Por Felipe Camargo*
Tempo. Dinheiro. Nós e eles. Podiam ser títulos de qualquer música composta nos dias atuais, mas são faixas do álbum conceitual Dark Side of the Moon, da banda inglesa Pink Floyd. Por conceitual entende-se um tema único para todas as músicas, além de não haver uma pausa entre as mesmas, como se o disco todo fosse composto de apenas uma faixa. No atual CD, é possível ouvi-lo em uma tacada só. Na época que foi lançado, 1973, o disco de vinil obrigava uma divisão da obra em duas partes, ainda que ligadas entre si.
Dark Side antecipou muitas tendências do mundo da música: foi o primeiro a incorporar elementos eletrônicos em canções de blues e rock - o que hoje é praxe, vide o crescimento da importância de um DJ nas produções musicais de diversos estilos, desde a MPB até o britpop. Os efeitos sonoros eram produzidos de forma mecânica, e muitas vezes não tinham relação com o som que produziam (como no caso da introdução de Money, em que foram usados diversos objetos, menos caixas registradoras). Também foi pioneiro na capa do disco, um dos primeiros de uma banda de rock sem a presença de seus integrantes – hoje, é mais comum este tipo de arte nos álbuns. Na época, membros da gravadora consideraram a capa um fracasso.
A sonoridade também é destoante da produção musical da época: solos de saxofone, como os presentes em Money e Us and Then, dão um clima mais ameno ao álbum. Falando em solo, o de guitarra em Time é um dos mais memoráveis da história do rock: uma melodia simples, triste e bonita, que contrastava com os virtuoses da época e faz oposição às microfonias dos grupos atuais. As vozes parecidas de David Gilmour e Richard Wright, guitarrista e tecladista, respectivamente, muitas vezes cantadas junto, dão a impressão de serem a mesma, nas primeiras faixas. Já nas últimas, somente Roger Waters, o baixista que escreveu todas as letras do disco, solta a voz, criando uma evolução sonora que dificilmente será ouvida em qualquer outro disco.
Outro ponto especial dos aspectos sonoros é a alternância entre músicas cantadas e instrumentais. Os espaços “em branco” também são valorizados no disco. O Pink Floyd não cedeu à ansiedade de preencher todas as lacunas, dando ao ouvinte um momento de descanso e reflexão sobre o que ouviu e o que há por vir.
Em entrevistas sobre o álbum, Waters revelou que preza por estes espaços nas suas produções. Um exemplo no álbum é a faixa The Great Gig in the Sky, instrumental e com uma improvisação vocal feminina que ficou marcada pela melodia e sentimento contidos na música.
As pressões da vida moderna são o tema principal das letras. Logo pelos títulos de algumas músicas, citadas no início desta crítica, já é possível ter uma noção disso. Falar sobre dinheiro, tempo (ou a falta dele), individualismo, danos cerebrais (que podem ser desde crises depressivas até alienação) é ser atual tanto nos anos 70 quanto nos atuais. E o famoso humor inglês, ácido e sem papas está presente tanto em Time (Hanging on in quiet desperation/Is the English way, ou Insistindo num desespero quieto/ É a maneira inglesa de ser - em uma tradução literal), Brain Damage (The lunatics are in my hall/The paper holds their folded faces to the floor ou Os lunáticos estão no meu corredor/ O jornal prende seus rostos dobrados no chão) e Money (Money, get away/Get a good job/With more pay and you're O. K. ou Dinheiro, vá embora/Arrume um bom emprego/Com um salário melhor você fica bem).
Todos esses elementos remetem a Syd Barret, um dos membros fundadores da banda, que teve um surto psicológico e teve que sair do grupo, dando lugar a David Gilmour. O acontecimento teve um impacto muito grande nos músicos, e é possível perceber citações a esta crise em todos os álbuns.
Dark Side of the Moon é um dos álbuns mais vendidos da história. A qualidade das músicas, teorias em torno da produção (há uma que diz que o disco foi feito em sincronia com o filme O Mágico de Oz) e as conseqüências dele para o mundo da música (dizem que o movimento punk ganhou força em contraponto à excessiva técnica do disco) corroboram isto. I 'll see you on the dark side of the moon.
Faixas:
1. "Speak to Me/Breathe" (Nick Mason, David Gilmour, Roger Waters, Rick Wright) - 3:59
2. "On the Run" (Gilmour, Waters) - 3:35
3. "Time/Breathe (Reprise)" (Gilmour, Waters, Wright, Mason) - 7:04
4. "The Great Gig in the Sky" (Wright, Torry) - 4:48 (originalmente somente por Wright. Cedida parte da autoria a Clare Torry depois da mesma ter exigido parte dos direitos de autor por ter improvisado por cima do famoso instrumental)
5. "Money" (Waters) - 6:24
6. "Us and Them" (Wright, Waters) - 7:49
7. "Any Colour You Like" (Gilmour, Wright, Mason) - 3:26
8. "Brain Damage" (Waters) - 3:50
9. "Eclipse" (Waters) - 2:04
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*O Felipe Camargo escreveu sobre Gundam 00 pra gente, há quatro meses.