segunda-feira, 8 de março de 2010

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Quadrinhos na Infância ou Infância nos Quadrinhos?

Por Barbara Miotto*

 

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Que? She-Nerds? Eu, fazer parte? #comassim???

Bom, segundo me consta, fui “eleita por votação e sem prévia consulta” para fazer parte desta que é a casta da internet e que une o charme, o bom gosto e a inteligência femininas. É claro que minha reação, após a surpresa inicial, foi a lisonja! Mas com ela também veio a dúvida: o que poderei acrescentar ao grupo das gurias e ao blog? E a dúvida só piorou quando eu soube do tema da invasão da vez: “a visão feminina nas HQs”! Sim, porque, das nerdices em geral, um dos assuntos que menos domino é justamente HQ... Meu contato com esse mundo vem se intensificando agora (alô, independência financeira! E abençoados sejam Neil Gaiman e Alan Moore!), porém, até então, eu pouco conhecia dessa fantástica arte.

E agora, de onde buscaria inspiração para falar sobre Quadrinhos? Eis que surgiu o conselho: “é só pensar o que ‘quadrinhos’ remete a cada uma de vocês...”. E então, fez-se a luz: Maurício de Sousa! Bingo! É clichê? Pode ser, mas foi só dar um search nas minhas memórias para lembrar que foi esse senhor simpático que me iniciou no universo da literatura e me fez pegar gosto pela coisa! Na ânsia gerada pelas HQs adultas, esqueci-me do autor que habitava o âmago da minha existência. Assim sendo, nada mais justo do que falar um pouco sobre sua criação e fazer minha estréia no NSN com um post muito pessoal, recheado de recordações, bem ao estilo sentimental-saudosista. Não esperem, portanto, uma reflexão profunda ou uma pesquisa ampla do tema; meu único objetivo hoje é prestar uma justa homenagem a essa importante personalidade e tentar conquistar a empatia dos nossos nobres leitores.

Maurício de Sousa, esse jovem senhor de – boquiabram-se – 74 anos, filho de poetas, teve sua primeira série de tiras em quadrinhos aceita por um jornal em 1959. Uma historinha marota entre um rapazote de franjas e seu cachorrinho azul que – veja você! – acaba de completar 50 aninhos de vida (coincidentemente, nada mais propício para uma homenagem, não? ;D). Foi em 1970 que as primeiras revistinhas da Mônica chegaram às bancas e, desde então, a criatividade do autor e da equipe só fez crescer e a “tchurminha” conta hoje com dezenas de personagens.

Não tenho lembranças anteriores aos cinco anos de idade (acho difícil que alguém verdadeiramente as tenha), porém, até onde minha memória alcança, os gibis d’A Turma da Mônica sempre estiveram presentes em minha vida. Não sei como tudo começou, só sei que minha mãe possuía a assinatura dos gibis e os recebíamos em casa, mensalmente. Meus irmãos e eu ficávamos de olho no calendário, numa expectativa sem tamanho e, no dia em que o pacote cinza contendo as cinco revistinhas chegava, era uma festa!

Pode-se dizer que eu, como muitas crianças da minha época (anos 80 feelings), fui alfabetizada com esses singelos gibis da turminha. De tanto fazer meus pais lerem a mesma história, eu decorava as falas e depois, sozinha, já conseguia relacioná-las às palavras escritas. Ok, admito que no começo soava como fraude, uma vez que, toda cheia de pompa, eu fingia que lia para minhas tias enquanto na verdade apenas reencenava as falas decoradas... mas com o passar do tempo, o aprendizado foi inevitável.

Eu era a pequena nerdzinha que levava uma mala recheada de gibis e Almanacões de Férias da Turminha para a praia e ficava lendo historinhas ao invés de me divertir no mar. Eu era a criança que acendia uma vela para poder ler quando faltava luz e que não dormia sem antes ouvir um pouco mais sobre um plano infalível qualquer. Sim, eu já fui apaixonada platonicamente pelo Cebolinha e, já um pouco mais velha (pré-aborrecência, oi), pelo Do Contra e sua rebeldia transgressiva. Sim, eu já escrevi uma carta (cheiro de naftalina no ar...) para o Maurício de Sousa, confessando meu amor pela turminha e sugerindo algum tema ou personagem novo. E sim, eu já escrevi minhas próprias historinhas da Turma da Mônica, com traços toscos e roteiro de dar inveja a Transformers 2!

Além da turminha clássica, outros personagens faziam a minha diversão, como o Chico Bento e suas trapalhadas interioranas, o filosófico Horácio e seus bracinhos curtos, a turma do Penadinho e seus visitantes ilustres (como no recente À Espera de um Astro, com a participação de ninguém menos do que Michael Jackson), o eterno solteirão Piteco (que fugia da perseguição da Thuga como o diabo foge da cruz!), a turma do Papa-Capim e seus conceitos ecológicos, os animaizinhos antropomorfizados da Turma da Mata, a turma adolescente da Tina e do Rolo () e as histórias do Astronauta. Monica, Jimmy Five, Smudge e Maggy (respectivamente, Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, em seus nicks estadunidenses) também contam com fama internacional, sendo conhecidos e apreciados nos EUA, Itália, Indonésia, Espanha, China e muitos outros países.

A Turma da Mônica também teve suas fases de animação, as quais, confesso, não me chamavam tanta atenção quanto os gibis... Provavelmente porque o filme não evocava aquelas sensações comuns para mim: não havia a ansiedade da espera pelo correio, a divertida disputa com os irmãos para ver quem se apropriaria das histórias primeiro, nem a clássica cena de cada um de nós acomodado em um sofá, lendo em silêncio. E não havia a minha mãe, peça-chave em todas as minhas memórias como leitora, me ajudando a ler.

Recentemente, Maurício de Sousa se reinventou mais uma vez, lançando a Turma da Mônica Jovem, ajudando a suprir a curiosidade de muitos fãs antigos (eu inclusa) sobre como seria o futuro do quarteto. Minha opinião? Bom, me falta material de pesquisa para tecer um comentário mais concreto, visto que até agora só tive acesso a uma revistinha, estrategicamente furtada de minha sobrinha de oito anos. Mas o que posso dizer é que todos os personagens estão lá e, apesar de um pouco descaracterizados (é um Cascão que toma banho de vez em quando, uma Magali que não come em excesso, um Cebolinha que não fala mais elado, uma Mônica que deixou de ser baixinha e gordinha...) continuam os mesmos, em essência. Apesar de ter bastante #mimimi típico de adolescente ([narrador de sessão da tarde] é a turminha em clima de azaração, aprontando altas confusões! [/narrador de sessão da tarde]), os temas continuam interessantes, os personagens, carismáticos, e as histórias, divertidas. Enfim, eu gostei do que li, embora talvez minha concepção crítica tenha sido amaciada pelo fator explosão de cabeça logo na abertura da história: uma clara referência a Star Trek, o que me conquistou de imediato!

Infelizmente, o tempo passa, as pessoas crescem, assinaturas são canceladas, o ócio vai findando e eu acabei me desapegando desses gibis. Hoje, admito, uma lástima quase irreparável, visto que acabei por perder edições especiais clássicas e muito bem sacadas, como Lostinho (uma paródia da consagrada série Lost) e Coelhada nas Estrelas (precisa explicação?). Sim, muito me agrada ver que o Sr. Mauricio de Sousa também tem um pezinho no nosso mundo nerd! E o melhor, que está sempre aberto e disposto a inovar, fugindo da mesmice que tantos anos vivendo em um mesmo Bairro do Limoeiro, com os mesmos vizinhos da rua de cima, poderiam ter acabado por provocar.

Dizem que quando começamos a usar muito a expressão “No meu tempo...” é porque já não conseguimos mais disfarçar a idade... Só sei que, no meu tempo, quem fazia a diversão de nossas tardes, chuvosas ou não, e ajudava a folmar nosso caláter era justamente essa turminha que tinha muito em comum conosco e com nossas peripécias cotidianas. Esses quadrinhos da nossa infância também eram um pouco da nossa infância nos quadrinhos.

Obrigada, Maurício.

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A @BarbsM sempre gostou de ler, mas só agora despertou para o fantástico mundo das HQs adultas. Nunca viu a menor graça no Superman, mas tem uma queda confessa pelo Comediante.

14 Comentaram...

Lagarta disse...

Adorei!
Isso me fez lembrar que também tinha assinatura da Turma da Mônica e aprendi com o Cebolinha a ler gibi escondido dentro do livro. Eu fazia isso...ahahah
É, a idade chega pra todo mundo =/

Paulo Roberto (Ghost) disse...

Realmente, sempre adorei ler turma da mônica. Como o tempo passa (momento nostalgia), acho que estou ficando velho... :(

Leti Roese disse...

Carácolis, Sr. @mauriciodesousa precisa ler isso. Demais! Lembrei de várias coisas da minha infância...adorei BarbRa, ADOREI ;D

Neko disse...

Cara, eu também só virei a nerd q sou graças aos quadrinhos de maurício de souza. Foram eles que me incentivaram a ler e perpetuar esse hábito.

Fora q os almanacões eram demais XD

mauricio de sousa disse...

adorei o tom da sua "fala", bárbara.
cavada do fundinho do coração.
emocionante. principalmente pra mim.
obrigado.

DuqueW disse...

Essa foi a Barbs, direto do túnel do tempo...

cord_santos disse...

Amei o post. Me bateu uma saudade dos gibis, infelizmente o tempo passa pra todos e como foi dito o ócio finda. Mas o Mauricio marcou a vida da gente com essa turminha. E estou curtindo muito as colaboradoras do She-Nerds.

Laura Buu disse...

Parabéns pela matéria de estreia, Barbara. Gostei bastante do seu estilo de escrita :-)

Daniel Lima DF disse...

Nossa! Tenho que parabenizá-la pelo excelente texto, há tempos que não vejo algo tão bem escrito na internet. Achei muito interessante a forma como combinou elementos contemporâneos com uma linguagem recatada, digna de pessoas que exercitam muito bem a leitura. Este será, para mim, um atrativo a mais em seus futuros textos.

Deixando um pouco minha chatice linguística de lado devo ressaltar também que o tema está muito bem apresentado, me agradou bastante, principalmente a parte em que você demonstra talentos superiores aos roteiristas de Transformers 2.

Parabéns pela nova empreitada no NSN. Com este espírito de criança que está sempre vivo em nós Nerds, tenho certeza que você fará grandes artigos com conteúdos essencialmente Nerd.

Nana Noleto disse...

Lembro-me de uma clássica historinha com a turma do penadinho chamada "Y-files" com a agente "Te escolhi" Foi por isso que eu comecei a assistir X-files ainda criança. lol

Jamy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jamy disse...
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Jamy disse...
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Jamy disse...

Tenho um "vício" desde criança: fechar os olhos e cheirar com todo prazer, as páginas das revistas que leio. Me faz viajar no tempo...
Esse post que acabo de ler me fez sentir algo parecido.
Neste momento Volto a ser uma criança... Um menino. Um menino que nao era bonito... que nao tinha muitos amigos...que nao chamava a atençao das meninas na escola...que sofria com as agrssoes de minha mae e a ausência de meu pai ...que vivia trancado no quarto desenhando e lendo uma caixa de HQs para fugir da realidade. Naquela época eu criei meu mundo. Era meu refúgio...

(escrevo com lágrimas nos olhos).

Por conta desse "isolamento social" eu Cresci, me desenvolvi e me tornei adulto acompanhando todas as grandes fases da DC e da Marvel.
Mas Eu tb amava a Turma da Mônica! ah, e como amava!

Havia uma ediçao especial da Turminha que eu considerava minha joia rara: "Maurício 30 anos - Tudo sobre a Turma da Mônica". Quando eu li esta revista, Lembro que eu fiquei impressionado com o visual da Mônica nos anos 70. Tive uma sensaçao estranha...era como se eu estivesse entrando em contato a Mônica de outro universo, de outra realidade!Eu nao confiava nequela Mônica... achava ela muito estranha (meio mórbida) e o lugar onde ela vivia deprimente.
(Hoje eu sei que senti aquilo pq as cores que usavam nos anos 70 nao eram tao vivas...diferentemente das que usavam no anos 90, com as quais eu estava acostumado).
Lmebro Que passei o dia pensando como era a vida dela naquele "outro mundo".
Era como um episódio de Além da Imaginaçao!
Que loucura nao? Mas era assim mesmo que eu pensava!(risos!!!).

Que saudade!
Que saudade!

Quero dizer a nossa amiga que Nunca li um texto tao lindo, com tanta ternura...
com tanta simplicidade, inteligência e paixao, sobre qualquer coisa, muito menos sobre HQs!

Bárbara é a "mulher dos sonhos" de todo nerd! rsrs!!

Parabéns mocinha...Parabéns mesmo!

Um abraço.

ah, antes que falem alguma coisa eu sou abstêmio e nao uso drogas

kkkkkkkkkkkkk!!

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