativo da editora, roteirizando três dos personagens mais importantes da editora, a famosa “trindade” composta por Superman, Wonder Woman e Batman.

Em diversos momentos, Morrison argumenta a inspiração popular, quase socialista do Superman de 1938, assim como os fetiches BDSM de William Moulton Marston, o escritor original de Wonder Woman, idéias que ele afirmou que vai retomar e por em prática em trabalhos futuros.

Não é mentira que a ascensão do escocês tem causado incomodo no público e na mídia, vamos ser sinceros quanto a um ponto, Grant Morrison é um nerd que vive seus quinze minutos de fama, com livro e documentário, onde muitos optariam por sofrer uma “síndrome do undeground”, Morrison busca através dessa visibilidade dar uma projeção maior a seus projetos e idéias.

Supergods é o início do que pode ser o “próximo passo” do mercado de HQs, da mesma forma que Kirby, Lee, O’Neil, Moore, McFarlane e tantos outros contribuíram com o futuro do meio, só o tempo poderá nos dizer sobre o êxito dessa empreitada. Ficam aqui meus votos para o fim dos anti-heróis carrancudos e a volta das capas esvoaçantes e heróis sorridentes, assim como no passado, esses são tempos em que mais do que nunca, precisamos deles novamente.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A Coisa

 

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É possível uma cidade inteira ser mal assombrada?

Assombrada como se supõe que sejam algumas coisas?

Não apenas um único prédio na cidade, tampouco a esquina de uma única rua, uma única quadra de basquete em um único parquezinho, com a cesta da rede projetando-se ao pôr-do-sol como algum obscuro e sangrento instrumento de tortura, não apenas uma área, mas tudo.Tudo quanto houver nessa cidade.

Pode ser possível?

Ouçam:

Assombrado: ‘Visitado freqüentemente por espíritos’.

Assombrando: ‘Retornando à mente com persistência, difícil de esquecer.

Assombrar: ‘Surgir ou infestar com freqüência, em especial como fantasma’, No entanto, ouçam: ‘Lugar assiduamente visitado, toca, antro, estância...

Ainda mais uma. Esta, como a última, é uma definição de assombrado como substantivo. É ela que me assusta. É ela que me apavora: ‘Um local onde os animais costumam alimentar-se.’

É como se eu tivesse caído dentro de uma história, mas todos sabem que a gente só sente medo no fim da história, quando o assombrador finalmente sai das paredes internas da casa para alimentar-se... de nós, é claro.

De você.

“Havia um palhaço no bueiro. Era um palhaço, como no circo ou na TV. O rosto era branco havia tufos engraçados de cabelo vermelho em cada lado da cabeça careca e um enorme sorriso de palhaço pintado na boca. Usava uma roupa larga de seda, com grandes botões cor de laranja. Uma berrante gravata azul-elétrico pendia em sua frente e ele calçava enormes luvas brancas, do tipo que Mickey Mouse e Pato Donald sempre usavam.”

“O palhaço agarrou-lhe o braço.

Então, George viu a transformação no rosto do palhaço.

O que viu foi tão terrível que transformou em doces sonhos o que imaginava de pior sobre a aparência da coisa na adega. O que viu destruiu sua lucidez em uma fração de segundos.”

 

Nunca foi novidade pra ninguém que me conhece bem que meu gênero preferido é o terror, desde que me conheço por gente. Me recordo como se fossem ontem da primeira vez que fui trancafiado com Jonathan Harker no castelo do Conde Drácula, das minhas primeira visitas às Planícies de Leng e de como fui apresentado ao tenebroso Necronomicon. De presenciar o início do apocalipse com o parto do esperado filho da senhora Rosemary. Raros são os livros capazes de provocar emoções tão poderosas e permanecerem tão firmes em nossa memória, como que grafados a fogo.

Por esses e outros motivos, Stephen King jamais saiu de evidência desde que estreou como escritor. Pelo contrário, seu nome só fez se tornar cada vez um sinônimo maior de qualidade, principalmente nos anos 80, quando lançou suas mais famosas obras, num ritmo tão alucinante que chegou a lançar três romances em um só ano. Seus melhores livros se tornaram grandes clássicos do horror moderno, lado a lado com Invasores de Corpos, de Jack Finney e Eu sou a Lenda, de Richard Matheson. Afinal, que de outra forma deveríamos chamar Carrie, a Estranha, sucesso absoluto há mais de trinta e cinco anos? E suas versões das clássicas histórias de Lugar Ruim, Christine e Iluminado? E a sua mega saga literária A Torre Negra?

Não bastassem esses e outras dezenas de livros, ele nos presentearia em 1986 com uma das suas maiores obras-primas. A Coisa é uma das suas mais definitivas provas de que não é só um excelente escritor de horror, mas um autor brilhante, acima de tudo. Aqui ele demonstra finalmente que poderia escrever histórias de outros gêneros, mas optou pelo terror porque é o único capaz de representar com tanta ênfase os seres humanos em seus piores e mais corruptíveis momentos... e nos seus mais belos e verdadeiros. É o que destrói todas as nossas defesas, invadindo aquele quartinho trancado em nossas mentes que escondemos até de nós mesmos, onde ficam nossos maiores pesadelos.

 

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Em 1958, um grupo de sete crianças se une, aparentemente apenas pelo acaso e pela forte amizade entre eles, para tentar destruir o mal que assola a pequena cidade de Derry há gerações. Uma entidade maléfica de vários rostos, mas mais conhecida pela figura sádica do palhaço Parcimonioso, que vem espalhando um rastro de sangue e morte das crianças das quais se alimenta. Imortal e praticamente invencível, ela usa o medo das suas vítimas para subjugá-las. Bill, Richie, Bev, Mike, Ben, Eddie e Stan, sem nenhuma arma além da coragem, confiança mútua e amizade, chegam tão perto de destruí-la que partem pensando que conseguiram. Vinte e sete anos depois, A Coisa volta a espalhar o terror por Derry, desta vez com um sentimento que ainda desconhecia: a sede de vingança. É a hora daquele grupo de amigos se reencontrar e cumprir o juramento que fizeram: o de matar a Coisa de uma vez por todas. Começamos então a acompanhar a história do que aconteceu quando eles eram apenas crianças e agora já adultos.

Com renovado horror, Ben percebeu que, de algum modo, o palhaço alcançara a ponte, estava agora bem abaixo dele, erguendo a mão ressequida e encarquilhada, da qual abas da pele pendiam como bandeirolas – mão através da qual apareciam ossos semelhantrs a marfim amarelado.

Um dedo quase sem carne acariciou o bico da sua bota.

Talvez A Coisa assuste alguns pelo seu vultuoso tamanho. Um dos maiores tomos já escritos pelo Rei do Terror, ele tem quase novecentas páginas. Mas seus verdadeiros e mais apaixonados leitores foram rápidos em compreender que seus melhores romances são justamente os mais longos. Não é à toa que Dança da Morte e A Coisa sejam considerados dois dos seus melhores livros e A Torre Negra, série literária que permeia cerca de quatro mil e quinhentas páginas em sete volumes, seja tido tanto por público e crítica, sua Opus Magnum, sua maior obra. A razão disso está no fato de que ele não lota páginas e mais páginas com enrolações ou informações inúteis, como fazem muitos escritores famosos. Embora para alguns possa parecer apenas encheção de linguiça, não é. Ele preenche suas páginas com o que realmente importa: a construção cada vez mais complexa da história e o desenvolvimento magnificamente elaborado de personagens marcantes. Acredite, todas as linhas de A Coisa são essenciais.

É justamente na construção de personagens que A Coisa mostra uma das suas maiores qualidade. King sempre foi bastante habilidoso no desenvolvimento psicológico do elenco de seus livros, porém aqui ele chegou à perfeição. Ele chegou a um resultado que muitos escritores almejam, mas muito raramente alcançam. Poucas vezes me senti tão ligado aos protagonistas de um romance e confesso que fiquei profundamente melancólico ao terminá-lo, por lembrar que teria de me despedir de todos aqueles personagens com quem convivi por tanto tempo. Cada um deles tem motivações tão convincentes e personalidades únicas que por vez parecem adquirir autonomia própria, fugindo das mãos de seu criador e fazendo o que bem entendessem. Até mesmo seus diálogos são extremamente críveis. Sejam de adultos ou crianças transcrevem frases que eu mesmo diria se tivesse aquela idade e estivesse nas mesmas situações.

Que bando de perdedores tinham sido! Stan com seu narigão de menino judeu, Bill Denbrough que não conseguia dizer outra coisa além de ‘Hi-yo, Silver’, sem guaguejar, de um jeito que quase enlouquecia quem o ouvisse, Beverly Marsh com suas esfoladuras e seus cigarros enrolados na manga da camisa, Ben Hanscon, tão gordo que parecia uma versão humana de Moby Dick, e Richie Tozier, com seus óculos de lentes grossas, suas notas altas, sua boca sensata e o rosto que apenas começava a ser modelado em novos e excitantes formatos. Haveria uma palavra para definir o que tinham sido? Oh, claro. Sempre haveria. Le mot Just. Neste caso, Le mot Just era bobocas.

Eles sabiam... e ninguém iria recuar. De repente, ficou muito orgulhoso dos companheiros, muito orgulhoso de ser parte daquele grupo. Após tantos anos sendo excluído, agora era incluído. Finalmente incluído. Ignorava se continuavam sendo perdedores ou não, mas estavam juntos. Eram amigos. Infernalmente amigos

Não tenho o costume de comentar protagonista por protagonista nos textos que escrevo, mas em A Coisa isso é mais do que necessário. Sem eles, não haveria nenhum envolvimento por parte do leitor com a história. Em vários de livros de Stephen King existe um personagem livremente inspirado nele mesmo. Se em O Iluminado temos Jack Torrance e em A Hora do Vampiro Ben Mears, aqui temos Bill Denbrough. Bill compartilha algumas coincidências com o seu criador: Ambos “sofreram” uma subida meteórica na carreira de escritor. Se dedicaram a obras sobre a infância e a passagem a vida adulta (A Coisa é uma delas). Os dois têm a firme convicção de que na literatura a história deve estar acima de tudo e todas e todas as outras questões a serem pensadas, como tema, atmosfera e tom, são supérfluas. Claro que Bill não se limita a ser um avatar de King na história, não tão óbvio e limitado. Essas semelhanças são apenas marcantes demais para serem ignoradas.

Bill vai muito além disso. Ele é uma das melhores representações de liderança já feitas. A sua posição de comando do grupo não lhe cai como uma dádiva, uma honra da qual devesse se orgulhar. É um peso em seus ombros, uma responsabilidade indesejada depositada nele pelos seus amigos, quase inconscientemente. É dever dele manter o grupo unido a qualquer custo, encorajá-lo, para conseguir matar A Coisa. Se fracassar pagará um alto preço: a própria vida.

Bill experimenta uma forma de exaltação divina, enquanto se ocupa em escrever a história; inclusive, chega a sentir que não está somente contando a história, mas permitindo que ela flua através dele. A certa altura, larga a caneta e coloca a mão, quente e dolorida, dentro do frio de dez graus negativos de dezembro, e ela quase solta fumaça, devido ao choque de temperatura. Ele caminha a esmo, as botas verdes novas rangendo na neve, como pequenas dobradiças de persiana precisando de óleo, e sua cabeça parecia inchar com a história – e a maneira como ela precisa escapulir de lá é algo assustador. Bill acha que, se ela não conseguir escapar através da velocidade da sua mão, terminará explodindo por seus olhos, tamanha a urgência em liberar-se e tornar-se concreta. ‘Vou espremê-la até as tripas’, declara ele ao ventosos e escuro inverno. Ri um pouco. Um riso trêmulo. Tem consciência de que, finalmente, descobriu como fazer isso – após dez anos de tentativas, subitamente descobriu o botão de partida para o vasto trator parado, que lhe toma tanto espaço no interior da cabeça. O motor foi ligado. Está roncando, roncando. Nada tem de bonito, essa máquina imensa. Não foi feita para acompanhar lindas garotas a bailes de formatura. Não é um símbolo de status. Significa atividade. Pode derrubar coisas. Se ele não tomar cuidado, pode derrubá-lo também.

Richie Tozier é igual aquele moleque da sua turma que costumava sentar no fundo da sala e sempre tinha uma piada na ponta da língua. O sonhador que almeja ser o melhor ventríloquo do mundo, que só consegue fazer péssimas vozes, todas parecidas com a dele, cresce e se torna conhecido no meio radiofônico como o Homem das Mil Vozes. Richie é pra mim o personagem mais sensacional do grupo de protagonistas. Ele não é só um alívio cômico, não entrou na história apenas para fazer humor. Ele tem sua própria importância para a história, se preocupa realmente com o s amigos e pode ser bem sério quando lhe dá na telha.

Não tinha sido dos melhores no início, não ficara excitado demais, para ser bom... no entanto, havia descoberto que seu potencial o levaria a não ser apenas bom no trabalho, mas excelente, um conhecimento suficiente para enviá-lo à lua, em uma nuvem de euforia. Ao mesmo tempo, começara a entender o grande princípio que movia o universo, pelo menos aquela parte do universo que tinha a ver com carreiras e sucesso: é quando descobrimos o cara louco que esteve dando cabeçadas dentro de nós, infernizando nossa vida. A gente o encurrala a um canto, apodera-se dele, mas não o mata. Oh, não! Matar seria bom demais para sujeitos como esse bastardinho. O que se deve fazer é pôr-lhe um cabresto e então começar a arar. O cara louco começa a trabalhar como um demônio depois de atrelado ao caminho certo. E, de vez em quando, ele fornece algumas graças. Tudo consistia nisso. E era o bastante.

Ben Hanscon, Bev Marsh, Eddie Kaspbrak e Stan Uris são os membros práticos do grupo. Ben é um garoto rejeitado pela maioria das pessoas por ser muito gordo, mas é dono de uma capacidade intuitiva de construir tudo o que quiser, de balas e clubes subterrâneos até barragens improvisadas. Sua amada Bev é a típica menina que só anda com garotos, nova demais para pensar em namoro, mas bonita o bastante pra fazer com que seus colegas direcionem olhares apaixonados para ela. Eddie é o garoto que por causa dos cuidados superprotetores da mãe é hipocondríaco desde pequeno e dono da mais grave asma já vista. O mais fiel amigo de Bill, seria capaz de sacrificar sua vida por ele, sem pensar duas vezes. Stan é o garoto do grupo que mais sofre por ter que enfrentar A Coisa. Por vezes, parece enfrentar um terrível duelo consigo mesmo. Não é o medo dela que lhe tira o sono, não mesmo. É a destruição da racionalidade, do sentido de correto e possível, que um palhaço imortal e que pode estar em todos os lugares representa à sua mente. Reconhece que é seu dever tentar eliminar A Coisa, mas ele se sente incapaz disso, fraco demais. É como se ele quisesse desistir de tudo, mas não tivesse coragem de dizer isto aos seus amigos.

 

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Geralmente, quando um bibliotecário aparece numa obra ficcional é sempre de forma estereotipada, como uma senhora de óculos que detesta barulho ou uma mulher que parece deter todo a sabedoria do universo apenas por ter escolhido esta profissão, ou mesmo como um vilão. Mas a grata surpresa aqui é encontrar não apenas um bibliotecário perfeitamente normal, como ainda um dos mais importantes da história. Mike Hanlon tornou-se o responsável pela árdua tarefa de permanecer vigilante a todos os acontecimentos da cidade, de perceber se um novo ciclo da Coisa se iniciar e convocar seus amigos para cumprirem a promessa. O que praticamente equivale a um guarda buscando os condenados para serem executados na cadeira elétrica.

“O rangido de tendões secos novamente. Arroto tornou a olhar para ele, com seu solitário olhar fundo. Os lábios distendidos em um sorriso terrível, revelando gengivas negro-acizentadas que produziam seu próprio jardim de limo. Que tipo de sorriso é esse, perguntou-se Henry, enquanto o carro ronronava maciamente pela rua Main, passando pelo Freese’s de um lado, a Lanchonete Nan’s e o Cinema Aladdin do outro. Um sorriso de perdão? Um sorriso de velho amigo? Ou será do tipo que significa eu vou pegar você?

Antes mesmo de se tornar um assunto amplamente debatido pela sociedade e ganhar este nome, o bullying já era um dos temas mais recorrentes na obra de King. É o bullying a princípio que une Bill, Mike e os outros, porque todos eles são perseguidos pelos garotos maiores, por um motivo ou por outro. A junção dessas minorias gera uma tabela de abusos que faria Carrie parar de reclamar e dar graças a Deus pela vida que tem. Henry Bowers é mais que o valentão típico das escolas americanas, com seus amigos de baixo QI. É um verdadeiro psicopata. Ele não está apenas interessado no dinheiro do lanche ou em dar algumas porradas em uma criança indefesa. Ele quer humilhar, machucar e, talvez, matar. Está numa linha extremamente tênue entre a sanidade e a loucura, a realidade e o delírio. Nas mãos dele, uma faca vira um querido objeto de estimação. Para a nossa sorte, mesmo Henry e o restante dos vilões humanos do livro têm motivações e passados que, se não nos faz aceitá-los, pelo menos nos deixa compreendê-los.

Ninguém para de ser criança subitamente, com um estouro explosivo, como um daqueles balões daquele palhaço, com suas inscrições baratas. A criança dentro de nós apenas se escoa, como o ar escapando de um pneu. Um dia, ao olhar no espelho, vemos um adulto que nos fita.

Stephen King sempre foi fascinado pela idéia de que as crianças se saem melhor do que os adultos quando enfrentam o medo e incorporam o inexplicável às suas vidas. Porque as crianças convivem com o medo o tempo inteiro, seja do monstro dentro do armário ou da criatura abaixo da cama. Milagres, sejam bons ou ruins, sempre são levados em conta. A aparição repentina de um monstro gigante logo ao acordar não impossibilitariam que a criança comesse bastante no almoço e lanchasse vários sanduíches depois. Talvez nem perturbasse seu sono à noite.

Contudo, nos adultos tudo isso muda. Eles não ficam mais acordados na cama por medo de um monstro o espreitando no escuro, mas quando se deparam com o sobrenatural, algo além da explicação racional, seus cérebros pifam e eles começam a tremer em total descontrole, a chacoalhar. Não há como incorporar aquilo à sua experiência de vida, mas sua mente continua voltando e voltando ao acontecimento. Até que enfartam, cometem suicídio ou passam o próximo ano e meio em uma sala acolchoada de um hospício escrevendo cartas a familiares com um giz de cera.

De certa forma, não chega a surpreender que seus personagens infantis sejam sempre os mais cativantes e eternos nas nossas memórias. Em A Hora do Vampiro é o nome do garoto fanático por terror, Mark Petrie, que fica na cabeça. Em O Iluminado, por mais que a imagem de Jack Nicholson com os cabelos em desalinho, olhar insano e machado em riste insista em voltar às nossas mentes, é Danny quem mais marca. Se nos envolvemos tanto com os protagonistas de A Coisa é porque Stephen King nos permite acompanhá-los desde crianças.

A Coisa é, como já mencionei acima, uma obra sobre a infância. Ela consegue rivalizar com os melhores momentos de clássicos como O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, Tom Sawyer, de Mark Twain e os melhores momentos de Conta Comigo (adaptado de um conto do próprio Stephen King). O romance é, sobretudo, um convite a todos nós. Um convite para que revivamos, mesmo que por poucos e preciosos momentos, não apenas as nossas brincadeiras de criança, mas todos os nossos maiores medos da infância. De como implorávamos para dormir com a luz acesa, quando o porão parecia negro e ameaçador e sempre nos parecia que havia uma criatura arranhando o vidro da janela do quarto enquanto tentávamos em vão dormir.

Quando se fica adulto, deixa-se de acreditar.

Foi como se retirassem um peso imenso de cima de seu peito. Da mesma forma que Ben com sua múmia, Eddie com seu leproso, Stan com os garotos afogados, ele vira uma coisa que levaria um adulto à loucura, não apenas pelo terror, mas pela força devastadora de uma irrealidade grande demais para ter uma explicação racional ou, na falta de uma explicação, para ser simplesmente ignorada. O rosto de Elias fora queimado e ficara escurecido pela luz do amor de Deus, pelo menos assim tinha lido; contudo Elias era um velho quando isso aconteceu e talvez houvesse aí uma diferença. Um daqueles outros sujeitos da Bíblia, este pouco mais do que um menino, não havia lutado com um anjo?

E é o poder presente na infância que permite com que sete crianças possam combater A Coisa, sem a ajuda de adultos. Apenas usando a inocência e a capacidade de acreditar que só as crianças são capazes de ter. Quando eles retornam, calvos e vividos, uma parte da mente deles sabem que as chances de sucesso são quase nulas. Afinal já passou a época em que eles acreditavam que o Papai Noel podia estar em cada esquina no mês de dezembro no mesmo tempo em que produz brinquedos para o Natal no Alasca. É esta quase certeza de fracasso que permite que a história consiga ser tão pavorosa, horripilante. Realmente entendemos que todos ali correm o risco de morrer.

Os olhos do palhaço aumentavam cada vez mais. Naquelas pupilas negras, tão grandes quanto uma bola de softball, Richie viu a louca escuridão que devia existir além da borda do universo, viu uma repugnante felicidade que, percebeu, poderia deixá-lo insano. Naquele momento compreendeu que A Coisa poderia fazer tudo o que dissera e muito mais.

Desde o lançamento de Frankenstein, de Mary Shelley, existe um elemento que se tornaria comum em milhões de filmes, livros e contos de horror. O ser inominável, o monstro, aquilo que só pode ser definido por Ele ou Coisa. Stephen King nos presenteia aqui com a versão definitiva do monstro ou, como o próprio título nos grita em sua capa, da Coisa. Perto dela, Drácula, Frankenstein e Freddy Krueger empalidecem. Ela parece ser eterna, capaz de alterar as nossas noções de realidade e tempo, desprezar as leis da física, e controlar os nossos sentidos. Pior que isso, ela pode penetrar em nossas mentes para identificar nossos maiores pavores. É mais antiga que o próprio tempo, capaz de se transformar em seu maior pesadelo em um piscar de olhos.

A capacidade de se transformar acaba por se tornar um de seus atributos mais interessantes. Como a sua principal base alimentar sempre foi as energias das crianças, não é incomum que ela apareça do nada como os monstros dos filmes que elas vêem no cinema e depois lhes dão pesadelos por semanas a fio. Se um garoto se borra de medo só de ouvir o “tan-tan-tan-tan” da canção-tema do Tubarão, de Steven Spielberg, é como essa besta aquática que ela irá surgir. Não demora muito e somos brindados com as aparições do Lobisomem Adolescente, da Múmia e de sanguessugas gigantes voadoras.

Não, não eram reais. Monstros de televisão e monstros do cinema, assim como os monstros das histórias em quadrinhos, não eram reais. Não, até que a gente fosse para a cama e n/ao conseguisse dormir; não, até que as últimas quatro barras de doce, embrulhadas em pedaços de pano e guardadas debaixo do travesseiro contra os males noturnos, fossem saboreadas; não até que a cama em si se tornasse um lago de sonhos repugnantes e o vento uivasse lá fora, dando medo de olhar pela janela, porque talvez houvesse um rosto na vidraça, um rosto velho e sorridente que não apodrecera, mas apenas secara como folha morta, com órbitas semelhantes a diamantes submersos, enfiados bem no fundo de órbitas escuras, não até que visse uma mão descarnada e encarquilhada segurando uma porção de balões de gás.

Eles flutuam e você flutuará também!

Perto destas transformações a forma como A Coisa é mais famosa, a do plhaço Parcimonioso, quase perde um pouco do seu brilho. Quase porque, diferente das demais, ela não existe para atemorizar. Quantas crianças gostam de palhaços? Quantas não só gostam deles, como também fariam tudo para ter uma daqueles balões espectrais que Parcimonioso leva para todos os lugares? Além de servir para atrair as crianças, também é um terrível pesadelo para aquele grupo de pessoas que têm pavor de palhaços (três amigos me contaram que jamais leriam A Coisa por temerem palhaços desde que se conhecem por gente) e a boca pintada de vermelho-sangue em um sorriso sádico de orelha à orelha, os pompons alaranjados e a calça folgada estão ali para nos lembrar que A Coisa não é apenas um monstro inarticulado. Ela faz novas vítimas com o senso estético de um artista e com a mesma satisfação com que uma criança come um chocolate: gargalhando alto ao se preparar para matar da maneira mais original que conseguir imaginar.

Não é incomum no horror cidades que dão a idéia de ter vida própria. A Derry onde se passa a história parece ser dona de uma consciência malévola, capaz de influenciar os pensamentos e o comportamento de seus habitantes, levá-los a crimes bárbaros e a catástrofes inimagináveis. Derry sempre está lá, silenciosa e oculta, espreitando todas as ações de seus habitantes.

Quem sabe quanto tempo dura o luto? Não será possível que, mesmo 30 ou 40 anos após a morte de um filho, de um irmão ou irmã, a gente pense vagamente naquela pessoa, com o mesmo vazio perdido, aquela sensação de lugares que nunca serão preenchidos, talvez nem mesmo na morte?

Assim como a minissérie que adaptou o livro para a televisão anunciava A Coisa é uma obra-prima do medo. Em seus mais inspirados trechos, Stephen King parece estar apenas se divertindo com as milhões de possibilidades que a história que criou lhe dá, apenas metendo o pé no acelerador e vendo até onde a sua imaginação lhe deixa ir. Não é de se estranhar que a sua imaginação o tenha feito ir tão longe, percorrer novecentas páginas. Não é uma questão que ele goste ou ame escrever. Escrever pra ele é uma necessidade tão física quanto a cocaína pra um viciado e o próximo trago pra um alcoólatra. É o que mantém sua mente ativa e livre de inseguranças, além de ser melhor forma possível de se passar o tempo.

 

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Mesmo considerado o rei do horror é ótimo ver como King nunca faz questão que de esconder suas influências, os autores que ditaram os rumos da sua ficção e carreira. Além de assumi-los livremente, ele ainda os transforma em elementos fixos das suas histórias. As figuras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Bram Stoker estão dessa vez para mostrar o quanto a ficção pode estar distante da nossa realidade.

Se isto é uma história, não se trata de algum daqueles clássicos sensacionais de Lovecraft, Bradbury ou Poe. As convenções românticas estão totalmente erradas. Meus cabelos não embranqueceram. Não sou sonâmbulo. Não comecei a fazer comentário enigmáticos ou a carregar uma prancheta por aí, no bolso do meu paletó-esporte. Acho que rio um pouco mais, eis tudo, e às vez meu riso deve parecer mais estridente e curioso, porque em algumas ocasiões as pessoas me olham de maneira estranha, quando estou rindo.

Se fosse apenas cansaço, tudo bem; contudo, era algo mais, era a sensação de que algo se desintegrava, de que sonhava, de que tinha ilusões paranóicas. Uma sensação de estar sendo espionado. Talvez eu não esteja aqui, pensou. Talvez esteja no hospício do Dr. Seward, tendo como vizinhos o Conde em sua cada arruinada e Renfield na porta bem em frente no corredor, ele com suas moscas e eu com meus monstros, nós dois convictos de que a festa continua e vestidos para a ocasião, não em trajes a rigor, mas em camisas-de-força.

King nunca escondeu de ninguém que sempre que começa uma história nova não faz a mínima idéia de como ela vai terminar. Ele só a descobre do mesmo jeito que o leitor, seguindo a história. A sua concepção é que isso tiraria toda a graça da escrita. A Coisa é uma notável e bem-vinda exceção. Em diversos momentos ele já dá uma boa idéia do que está por vir na história, gerando aquela curiosidade cada vez mais enervante em saber logo o que vai acontecer que é tão presente em seus livros. E por mais que nos dê dicas ele sempre dá um jeito de nos surpreender.

Infelizmente, nem tudo funciona bem em A Coisa. King, talvez por medo da complexidade do enredo, comete o equívoco de esmiuçá-lo demais, mastigando detalhes que ficariam bem mais interessantes se permanecessem apenas sugeridos durante a narrativa. Provavelmente, isso garante que até o leitor mais distraído compreenda toda a riqueza do livro, mas não deixa de ser uma decepção pensar que mesmo tendo alcançado tamanho nível de qualidade ele ainda duvidasse da total eficiência das suas armas.

"Talvez nem exista isso de amigos que prestam ou que não prestam - talvez existam apenas amigos, pessoas que nos apóiam quando estamos por baixo e que não nos deixam sentir solidão. Talvez sempre mereçam que nos preocupemos, que torçamos e vivamos por eles. E que também morramos por eles. Nada de amigos que prestam. Nada de amigos que não prestam. Apenas amigos de quem sentimos falta, com os quais queremos ficar, as pessoas que moram em nosso coração."

"O que importa é o amor, a preocupação, os cuidados... é sempre o desejo, jamais o tempo. Talvez seja tudo o que podemos levar conosco, ao sairmos do azul e penetrarmos no negro. Um frio consolo pode ser, porém melhor do que nenhum."

Mas A Coisa é um dos livros de Stephen King que mais abre espaço para diferentes interpretações. Alegorias sobre a puberdade, o amadurecimento e mesmo sobre a eterna luta entre o bem e o mal podem ser vistas durante a história. Não é somente mais um livro de terror, é uma celebração da infância, da inocência, do amor e da amizade. É impossível lê-lo sem lembrar com saudade e um aperto no peito dos nossos tempos de criança, de como éramos capazes de acreditar em quase tudo e das amizades que jamais poderemos ter novamente.

Qualidades como estas são muito, muito mais que um mero escritor de terror poderia almejar. É aquele romance do gênero que quebra barreiras de gênero e de arte, de idade e de sexo. Entre em Derry e na vida de Bill, Richie, Stan e os outros e compreenda porque A Coisa é um dos melhores romances de horror do século XX.

 

Autor: Stephen King

Páginas: 892

Preço: R$ 95.00

Nota: 10

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Avatar FiliPêra

[Resenha] Quadrinhos no Cinema

 

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[Esse livro teve o azar de chegar aqui em casa exatamente um dia antes de Eu viajar de férias no mês retrasado. Então, não pensem que sou ler na escrita (isso sou mesmo), ou que fiz pouco caso dele]

O tema é extenso, já rendeu três NozesCasts (1, 2 e 3), porém está cada vez mais em voga: adaptações de quadrinhos para os cinemas. Por isso mesmo é difícil de ser catalogado, explicado de forma um pouco mais organizada ou contextualizada, já que trata da união de dois mercados tão importantes, que surgiram em épocas bem próximas… e que andam cada vez mais com as mãos dadas - a DC pertence a Warner Bros e a Marvel a Disney, duas das maiores produtoras cinematográficas do mundo.

Os últimos anos foram particularmente importantes para os quadrinhos no cinema - por motivos que vão desde a popularidade cada vez mais crescente dos personagens das HQs, até a crise aguda de criatividade de Hollywood, que tem a gana de adaptar e fazer remake de qualquer coisa que possa fazer o mínimo sucesso - principalmente com a volta de Batman, e a invasão da Marvel, que colocou todas as suas franquias importantes que ainda não haviam sido vendidas na fila de produção.

Do lado da Casa das Idéias temos Homem de Ferro, Hulk, Thor, Capitão América, e Vingadores no ano que vem, já a DC tem um provável fim da Trilogia do Cavaleiro das Trevas, Lanterna Verde, um Superman para 2013, e mais algumas produções conturbadas que não se sabe quando estréiam.

Quem não é conhecedor de quadrinhos pode até ficar perdido no meio dessa avalanche que cada vez mais se conecta - principalmente do lado da Marvel, onde cada filme serve como capítulo para a criação dos Vingadores -, mesmo com os filmes se esforçando para ser didáticos para todos os públicos, embora guardem referências que só os fãs conseguem pescar. É aí que surge o livraço Quadrinhos no Cinema, do trio do Pipoca e Nanquim: Alexandre Callari (também escritor de Apocalipse Zumbi), Daniel Lopes e Bruno Zago.

O livro é um ficheiro completo dos principais personagens de histórias em quadrinhos que chegaram/chegarão aos cinemas esse ano: Thor, Lanterna Verde, Capitão América e Conan. e ele cumpre sua proposta com maestria.

 

Logo de cara, o que chama a atenção do livro é sua qualidade visual (principalmente quando você tiver lendo sobre Thor e ver um monte de deusas nórdicas e guerreiras gostosas), com todas as páginas ilustradas, papel couché de primeira e capa que, mesmo brochura, tem qualidade suficiente pra não se auto-arrancar depois de alguns meses de consultas e sucessivas leituras. Logo depois, entra o conteúdo, mais uma vez de alta qualidade. O livro segue um estilo enciclopédico e de fácil consulta, e não é daqueles volumes mais acadêmicos e voltados a fazer um levantamento da historicidade ou das influências do personagem, mas nem por isso é incompleto ou de menor qualidade.

O volume se inicia com uma introdução responsa sobre o panorama das adaptações de quadrinhos, para logo depois partir para uma ficha técnica completaça dos filmes de heróis que chegarão a tela grande esse ano. Após essas páginas introdutórias, o livro nos mostra perfis completos de cada herói e sua evolução visual na mão dos artistas mais talentosos possíveis, diferentes versões do personagem, principais arcos de histórias, contexto de sua criação, mitologia, vilões, adaptações antigas, aparições em outras mídias, curiosidades... e assim vamos! É coisa pra cacete!

Quadrinhos no Cinema é um desbunde visual e de conteúdo, com leitura imersiva similar a de uma revista em quadrinhos. Além de ficar na sua estante para consulta por anos, esse é daqueles livros com cultura inútil suficiente para te fazer a estrela dos papos mais nerds possíveis, e vai te auxiliar a mandar informações do naipe de: “Thor já derrotou o próprio Galactus”, “o visual dos Guardiões do Universo foi baseado no primeiro ministro de Israel, David Ben-Gurion”, “Lanterna Verde já se encontrou com o Surfista Prateado”, “A Espada de Conan chegou a ser uma das revistas mais vendidas da história do Brasil, com tiragem de mais de 120 mil exemplares”, entre várias outras informações tiradas do baú das excentricidades dos quadrinhos.

Recomendo fortemente a leitura, tanto para iniciantes nesse mundo das revistas em quadrinhos, quanto para os fãs de longa data que procuram mais um livro enciclopédico para aumentar a quantidade de informações que possuem. Que venham mais volumes nos próximos anos, porque as adaptações de quadrinhos vieram definitivamente pra ficar (um volume completão só pra Batman seria justo)!

 

PS: o livro custa R$ 59,90 e pode ser comprado AQUI ou no banner aí ao lado!

 

Título: Quadrinhos no Cinema - O Guia Completo dos Super-Heróis (Editora Évora)

Autores: Alexandre Callari, Bruno Zago e Daniel Lopes

240 páginas

Nota: 8

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O Iluminado

 

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“Tudo que é hotel grande tem seus escândalos. Assim como todo grande hotel tem um fantasma”.


A humanidade chegou a um nível de desenvolvimento inimaginável tempos atrás. Tudo bem que não fazemos tour pelo espaço ou temos carros voadores, mas conseguimos avanços significativos como transplantar membros e órgãos inteiros, se comunicar com uma pessoa do outro lado do mundo instantaneamente ou se locomover de um país a outro em poucas horas. Contudo, existem coisas que por mais que a ciência avance e o tempo passe seus pesquisadores descobrem pouco. Muito pouco. Uma das mais inexplicáveis é a mente humana. E o pouco que se sabe ainda pode cair por terra, como a teoria de que o ser humano só usa 10% da capacidade cerebral.

Mas um de seus maiores mistérios são os fenômenos parapsíquicos. Os mesmos nunca foram comprovados, embora experiências sobre o tema sejam feitas desde 1800. E, em todas elas, os resultados foram surpreendentes. Em uma particularmente foi ordenado aos voluntários que imaginassem uma casa e depois a desenhassem, mesmo sem terem nenhuma informação prévia. Alguns dos testados representaram a residência exatamente como ela era. Isso não comprova que a telepatia ou premonição façam parte da realidade, mas demonstra que não devemos descartar a existência destes e de outros fenômenos simplesmente porque vai contra as leis mais básicas da natureza e os preceitos da ciência.

Os fenômenos parapsíquicos serviram de inspiração para centenas de artistas. Stephen King foi um dos mais entusiasmados deles. Ele já tinha dois livros publicados quando começou a germinar a idéia de O Iluminado em seu íntimo. Nessa época, King estava sempre bêbado e já era um alcoólatra há anos, tanto que afirmou não fazer idéia de como conseguiu terminar seus livros naquela época. Talvez ele nunca houvesse largado o vício se sua família e amigos não interviessem, jogando fora, na sua frente, todas as garrafas de bebida e se sua esposa não o ameaçasse deixá-lo. Desde 1980, cortou todo tipo de droga e se mantém sóbrio desde então. Mas não fosse esse vício provavelmente nunca daria ao mundo o livro que o consagrou como um dos mais famosos do horror. Porque The Shining, o título original, refletia essa fase complicada da sua vida. Mas sem deixar de focar no suspense e na complexidade da trama que fez dele um dos autores mais vendidos do mundo.

 

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E é justamente essa complexidade, aliado ao seu horror-suspense tão característico, que faz Stephen King ser um verdadeiro mestre. Geralmente, livros e filmes do gênero são essencialmente simples em seus enredos. Uma família ou grupo de amigos que vai a algum lugar e começa a ser atormentado por um espírito, um maníaco ou algum tipo de criatura. Já nas obras de Stephen King, as tramas são mais elaboradas e bem construídas, num processo crescente de tensão que nos leva até o clímax. Carrie mostra toda a crueldade que os adolescentes podem demonstrar com um colega mais fraco e o fanatismo religioso na vida de uma garota com dons telecinéticos. A Hora do Vampiro mostra uma pequena cidade sendo invadida por vampiros enquanto explora o próprio passado negro do local e a vida bem particular de seus habitantes, junto das reações de cada um quando começam a perceber que tem alguma coisa muito errada em curso. Já em O Iluminado isso é levado ainda mais longe. Não é apenas uma história de uma família que se muda para um hotel mal-assombrado. O romance guarda bem mais por trás de suas páginas.

Não é incomum que algum personagem de Stephen King tenha semelhanças com ele. Mas Jack Torrance é um dos poucos que ele assumiu ter se inspirado em si mesmo. O enredo é impulsionado por Jack. Ele é uma pessoa atormentada pela culpa. Depois de seu casamento com Wendy quase desmoronar por causa da bebida, de um acidente com o filho Danny de cinco anos e de ter perdido o emprego ele está em uma situação difícil. O seu dinheiro está quase acabando, e eles são obrigados a se mudar para uma casa menor. Tudo o que ele quer é uma chance para se reerguer. Chance esta que o amigo Al Shockley lhe dá oferecendo um emprego como zelador do hotel Overlook durante o inverno, período em que fica fechado. Uma chance que pode ser a última da sua vida.

Assim vai poder levantar um bom dinheiro, e ter tempo livre para terminar finalmente a sua peça. Pouco lhe importava que um antigo zelador de lá houvesse matado a esposa e as filhas quando ficou preso lá no período das fortes nevascas. Ele, por mais que o gerente desconfiasse dele, nunca faria isso. Amava Wendy e Danny mais que tudo no mundo. E precisava daquele emprego. Então aceita, sem saber que o que há de mais estranho e inexplicável se escondia por trás das fachadas antigas e silenciosas do hotel nas montanhas.

 

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Embora não queiram aceitar a decisão de Jack, Wendy e Danny são obrigados a concordar por saberem que ele precisa desse emprego. A mãe por motivos que ela mesma não sabe direito explicar. Mas Danny sabe que algo de maléfico se esconde lá dentro do Hotel Overlook, uma Coisa que começa a povoar seus piores pesadelos. Sonhos e pesadelos que costumam ser previsões do futuro. Quando perceber já pode ser tarde demais.

Pode-se achar estranho por uma criança de cinco anos como protagonista de um livro de horror, com mutilações e tudo, mas em O Iluminado funciona à perfeição. Danny é o que alguns podem chamar de paranormal, pessoa com sexto sentido, mas no livro é tratado como um garoto iluminado. Ele sempre aparenta saber o que as pessoas ao redor estão pensando, fala de coisas que não teria como conhecer e só da mãe lembrar, mentalmente, que precisa devolver os livros na biblioteca ele já põe a carteira em cima da mesa. O garoto guarda dentro de si habilidades enormes, que podem ser sentidas a quilômetros de distância.

Um poder mental tão grande que talvez faça dele a pessoa mais iluminada que já pisou na Terra. Lê pensamentos, captura sensações e tem lampejos do futuro e outras capacidades que nem ele mesmo consegue compreender ainda com sua pouca idade, mesmo sendo maduro para uma criança de cinco anos. E agora era o Hotel Overlook. Ele podia se ver lá, sendo encurralado contra a parede, sem saída. Mas a sua saída é ignorar. Afinal nem sempre seus sonhos aconteciam.

 

“Uma porção de gente tem um pouquinho dessa luz interior. Não sabem, mas sempre aparecem com flores quando as esposas estão se sentindo pra baixo, fazem boas provas sem sequer terem estudado, têm uma boa idéia de como as pessoas estão se sentindo logo ao entrar numa sala.”

“O que você tem, filho, eu chamo de luz interior, a Bíblia chama de visões, e há cientistas que chamam de premonição. Já li sobre isso, filho. Já estudei. Tudo isso significa ver o futuro.”

A compulsão de Jack pela bebida já seria suficiente pra gerar um bom livro. Mas Stephen King ainda reúne, além de Danny, o motivador da trama. Uma das formas mais clássicas de provocar medo no leitor. Um mal antigo e de origem desconhecida. Um mal que se encontra num tema que todo escritor de suspense/horror deveria voltar sua atenção pelo menos uma vez: casas mal-assombradas. E não existe nada mais potencialmente sinistro do que hotéis. Falo sério. Quantas pessoas dormiram naquelas camas? Quantas estavam doentes? Quantas planejavam assassinatos ou o suicídio? Quantos morreram de ataque cardíaco ou por outras causas naquele mesmo saguão, na cozinha e nos banheiros? Quanto mais antigos maiores e mais macabros são estes números. E o hotel Overlook não é apenas antigo, como também é cheio de histórias de traições, luxúria, ganância e assassinatos. Um local onde o tempo parece não ter fim. Os acontecimentos ecoam pela eternidade. Dona de inteligência e vontade próprias. E agora surge com tudo.

 

"E no fusca, que subia com mais segurança os aclives menos íngremes, Danny, no meio dos dois, olhava para fora; a estrada desenrolava-se, possibilitando vistas ocasionais do Overlook Hotel, o bloco maciço de janelas voltadas para o oeste refletindo o sol. Era o lugar que vira no meio da tempestade de neve, o lugar escuro do estrondo, onde uma criatura incrivelmente familiar, procurava-o pelos corredores cobertos de mato. O lugar sobre o qual Tony o havia alertado. Era aqui. Fosse o que fosse, REDRUM seria aqui."

“No Overlook tudo tinha uma espécie de vida. Era como se alguém tivesse dado corda no lugar todo, com uma chave de prata. O relógio batia. O relógio batia.”

Estas três coisas trabalhadas lenta e cuidadosamente por King que fazem de O Iluminado um dos grandes livros de horror dos últimos 50 anos. Um horror bem construído, que deixa entrevisto o pior que vai acontecer, mas não como. O romance é como um grande palco de teatro. A cortina abre pouco a pouco, revelando os mistérios que a história aguarda. E então abrir de uma vez só, brutalmente. E não fechar nunca mais. Nem mesmo após a última página. A última linha. Ele é um daqueles livros com mais potencial de marcar seus leitores. Aqueles que alugam e compram casas e nunca se dão ao trabalho de pesquisar o passado da residência.

 

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“A Morte Rubra dominava tudo!”

“Retirem as máscaras! Retirem as máscaras!”

Não fosse ser um terror de alta qualidade, Stephen King nunca esconde a admiração e respeito aos seus precursores. Pessoas que trilharam pelo terror muito antes de ele sonhar em nascer. Há várias menções em sua obra a nomes consagrados como Bram Stoker, Mary Shelley e H. P. Lovecraft em seus livros. Em O Iluminado, Edgar Allan Poe recebe toda a atenção que um gênio da sua envergadura merece. A Máscara da Morte Rubra, um de seus melhores contos, ocupa lugar essencial na trama. Mostra o pior e verdadeiro lado do Overlook. Uma força capaz de despertar terrores mais profundos que o inferno.

 

“Era Poe, o grande nome da literatura americana. E é claro que o Overlook era algo extremamente distante do mundo de E. A. Poe.”

Mesmo homenageando os clássicos, Stephen King recorre a alguns artifícios modernos do gênero para aumentar o clima de suspense/terror. O principal é o isolamento. Quando começa o inverno as estradas são fechadas por causa das fortes nevascas, os telefones ficam mudos e a família Torrance fica presa no Hotel, sem chances de sair por meses. Isso tudo dentro de um lugar que quer a morte de todos lá dentro e não vai medir esforços para alcançar esse objetivo. Uma vitória quase certa, devo dizer. Não é como com os vampiros que só é preciso ter um crucifixo, uma arma (para se defender de animais e de humanos) e se cobrir de água benta. Como combater uma Coisa, um Ser quando se está dentro dele e todos os nossos atos são vistos e ouvidos?

 

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"Este lugar desumano cria monstros humanos.”

O Iluminado foi o primeiro livro de Stephen King a ser best-seller também em capa dura. O sucesso foi tanto que Stanley Kubrick lançaria sua versão da história em 1980, um dos maiores clássicos do cinema. Mas as obras têm diferenças fundamentais entre si. O filme de Kubrick tem algumas cenas idênticas, mas vai seguindo um caminho adverso do meio para o final. O romance é muito mais complexo. Você passa a compreender mais as motivações dos personagens, eles são mais elaborados e alguns trechos dão uma sensação de angústia que você não vê em muito filme bom do gênero por aí.

King consegue nos fazer sentir medo até do mais simples objeto. De uma mangueira de incêndio, de um carro e até de um aparentemente inofensivo gato. Cada página é sinônima de tensão. Um terror psicológico de primeira que faz seu coração acelerar, sua respiração ficar entrecortada e você suar frio. Como não sentir sua espinha gelar com momentos clássicos como a do quarto 217 ou a da topiaria? Mas a  verdade é que tanto o livro e o filme, por motivos e qualidades diferentes, são aulas de como se fazer horror. Ambos são marcas de gênios. Quem tem uma ligação mais forte com o cinema vai preferir a versão com Jack Nicholson em uma das melhores interpretações da carreira. Quem é fã de Stephen King vai eleger O iluminado como um de seus livros favoritos.

Stephen King nunca perdeu uma oportunidade de criticar a adaptação de Kubrick, tendo vários argumentos para desmerecê-lo. Mais tarde, foi lançada uma minissérie baseada em O Iluminado, com uma fidelidade maior.

Tempos atrás Stephen King anunciou numa entrevista que pretendia escrever uma continuação de O Iluminado. Danny já teria quarenta anos e trabalharia em um hospital ajudando os pacientes a irem dessa a uma melhor. O foco estaria nos traumas dele após os eventos no Hotel Overlook. Confesso que poderia ser legal, mas a seqüência é desnecessária. O final de Iluminado já insinua que o garoto viveria uma vida normal a partir dali.

Com O Iluminado, King mostrou ao mundo o potencial que tinha de escrever outros grandes livros como O Talismã e a série Torre Negra. Depois dele um final de semana num hotel nunca mais foi o mesmo.

 

Autor: Stephen King   

Páginas: 582            

Nota: 9,5

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O Guia do Mochileiro das Galáxias

 

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Existem livros obrigatórios para todo tipo de pessoa. Para os fãs de épicos há Senhor dos Anéis, para os admiradores de um bom terror existem as obras de caras como H. P. Lovecraft e, mais recentemente, Stephen King. Para os nerds há a obrigação de ler O Guia do Mochileiro das Galáxias, ainda que depois de ler a opinião seja negativa. A trilogia de cinco livros é uma das mais homenageadas e tem um dia apenas para comemorá-lo, o Dia da Toalha, onde você tem que andar o dia inteiro com uma toalha. O que eu quero dizer é que sem ler os livros de Douglas Adams você boiará num mar de referências que pode ser a conversa entre nerds.

Tudo começou com um programa transmitido pela rádio britânico BBC Radio 4. Depois partiu para uma compilação de fitas cassete. Logo foi radicalmente modificado e ampliado para ser lançado em livro, tornando-se sucesso imediato, com milhões de seguidores fiéis ao redor mundo. O sucesso estrondoso fez a história criada por Adams ganhar as páginas dos quadrinhos, uma série de televisão, games, um filme, peças de teatro e, o mais importante, a publicação de mais quatro livros. Assim surge a famosa trilogia de cinco livros. Houve ainda uma continuação escrita por Eoin Colfer, com permissão do Adams, Só mais uma Coisa. Embora os fãs tenham encarado o lançamento com ceticismo por duvidar que Colfer conseguisse ao menos chegar aos pés de Adams o livro foi bem aceito pela crítica. Para fins deste artigo, este livro não é abordado aqui.

O início de O Guia do Mochileiro das Galáxias já diz muito sobre o que veremos em toda a série. Arthur Dent é um terráqueo que é salvo por seu amigo Ford Prefect, na realidade um alienígena do planeta Betelgeuse, da demolição da Terra. Então acompanhamos as aventuras absurdas e hilárias de Dent pelo espaço. Nas mãos de outro escritor de ficção científica a destruição do nosso planeta poderia ser contada de forma dramática. Mas não por Douglas Adams. Por ele esse momento se torna o início de uma das mais brilhantes sátiras da história, focando todos os temas abordados pela ficção científica. Mas alguém com a genialidade sarcástica de Adams não se resumiria a isso. Tudo podia virar motivo de riso em sua obra, principalmente a humanidade. Seu humor é leve, rápido, extremamente inteligente, bem britânico. Nada de humor para as massas aqui. Há piadas que você só entende se tiver um certo conhecimento prévio. Ele brinca com o absurdo das viagens intergalácticas e de seus habitantes, cada um mais inusitado que o anterior. A sensação de prazer durante a leitura é ainda maior por percebermos o quanto Douglas Adams deve ter se divertido escrevendo sua Trilogia, embora reze a lenda que ele fazia tudo, menos escrever! A leitura é ligeira, quando menos se espera percebe-se, não sem pesar, que o livro já acabou.

Mas, O Guia do Mochileiro das Galáxias não é apenas uma história de humor como já vi alguns dizerem. Douglas Adams sabia como poucos escritores a arte de contar uma história. A forma como ele inicia, intercala e fecha seus capítulos, as viradas bruscas na história, o enredo acelerado e que mesmo assim te faz pensar. Nos dias de hoje, em que a maioria das editoras está mais preocupada com vendas do que com a qualidade dos livros que lançam, a obra de Adams deveria ser lida por todos os escritores iniciantes que querem vender bem seus livros sem perder a qualidade artística. Quem já leu Carlos Ruiz Záfon, autor de A Sombra do Vento, e Markus Zusak, de A Menina que Roubava Livros, entende bem isso. Eles são exemplos de escritores que venderam bem e que um dia podem até chegar a ter seus livros considerados clássicos.

A escrita de Adams envolve conceitos complexos de tecnologia, biologia e outras ciências. Você pode ser um completo zero à esquerda em matemática ou química, mas ainda poderá se divertir com o Guia. Mas quanto mais souber melhor os livros vão lhe parecer. Encontrar um livro com piadas e referências que você sabe bem que poucos humanos vão compreender não tem preço.

 

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Uma das sacadas mais geniais do Guia do Mochileiro das Galáxias é por ele não ter sido escrito como um livro do planeta Terra. Foi feito como um livro publicado em todo o espaço. Graças a essa pequena mudança o estilo e a lógica da narrativa são muito mais técnicos, com descrições inimagináveis em outros livros, como "O ser humano é um ser bípede baseado em carbono e descendente dos primatas". "Tão primitivo a ponto de ainda achar que os relógios digitais são uma grande idéia". A maioria dos livros e filmes de ficção científica explora o espaço e os aliens como o diferente, o estranho. Graças a essa mudança de prisma de Adams as viagens no espaço são absolutamente comuns e nós, os humanos, é que somos bizarros. Criaturinhas atrasadas que mal sabem que existem outras formas vida fora da Terra. Até o planeta sofre: "Logo na Terra, o planeta mais chato do universo!" Isso rende uma infinidade enorme de piadas e críticas sensacionais que não contarei para o caso de você ainda não ter lido.

 

[Se você está lendo isso no planeta Terra, então:

Boa sorte. Existe uma boa quantidade de coisas que você não conhece mesmo, mas você não está sozinho nessa. Só que, no seu caso, as conseqüências de não conhecer essas coisas são particularmente terríveis, mas, olha, não liga não, é assim que a vaca vai pro brejo e afunda.

Arthur Dent funciona como uma solução narrativa. Como ele não sabe droga nenhuma sobre o espaço, tanto quanto nós não sabemos, aprendemos conforme ele aprende sobre outros planetas e raças. Vamos ganhando conhecimento naturalmente, mal percebendo isso. A verdade é que Arthur Dent simboliza a humanidade, eu e você, todos nós. O terráqueo é o personagem pelo qual o autor zomba da humanidade. Mais azarado do que o normal, atrapalhado. Num grupo de personagens bizarros é ele que causa identificação no leitor.

A história tem uma infinidade de personagens, geralmente criados para ironizar alguma coisa. Sejam os psicólogos, os filósofos, a religião e a as universidades. Porém, além de Dent, poucos personagens são recorrentes na série. Um deles é Ford Prefect, um alien do planeta Betelgeuse que vem como pesquisador de campo para o planeta Terra para atualizar o verbete do Guia do Mochileiro das Galáxias, mas acaba preso aqui por longos 15 anos. Durante esse tempo adotou o nome de Ford Prefect, porque pensava que era um nome bem comum e finge ser um ator desempregado. Até que um dia a raça Vogon surge nos céus anunciando que a Terra ia ser demolida para dar lugar uma via hiperespacial intergaláctica. Faltando segundos para o fim Ford pega uma carona clandestinamente na nave Vogon e salva seu amigo humano mais íntimo, Arthur. É um dos personagens que mais gosto da série por introduzir antes mesmo de irem ao espaço o quão alucinada seria a história.

Zaphod Beeblebrox é semiprimo (que tem três das mesmas mães) de Ford Prefect e presidente da Galáxia. Embora o cargo só sirva para desviar a atenção do povo de quem manda de verdade, sua vaidade quase não lhe permita perceber isso. Cheio de qualidades, quase todas ruins, é covarde, interesseiro e irresponsável. Não perde tempo pensando no que vai fazer, vai e faz, simplesmente. Rouba a mulher que Arthur estava quase ganhando em uma festa na Terra e a leva para o espaço. Tal mulher era Trillian. Não há muito a falar sobre ela, a não ser que ela é descrita como uma astrofísica brilhante, a mais inteligente das criaturas orgânicas e incrivelmente linda. Diferente de Arthur é ela é quase acostuma à rotina do espaço.

Marvin é o único robô entre os protagonistas e é a criação mais genial de Douglas Adams. Ele é um dos protótipos da Companhia Cibernética de Sirius projetados com a PHG, Personalidade Humana Genuína, e a prova de que robôs com sentimentos humanos pode não ser exatamente uma boa idéia. Marvin sofre de depressão, detesta e é detestado por todas as formas de vida por ter uma inteligência do tamanho do universo, 31 bilhões de vezes maior de que a de um humano e mesmo assim é obrigado a cumprir atividades idiotas como abrir portas ou servir de atraso para algum robô perigoso enquanto o resto do grupo foge.

 

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Mas também não poderia terminar este artigo sem falar do Guia do Mochileiro das Galáxias. Ele é tão recorrente na trama que chega a ser um personagem. O livro mais espetacular já publicado pelas editoras de Beta de Ursa Menor, mais popular que a Enciclopédia Galáctica, mais vendida que Mais Cinqüenta e Três Coisas para se fazer em Gravidade 0 e mais polêmico que a colossal trilogia filosófica de Oolonn Colluphid, Onde Deus Errou, Mais Alguns Erros de Deus e Quem é Esse Tal de Deus, Afinal?. Externamente parece uma calculadora e tem mais de 9 milhões de páginas em sua memória. Traz impresso em sua capa uma das frases mais conhecidas pelos nerds, em letras garrafais e amigáveis "NÃO ENTRE EM PÂNICO!" O Guia tem tudo o que um mochileiro precisa saber em suas excursões pelo espaço. Embora algumas das suas informações estejam erradas ele faz questão de afirmar que o que está errado está terrivelmente errado. "A realidade vive errando. O Guia é definitivo."

Douglas Adams não era como muitos escritores de ficção científica que vemos por aí, que parecem se cagar de medo com a tecnologia. Não só não a temia como era fascinado por ela. Achava que ela poderia combater todos os males do mundo. Mas também alertava que ela é responsável por guerras cada vez mais destrutivas. Ele chega a mostrar os problemas que enfrentaríamos caso as viagens no tempo se tornasse uma realidade. Queria saber o que ele escreveria sobre o atual mundo tecnológico se ainda estivesse vivo.

 

Sempre quando leio Adams não consigo conter certa inveja como escritor. O cara criou um estilo próprio e inconfundível e adquiriu uma liberdade criativa absurda. Ele chega a pedir, quase mandar aos leitores para que pulem logo para o último capítulo e ri de si mesmo, por não se preocupar em explicar tudo e revelando técnicas de narrativa.

Embora cada fã da série tenha um livro predileto da série ela, em essência, não muda significativamente. A estrutura da história é a mesma, um humor sarcástico e reviravoltas absurdas. O Guia é o único livro da série que não tem um desfecho. O Restaurante do Fim do Universo começa imediatamente onde o Guia terminou. E eu não achei só mais engraçado que o primeiro livro, ele também tem boas doses de suspense. Zaphod Beeblebrox ascende em importância e faz coisas por impulso, sem saber o porquê. O problema é que uma parte do cérebro está bloqueado, e essa parte lhe ordena a fazer essas coisas. Mas quem bloqueou uma parte de seu cérebro e por que motivo. O desfecho não poderia ser mais surpreendente.

A Vida, o Universo e Tudo o Mais tem um desfecho conclusivo, mas que poderia ser retomado no futuro, como de fato foi. Mas é aquele tipo de livro que poderia ter ficado por ali mesmo. Arthur Dent, após passar cinco anos isolado em uma caverna na Terra Pré-Histórica, precisa salvar o Universo da ameaça dos aliens do planeta Krikkit, uma raça de xenófobos que não resiste à idéia de haver algo além no universo que o planeta deles. Desta vez, Adams ironiza as guerras raciais, da maneira mais cruel possível. Também finalmente descobrimos qual a pergunta para a resposta da vida, do Universo e tudo o mais.

O meu livro favorito da série, embora detestado por alguns, é Até mais e obrigado pelos peixes! O único da série onde a história se passa mais tempo na Terra do que no espaço e personagens marcantes como Ford mal aparece e Zaphod e Trilliam são apenas citados. No primeiro livro, Adams conta que uma garota descobriu o que estava dando tão errado no planeta para que as pessoas não conseguissem ser felizes, mas a Terra foi demolida antes que ela pudesse contar para alguém. Fechava dizendo que a história não era sobre essa mulher. No quarto livro finalmente sabemos mais sobre ela. Fenchurch é uma das personagens que mais gosto, por se comportar como uma mulher comum, sem arroubos sentimentalistas e românticos que vemos por aí em outros livros. A presença dela introduz elementos inéditos na trama, como uma leve e cativante comédia romântica entre ela e Arthur. A conclusão do livro é definitiva, fechando o destino de Marvin e o resto dos personagens. Quer dizer... deveria ser definitivo, se Douglas Adams não caísse na tentação de escrever mais um livro.

O resultado disso foi o Praticamente Inofensiva, que alguns odeiam tanto que falam que é um livro à parte, sem a ligação com a série original. Em parte por causa do estilo. Parágrafos e capítulos cada vez maiores. Também por ser bem difícil de se situar durante a leitura. Aparecem duas Trillian durante a história e só um tempo depois você entende direito isso. Mas, principalmente, para a conclusão que Adams dá para os personagens, que pode causar uma decepção tão grande quanto o final de Lost em alguns. Não que o livro seja ruim, tem o mesmo humor que consagrou O Guia do Mochileiro das Galáxias um sucesso mundial. Porém, provavelmente nem todos conseguem aceitar um final tão definitivo e que abusa do humor negro como aquele. Eu disse “definitivo”? Esqueça. Como já disse lá em cima do texto houve uma continuação escrita por Eoin Colfer e autorizada pelo próprio Douglas Adams. Como nunca a li não tenho como falar sobre.

No fim, acabou que a obra de Douglas Adams acabou se tornando uma das maiores referências do gênero que ironiza, a ficção cientítica. Transpôs mídias, gerou seguidores e nos ensinou lições importantes, como a importância da toalha, a resposta para o sentido da vida, o Universo e tudo o mais e a nunca, NUNCA, entrar em pânico.

 

Curiosidades

O personagem principal do livro, Arthur Dent, teve seu nome inspirado em um escritor que em meados de  1600 publicou um livro chamado The Plain Man's Pathway to Heaven.

Já o sobrenome de Ford Prefect, o amigo alienígena de Arthur, veio de um carro popular da época em que o livro foi escrito (daí a escolha de Ford de um nome considerado por ele "comum"). Na versão francesa o tradutor, temendo que a piada não fosse entendida, mudou o sobrenome para "Escort", um carro mais conhecido.

No capítulo 7 do primeiro livro, Adams cita que o pior poema do universo foi criado por Paula Nancy Millstone Jennings. Na série original de rádio o nome citado era Paul Neil Milne Johnstone, mas Adams foi forçado a mudá-lo para o livro. Johnstone é uma pessoa real.


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