
“Ontem” (madrugada do dia 3 pro 4, não sei quando vou postar isso, então aviso logo) foi um dos momentos mais epicamente engraçadas que já presenciei no Twitter. Tudo começou lá pelas 2 da matina, quando algumas pessoas que sigo e moram no Nordeste começaram a reportar falta de energia. Fiz minha parte, retuitei o que apareceu e perguntei se moradores de mais estados nordestinos passavam pelo mesmo problema. Logo uma série de pessoas de lá começaram a tuitar sobre problemas parecidos, numa dinâmica de funcionamento bem característica do Twitter e inerente a todo ser humano: curiosidade e vontade de possuir e compartilhar informações.
O que era algumas cidades sem luz, se tornou um Apagão - nada tão raro aqui no Brasil. É aí que entra a parte engraçada. O conhecido Cardoso, autor de blogs como Contraditorium e editor do Meio Bit, achou que era uma boa hora de expor uma de suas idéias do momento (não tão do momento, ele vem com essa faz tempo): a Velha Mídia experimenta uma morte lenta sob a Ascenção das Redes Sociais, e followers se tornam mais importantes do que Jornalistas.
Para não parecer uma interpretação oportunista, única e exclusivamente minha, vou mostrar os tuits dele que apoiam o ponto de vista que mostrei:

![ScreenClip[1] ScreenClip[1]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjFzmT5NVFWnI_ekmVbVS83G5kMmjrc6bvghvlDEbfmSiu29fTgFxgoZCVkEnveGMLxI8CcfMmfzVFD7NtyrUJxpKDdRpW4pkZ-bhe5VXEfwHb_mT0yv1UX0wgm4d0-dyBGiuF0lhM-BklA/?imgmax=800)

Bom, se não tô viajando ou perdi completamente minhas capacidades interpretativas, ele quis dizer algumas coisas bem interessantes: 1) nós confirmamos com nossos contatos de Twitter - confirmamos, não compartilhamos - o que vemos em jornais e revistas (Velha Mídia, segundo ele). 2) Velocidade é mais importante que qualidade. Ao menos foi o que entendi quando disse “Chupa Velha Mídia, você leu primeiro aqui”. Se você leu primeiro no Twitter, logo o Twitter é superior a G1, Folha, Estadão e todos esses veículos de informação velhos. Em outro tuit que acabei não recuperando, ele linka a foto do Airbus que pousou no rio Hudson (foto que saiu primeiro no Twitter) como prova da supremacia do Twitter sobre a Velha Mídia. Ele disse algo como “Aqui nós vencemos”. 3) Informação de gente conhecida é superior a informação de gente que não se conhece. A palavra conhecido na Internet me parece dúbia o suficiente para evitar que Eu a comente. Mandar e receber reply de alguém não me torna conhecido dela, e vice-versa, por mais que Eu conheça casos específicos que me digam o contrário. Mas já explico isso. Também não vou comentar algo como autoridade (mesmo de uma pessoa desconhecida), pois o assunto parecerá filosófico demais.
Antes de prosseguir, devo deixar bem claro que não execro o Carlos Cardoso. O acho um bom escritor de tecnologia, que consegue misturar muito bem uma série de assuntos nem sempre tão fáceis de casar com a clássica cobertura tecnológica. E possui um certo bom humor, coisa cada vez mais rara atualmente. O problema é a arrogância dele conseguir ser maior que o talento. A babaquice que muitos dos detratores dele apontam vem justamente daí: querer e se achar melhor que todos, ainda dizendo coisas como “gênios não são modestos e blábláblá”. Acho que ele também peca pela coerência. Dá a entender que a internet é superior ao modelo tradicional de informação (papel)… e se gaba pra todo o mundo ouvir que escreveu 11 livros (apostilas de informática de mais de 10 anos atrás, como ESSA). Também execra a Velha Mídia ante o modelo colaborativo… e diz que seus textos são fodas porque RECEBE por eles. Bom, a vida é dele, ele faça com ela o que quiser, só quis esclarecer o que penso sobre ele, e porquê mesmo o achando um escritor talentoso (bem menos do que ele acha que é), faço brincadeiras sobre ele no Twitter.
Depois do Cardoso estufar o peito e aproveitar o momento para tentar sedimentar sua idéia de Velha Mídia Já Era, tudo graças a velocidade em tempo real das Redes Sociais, chegou a Tropa do Humor e mandou tudo pro espaço. Tinha tempo que não rio tanto, ri da barriga doer. Não vou colocar todos os tuits engraçados aqui se não ia encher esse post só com prints, mas vamos aos quatro mais engraçados da versão Bizarra do Cardoso: o Tonkiel.




É óbvio que o Tonkiel refinadamente exagerou as palavras do Cardoso - isso é humor, no fim das contas -, mas creio que quando se vai metaforizar uma situação, esse tipo de desconstrução do discurso alheio é muito mais eficiente. O fato de Eu achar mais válidas as brincadeiras deles às chatices pretensiosas do Cardoso diz muito do que penso a respeito das Redes Sociais (Twitter, em especial, a única que uso). Se essas ironias do Tonkiel surgissem em um noticiário, Eu as acharia completamente sem sentido, devido ao fato de fugirem do objetivo do jornalismo. Redes Sociais, para mim, servem para comunicação, especialmente diversão. Se por um acaso ela servir a propósitos jornalísticos, será simplesmente lucro.
O problema maior da questão é: o que é jornalismo? A pergunta tem sido colocada em xeque continuamente com a popularização da internet e dos meios de comunicação, cada vez mais baratos. Na verdade, a questão é um pouco mais antiga, só se tornou mais ampla agora. Uma boa definição pra Jornalismo é: “a atividade profissional que consiste em noticiar dados factuais e divulgar informações sob a forma de som, texto ou imagem”. Em suma, se tá repassando coletando e repassando informação profissionalmente, é Jornalismo clássico, velho… não importa se trabalha no Estadão, na Prefeitura de Pato Branco ou no Meio Bit. Um veículo ser pequeno, ou possuir estrutura diferente de um jornal impresso, não o torna menos jornalístico.
Usando o Estatuto do Jornalista de Portugal como exemplo, podemos entender melhor a questão. Para a lei portuguesa, jornalistas são “aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, seleção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio eletrônico de difusão”.
Dessa forma, ser jornalista está desvinculado de um diploma - como demonstrei na minha crítica mal-interpretada a obrigatoriedade dele - e está ligado a uma atividade. A atividade, a meu ver, também está desvinculada de veículo, mas o jornalista precisa ter exercido sua atividade em um veículo reconhecido e habilitado para pegar seu registro. A definição é meio dúbia, principalmente no Brasil, mas creio ter esclarecido o bastante - deixando claro que meu ponto de vista não é um consenso unânime.
No princípio somente os jornais impressos existiam, lá estava o Jornalismo. Devemos lembrar que o papel é uma invenção extremamente velha, e a base da comunicação do conhecimento humano. O rádio ameaçou os jornais impressos, eles são muitíssimo mais rápidos, têm som, e ainda permitem a colaboração dos ouvintes. O papel, velho, com um delay enorme, precisando de distribuição cara… sobreviveu ao Rádio e continuou sua jornada. Depois veio a TV: imagem, som, participação ao vivo de telespectadores. Fim dos jornais? Não, eles ainda estão lá.
A Internet amplificou essa questão, ao desvincula-la de fatores simples como veículo A ou B, e passar para o campo quem faz jornalismo. Com a tal Web 2.0 (web colaborativa, social, qualquer rótulo desse gênero aí), qualquer um poderia escrever uma notícia em um blog particular e qualquer pessoa do mundo poderia ler. Ou seja: Qualquer pessoa com acesso a internet tem um potencial veículo jornalístico mundial. Junte algumas pessoas que moram em países diferentes e você tem um novo New York Times!
Cacete, bingo… fim do velho jornalismo!!!
Pra que redações caríssimas, pra que publicidade, pra que jornais que demoram ao menos 24 horas pra noticiar alguma coisa, pra que TV via satélite??? Com o Twitter (sistemas de blogs como o Blogger e Wordpress versão grátis também são rede sociais, embora um pouco menos dinâmicas que o Twitter) isso se amplificou. Em 10 segundos Eu posso reportar que acabou a luz no meu bairro, que tá rolando arrastão na praia, que o prédio da prefeitura tá pegando fogo… antes da central de jornalismo mais próxima sequer imaginar que algo aconteceu. E foi exatamente isso que vimos no Apagão do Nordeste, as pessoas com o Twitter conseguiram mais ou menos entender onde estava faltando luz… e aí está o problema: a coisa não passou disso.
Agora entrando numa análise estritamente pessoal - compartilhada com diversas pessoas mundo afora - o jornalismo colaborativo (esse feito por pessoas não comprometidas profissionalmente com o levantamento de informações) possui um limite claro de até onde ele pode ir por uma série de motivos. Saber onde faltou luz é uma informação importante? É, bastante, mas esse é somente um ângulo da informação - o primeiro, na verdade. Por que faltou luz? O que as autoridades têm a dizer sobre isso? Quantas pessoas foram afetadas? O prejuízo foi de quanto? O que as empresas responsáveis estão fazendo para reverter a situação? Esse tipo de contextualização um punhado de followers não pode fazer, lamento - se fizeram, foi de forma limitada e uma quantidade de vezes que considero insatisfatória, a não ser que mostrem que estou errado. Por mais que Eu não goste da forma como certos veículos de comunicação (especialmente os maiores, com grande comprometimento econômico com diversos setores da sociedade) exercem seu dever de nos informar, ainda acho o trabalho deles fundamental, ainda que alguns queiram empurrar goela abaixo que as redes sociais são uma espécie de Novo Jornalismo. Se a Globo, Folha e Estadão têm uma forte carga ideológica, esse tipo de abordagem pouco se mistura a cobertura factual deles.
Quem diz Chupa Velha Mídia, vocês viram primeiro aqui, é o tipo de gente que enxerga o jornalismo unicamente como uma corrida em busca da “última novidade”, corrida que se tornou mais predatória com o advento da internet. Na sanha por “furar” a concorrência, jornais meia boca colocam no ar informações mal checadas e furadas. Escrever um texto jornalístico está se tornando tão banal quanto tuitar, e é justamente esse tipo de comparação tosca, essa suposta necessidade contínua de informações em tempo real que destrói o Jornalismo. O Jornalismo em tempo nenhum compete com redes sociais, ele serve para investigar se o que está lá de relevante é de fato verdade.
E outra: Jornalismo deve ser público. Deve transmitir informações de fontes com um mínimo de credibilidade pública para um público que deseja aquelas informações. Se Eu confio nos meus followers, ainda bem… para mim. O meu vizinho provavelmente não vai acreditar neles e com razão, esse préstimo de credibilidade deriva do conhecimento que tenho dele, não de algum fator de autoridade, como se denomina no Jornalismo.

Escritório do TechCrunch
Lá por meados da década passada, se propalou - de forma um pouco apressada - que os blogs tornaram os jornais coisa do passado. Hoje, uns cinco anos depois, se pode perceber uma situação um pouco diferente. Pode-se dizer que os blogs trouxeram inúmeras transformações na forma de se fazer Jornalismo, inclusive na semântica geral da elaboração das notícias e na inclusão de comentários nos sites dos jornais… e foi isso. Os blogs que alcançaram status de grandes veículos de comunicação - como o Gizmodo, Engadget, TechCrunch, TMZ, Mashable - estruturalmente… SÃO veículos de comunicação. Têm repórteres, publicidade farta e uma grande empresa por trás (AOL, Gawker Media… se quiser confirmar, olhe o tamanho da equipe do Engadget, por exemplo). Uma das exceções aparentes é o Boing Boing, que apesar de possuir características análogas às descritas acima, ainda mantém o espírito de zine/blog que tinha desde os primórdios. Como grande diferença entre blogs e jornais, constam uma ênfase maior no estilo do texto a na opinião, algo já bastante presente nas revistas.
Do mesmo modo que o jornalismo absorveu característica dos blogs - e das redes sociais como um todo - os blogs fizeram o mesmo, e absorveram várias características do Velho Jornalismo. Se alguém (incluindo o Cardoso) acha que Jornalismo é unicamente correr atrás da notícia e entrar num joguinho de quem publica primeiro, então a Velha Mídia está realmente morta e Jornalista não precisa de preparação. Mas para mim, essa avalanche de informações em tempo real (que sabe-se lá se são reais) mostram cada vez mais o quanto o jornalismo sério é necessário.
Pegue como exemplo o caso Wikileaks. Você leu quantos documentos lá do site? Salvo raros casos, nenhum, mas mesmo assim sabe o que contém as levas de documentos que o site liberou. São centenas, que exigiram dezenas de jornalistas analisando uma montanha de dados incrivelmente vasta. Creio ser bastante difícil para qualquer pessoa fora de uma organização de informações profissional empreender tamanha tarefa… e fazer isso semanalmente, porque o mundo não é só Wikileaks. Também não sei como “followers” de confiança poderiam fazer a cobertura de conflitos ou massacres como Sabra e Chatila, ou em Ruanda - rotina de jornalistas tarimbados como Robert Fisk.
Outra coisa que diz muito sobre uma situação atual: a estratégia dos governos classificados como autoritários com relação a Redes Sociais começa a mudar… pra pior. Até o momento, esses governos se empenhavam decididamente em bloquear a internet. Ferramentas para burlar isso são várias, além de criar um ambiente de fácil distinção: quem bloqueia é vilão, que burla é herói. O oba-oba de veículos de comunicação modernosos - inclusive alguns que gosto, como a revista Wired - em cima do engajamento internético termina por ignorar um lado pouco focado.

Protestos no Irã
Vários governos, como o chinês, paga (ou ameaça, por que não?) inúmeros blogueiros para falarem bem do governo e inundar a rede com informação falsa - tipo o 50 Cent Party. Como forma de propaganda fica melhor, já que o governo não fica “mal na fita” na comunidade internacional, ao contrário da tática de bloqueio. No Twitter a coisa ia mais longe: em 2009, o governo iraniano, por exemplo, usou o seviço microblogging para espalhar boatos e colocar os manifestantes em pânico durante os protestos que varreram o país. Enquanto o mundo (como mundo, leia-se: mídia ocidental) incensava o papel do Twitter como uma fonte de confiança, os próprios manifestantes o passaram a execrar devido ao fato de ser aberto e dúbio, além de estar lotado de boatos plantados pela autoridades do país.
Na outra ponta da repressão, está o governo que usa blogs e perfis do Twitter para monitorar a população. O serviço secreto sírio usou o histórico de Curtir de usuários do Facebook para filtrar os que tinham mais probabilidade de estarem organizando os protestos que ocorreram no país. Ahmadi Maghaddam, chefe da polícia iraniana, disse ano passado que “as novas tecnologias permitem identificar conspiradores sem a necessidade de controlar individualmente cada pessoa”. Manifestantes egípcios envolvidos nos protestos pela renúncia de Hosni Mubarak elaboraram folhetos em que desaconselhavam o uso de Twitter e Facebook (opa, redes sociais) pelos ativistas, pois elas estavam sendo monitoradas por autoridades do país. A conclusão me parece clara: redes sociais, em situações extremas, expõem os que a utilizam, e mais atrapalham do que ajudam.
Em seu excelente artigo “A Revolução não será tuitada”, Malcolm Gladwell discorre sobre a estrutura dos levantes antes e pós-Redes Sociais. Nos principais movimentos sociais - ou mesmo grupos terroristas - existe um forte vínculo de amizade entre seus membros. Mais de 90% dos que participavam de movimentos sociais americanos nos anos 1960 tinham amigos bastante próximos lá dentro. O mesmo pode ser dito, com índices bastante similares, de organizações como as Brigadas Vermelhas e os mujahedeen. Os que lutaram contra a repressão na Alemanha Oriental estavam na mesma situação. Esses vínculos são parte do segredo da eficiência dessas organizações - para o bem e para o mal. A probabilidade de você dedurar um amigo - amigo de verdade, não amigo de reply - é muitíssimo menor. Assim como é muitíssimo mais difícil uma organização fechada, centralizada - seja de informações, seja de ativistas - ser infiltrada. Vínculos de followers são vínculos fracos, e uma corrente é tão forte quanto o elo mais fraco dela. O mesmo não pode ser dito de organizações “abertas” (ou sociais).
Em sua coluna no site de tecnologia da Globo, o TechTudo, o Cardoso resolveu aprofundar um pouco mais seu pensamento com relação ao assunto, no texto “Você tem em seu bolso uma máquina que mata fascistas”. Um texto bem escrito, embora ele tenha tirado o pé do acelerador na hora de falar de morte de Velha Mídia, afinal, tava escrevendo num veículo dela. Em certo momento ele cita o fato que as maiores organizações de imprensa do mundo possuem seções com conteúdo colaborativo, a exemplo do iReport, da CNN. “A busca pela informação exclusiva ironicamente passa pela colaboração”, fala ele, corretamente.
No entanto, ele “esquece” de dizer que essa via possui duas mãos. No próprio iReport - provavelmente o caso de maior sucesso do jornalismo 2.0 - um caso bastante singular mostrou a fraqueza do “jornalismo” praticado e forma colaborativa: um usuário recente postou no site que Steve Jobs havia sofrido um ataque cardíaco, notícia que ficou 20 minutos no ar antes de ser taxada como falsa. Como era um período cercado de notícias e boatos relativos a saúde dele, a notícia se espalhou… e as ações da Apple caíram 5,4% naquela manhã. Sem essa busca incessante e idiota pela informação em tempo real, provavelmente checariam a informação antes de passa-la pra frente. A atenção que deram a essa mentira, a meu ver, é só mais uma mostra do efeito danoso das redes sociais, das timelines, do tempo real, sobre o jornalismo.
Outro caso foi aqui mesmo no Brasil. Durante a tragédia com o vôo da TAM no Aeroporto de Congonhas, um internauta mandou pra seção de jornalismo colaborativo da UOL uma foto de uma pessoa se jogando de cima de um hangar em chamas. Que lindo, alguém conseguiu uma imagem que os jornalistas não capturaram! Mas a imagem era falsa, uma montagem tosca, e a repercussão disso não foi nada positiva. No fim das contas, a culpa foi do jornalista apressado que passou a foto a frente, mas o caso expôs uma faceta da era 2.0: tem muita mentira na internet.
E o caso de sucesso do iReport fala por si só: ele é um reforço do modelo tradicional de jornalismo, já que possui um grande órgão de imprensa por trás, para gerir tudo. Ainda não existe uma Wikipedia do jornalismo colaborativo para ser considerado um sucesso ímpar na rede, e não é por falta de tentativa. Quer ver? No final de março de 2008, o site inglês de jornalismo colaborativo ScribbleSheet fechou. O site era financiado com o próprio dinheiro dos fundadores. Em outubro de 2009 é a vez do espanhol Soitu.es encerrar as atividades. O grupo de investidores BBVA, que financiava o projeto, desistiu de continuar a parceria. E como eles, existem outros que minha pesquisa não mostrou. Talvez o mais próximo que conheço de um site internacional de mídia cidadã recheado de excelência seja o Global Voices, que não conheço em profundidade para comentar mais.
Incensar redes sociais e smartphones dizendo “meu deus, você tem em mãos uma arma pra se rebelar” e ignorar esse lado B da tecnologia é ser ignorante.

A internet é só um ambiente, uma ferramenta, que pode (e é) ser usada pelos dois lados. Dizer que “Todos somos Codinome V, ninguém precisa ser torturado para dizer que as informações estão na Internet. Todos são importantes, ninguém é vital para a Rebelião” (como disse o Cardoso no texto citado) é uma falácia tremenda, ao colocar no poder de comunicação o principal fator de uma revolução, e não em capacidade de planejamento e de traçar estratégias. Dizer que é possível resolver com tecnologia um problema Cultural, me parece uma forma rasa de se ver o mundo; acesso a internet (ou possuir um smartphone) não torna ninguém ativista ou politizado. Se nem no período maniqueísta da Guerra Fria era assim - as pessoas do bloco comunista que conseguiam assistir TV americana, viam principalmente séries como Miami Vice, por exemplo - imagina num período marcado por uma avalanche de informações fúteis e de cunho consumista.
Ciberativismo puro e simples, sem contraparte fora do ambiente virtual - especialmente os que mobilizam muita gente - têm a tendência a terminar como o conhecido caso do #forasarney: em nada. Os fracos vínculos sociais e o pouco comprometimento dos que estão em voga nessas redes reforçam isso - falo por experiência própria, também. Geralmente se pensa em substituir as coisas: um RT, ou um curtir do Facebook é tão importante quanto sair a rua - da mesma forma que aceitar a informação de um follower seu, que você provavelmente nem sabe quem é, é tão importante quanto comprovar com os próprios olhos. O resultado disso são movimentos gigantes, mas com pouco comprometimento, pouco vínculo e coesão.
Uma organização jornalística funcionando nesses moldes - na horizontal, sem editores, sem apuração, sem líderes - tende a ter o mesmo fim: simplesmente evaporar. E mesmo se possuir todas as características que Eu citei, ainda vai precisar de dinheiro, como mostrou o caso do Soitu.es. Se caso possuir o dinheiro, aí amigo, temos uma organização jornalística clássica, com profissionais, e tudo voltou a normalidade.
Claro que com isso não quis dizer que Redes Sociais não têm o seu valor dentro de rebeliões ou mesmo no Jornalismo, só quis mostrar elas devem ser encaradas com reservas, pois possuem dois lados. Do mesmo modo que podem servir para mobilizar uma grande quantidade de gente, ou dar informações exclusivas… deve-se saber que os vínculos entre essas pessoas que mobilizei são fracos, bem como o fato que muita gente vai usar o Twitter para disseminar boatos e mentiras. Em um ambiente extremo, minha informação verdadeira pode ser só uma gota num mar de factóides.
O que quero dizer com toda essa argumentação é que modelos colaborativos não substituem o modelo jornalístico tradicional, apenas se soma a ele. É bastante difícil supor que de posse dessa ferramenta, as pessoas fariam somente bom uso dela, como nos mostra contrariamente o caso do falso ataque cardíaco de Steve Jobs. Para controlar como será esse uso, seria necessário uma estrutura profissional (que até a Wikipedia possui) que editasse e verificasse isso.
Por mais anarquista que me considere, reconheço que para Ativismo e Jornalismo são necessários líderes e uma certa dose de disciplina, engajamento; e não uma estrutura solta e frouxa como tende a ser algo calcado em “Redes Sociais”. Isso evita que a organização seja infiltrada. As grandes rebeliões são feitas assim, da mesma forma que as grandes reportagens. Deixe que os ativistas derrubem governos e leis, os jornalistas cubram guerras, massacres e falcatruas presidenciais… enquanto isso, os followers falam onde não tem luz!
[Com informações de Tiago Doria]