quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Avatar Voz do Além

Onde Vivem os Monstros

 

Se a qualidade de um filme está diretamente relacionada aos sentimentos que ele produz, Onde Vivem os Monstros é um dos melhores filmes já feitos. Ele é como uma dose endorfina misturada com serotonina em forma de filme; felicidade instantânea a 24 quadros por segundo. Em síntese - e correndo o risco de me parecer repetitivo: ele te deixa feliz na hora, mais ou menos como ver a Vivo Verde online no MSN. Ao menos foi o que rolou comigo ao assisti-lo no fim de uma  madrugada. Logicamente eu esperava coisa parecida somente pelo trailer com Wake Up, do Arcade Fire ao fundo, mas ver a confirmação diante de mim foi uma experiência única.

Spike Jonze é o cara por trás dessa história de fantasia. Ele é do tipo diretor-cabeça, com filmes que mais primam pelo apuro visual minimalista e pelos roteiros bem acabados. Seus dois filmes mais conhecidos, Adaptação e Quero Ser John Malkovich, vão por essa linha e se tornaram pequenas pérolas cult. Mas parecia que o destino do sucesso hollywoodiano de Jonze estava por demais atrelado aos roteiros loucos e geniais de Charlie Kaufman, e aqui ele prova que essa é uma inverdade.

Onde Vivem os Monstros (Where the Wild Things Are, no original) exigiu uma dedicação insana de Jonze, consumindo cinco anos da vida dele, tempo esse em que ele passou submerso em transformar em filme cada aspecto do clássico da literatura infantil concebido por Maurice Sendak. Não cheguei a ler o livro (e o Submarino não ajuda, aproveitando o hype e não o colocando em promoção), mas, pelo que me parece, é daquelas obras que toda a criança já leu, levando-a consigo mesmo após estar barbado e reservando seu tempo pra cuidar dos próprios filhos.

É daquelas histórias simples, mas que passam muito mais mensagens pra crianças do que coisas xaropes e recheadas de oba oba, como produções da Disney (mas que fique claro: deixe boa parte das produções da Pixar fora dessa). Pra melhorar, alguns educadores logo trataram de detratar o filme, alegando ser ele por demais negativista, o que poderia prejudicar a percepção de mundo das crianças. Só não entendi o porquê (na verdade entendi: não dê ouvidos a educadores. Ou ao menos conheça os filhos deles antes), já que cada minuto do filme não difere em nada de um dia de brincadeira de uma criança qualquer… OK, talvez somente pelo fato que estamos num mundo habitado por monstros, e não por catarrentos encrenqueiros.

 

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Max é um garoto que possui uma hiperatividade criativa incompreendida, ele é um guri que demanda muita atenção, coisa que nem sempre consegue no mundo adulto. Ele vive com a mãe e a irmã - a primeira tendo alguns encontros amorosos, e a segunda cheias de amigos adolescentes descabeçados. No fim, ele parece deslocado, embora suas familiares o amem. Seu refúgio é sua imaginação, mundos que ele cria. É uma criança normal, não aqueles arquétipos irritantes de crianças-adultas que as novelas da Globo adoram mostrar.

Após uma sucessão de acontecidos envolvendo pequenos erros afetivos de sua mãe e irmã, ele se revolta, sai do controle, sobe na mesa, grita, morde a mãe, e foge de casa. No destino da sua corrida, e devidamente fantasiado de lobo - como você vê na capa-, ele cruza o mar em direção a um lugar quente no meio da tempestade que enfrenta, alcançando um reino cheio de monstros bizarros.

Lá ele se encrenca, e usa a sua imaginação para escapar de ser devorado, se tornando o rei do lugar graças a sua lábia. Sua primeira frase já coroado é histórica, e uma das melhores que já vi num filme. É um berro, que rompe aquele silêncio carregado da ânsia de todos os que estão no lugar: QUE A SELVAGERIA COMECE!!! É o que basta para tirar o bando de monstros deprês da tristeza, os mergulhando na zona lisérgica que é ser criança, onde só se pensa em se divertir e gastar energias acumuladas. Mas, logicamente, ao mesmo tempo que une a todos, os levando a excessos inconsequentes, Max acaba por expor certas facetas dos monstros que eles haviam tentado soterrar.

E com isso surge uma coisa bizarra no filme. Max é o único personagem humano ali naquele mundo - e tem uma atuação brilhante, diga-se de passagem - mas você logo vai estar simpatizando com os monstros, o que é um feito e tanto. Os monstros não são digitais, o que aumenta o fator estou gostando deles da jogada. Eles têm mais presença que os smurfs super desenvolvidos de Avatar - mesmo se tratando de um mundo imaginário criado na cuca de um guri - e isso é fruto de um trabalho intenso de dubladores e gente que vestiu roupas diabolicamente quentes, aliados a efeitos especiais bem utilizados, principalmente nas expressões dos monstrengos. Talvez o que coloque eles num patamar tão elevado de qualidade, seja a facilidade de interação dos monstros com Max, não sendo necessário criar uma overdose visual gerada por computador - mesmo que de excelente qualidade.

O fato de eu gostar das maluquices que esses bonecos fazem, me fez olhar para os lados só para ter certeza que estava sozinho no meu momento Volta à Infância. Onde Vivem os Monstros é justamente isso. Ele é um exemplar de Arte que você coloca num canto secreto juntamente com Chaves, Mario, Os Goonies, Os Impossíveis e todas essas obras atemporais que te devolvem por algum tempo o desejo de ser criança novamente… e isso rola mesmo que você tenha odiado ser criança. Os momentos provocados por Onde Vivem são similares: te fazem esquecer um pouco a correria estressante da vida adulta e te joga naqueles momentos deliciosamente escapistas.

 

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O filme é também carregado de significados. Cada monstro é um aspecto diferente da personalidade de Max. Mas, todos, sem exceção, caminham na busca por aceitação. Os momentos no mundo mágico criado por Max nos fazem entender novamente como é estar na cabeça de um muleque. É simples, não tem os problemas da vida adulta, e é bom, basicamente nos fazendo voltar ao pouco que sobra da nossa essência ao sermos soterrados por uma montanha de trabalho, contas pra pagar e informação inútil - e sim, não sou fã de crianças.

Jonze também não faz por menos e faz um trabalho magnífico. Desde as logos dos estúdios riscadas pelas mãos de crianças logo no início do filme, passando pela abertura frenética mostrando Max correndo atrás de um cão, tudo nos relembra que Jonze é criativo no tratamento visual. Os enquadramentos sempre privilegiam a visão de Max, às vezes diminuto frente aos monstros, às vezes frágil frente aos abusos dos amigos de sua irmã, ou ainda imponente, coroado como rei no meio de uma festa de seres peludos gordos.

Mas, se tem uma coisa que o filme representa, é naturalmente uma explosão de sentimentos. E naturalmente essa abordagem transforma a jornada do reinado de Max numa sucessão de altos e baixos. Se no início tudo é festa, logo depois, mais precisamente durante a construção da Fortaleza Automática, a integração dos monstros começa a desandar. E quanto mais Max deseja uni-los, mais eles parecem separados. E isso é de uma naturalidade extrema, mais ou menos como ver Miss Sunshine rebolando freneticamente no meio de um monte de crianças praticamente falsas.

Alguns detratores meio doentios logo nos trouxeram brilhantes idéias quanto a interpretações do filme. Eles alegam que tudo não passa de uma metáfora para uma política expansionista americana, com Max representando os jovens EUA ganhando o mundo na lábia, enquanto os monstros são outros povos, sendo dominados. Entretanto, os que procuram teorias políticas em tudo quanto é canto, deve ter esquecido do final, daquele momento redentor que coroam tudo, e que invasões ao Iraque não possuem.

A trilha sonora… Ah, a trilha! Devo dizer que esse é o décimo primeiro filme que baixo a trilha sonora, e é uma das mais estranhamente lindas de todas. Primeiramente, ela não segue o modelo básico de trilha sonora, com uma seleção de canções instrumentais ou um apanhando de músicas da moda de bandas iniciantes. O modo encontrado por Jonze pra traduzir musicalmente a pureza dos momentos do filme foi criar a banda Karen O and The Kids. Apesar de ter uma veia trash mais-que-conhecida como vocalista do Yeah Yeah Yeahs, Karen e as crianças disparam músicas que deveriam substituir aquelas chatices que crianças escutam nas escolas primárias. Ouvir o álbum após ver o filme faz exatamente o que toda a trilha deveria fazer: reprojeta o filme na sua mente, com cada música representando um momento marcante. O resultado é lindo, e talvez sua única falha tenha sido não incluir a belíssimo Wake Up, que tornou o trailer a maravilha que é.

 

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Antes do fim, o filme ainda guarda uma certa surpresa. Não, a gente não verá o reino despedaçado por algum vilão insano, até porque o que vale aqui é vermos os resultados da loucura rebelde de uma criança, mas não se surpreenda se chorar nos minutos finais. A corrida após o arrependimento de um dos monstros, bem como os uivos finais após a despedida de Max do reino, foram uma das sequências que mais me fizeram chorar num filme (assistir sozinho ajudou), juntamente com o grito de Liberdade! de Willian Wallace, e o Por Frodo! proferido por Aragorn.

Talvez você não goste do conceito exposto no filme, ou ainda da simplicidade do roteiro onde aparentemente nada acontece. Mas, entender como Max controla seus sentimentos e os usa a seu favor é uma das coisas mais interessantes do cinema fantástico dos últimos anos. Tanto que o filme não chega a ser carregado daquelas sombras dos mundos de Neil Gaiman. Na verdade, ele fica no meio termo, nem sendo assustador como um Coraline, ou abobado como um filme Disney. Mas, o resultado é talvez a maior, a mais pura, e a mais verdadeira experiência cinematográfica acerca de mundos e emoções infantis que você vai ver, ainda mais no mainstream hollywoodiano.

Só não vai gostar quem for um adulto muito amargurado…

 

Where the Wild Things Are (EUA, 2009)

Diretor: Spike Jonze

Duração: 101 min

Nota: 8

9 Comentaram...

cris disse...

nossa, não vejo a hora de ver esse filme. Espero que venha para os cinemas daqui de Manaus olha.
gostei do texto. Me fez ter mais vontade de ver!

@andresinkos disse...

Muito boa a análise! Durante o filme fiquei com a sensação de que aquilo não era novidade. Pensei que fosse por causa da minha expectativa exagerada, ou pelas críticas que li, talvez por causa do trailler longo, mas no final a fixa caiu, "Você já foi criança @andresinkos, porra!"! A partir dai a coisa começou a fluir, fui lembrando de vários sentimentos, das brincadeiras, das sensações, dos medos e foi impossível não soltar um "eu quero ser criança novamente". O filme é uma grande obra, praticamente impossível não se deixar levar pelas lagrimas no final, além da sensação de euforia e felicidade ao ver Max retornando para cada. Filme mais que recomendado para quem um dia já foi criança! :)

Anônimo disse...

Gostei muito da sua crítica. Finalmente achei alguém que entendeu o filme.

Saulo Marx disse...

de hoje q espero esse filme. espera não mata. pq se matasse...

Ciclophael disse...

Nossa sensácional essa crítica, tanto o filme quanto o autor dessa crítica merecem nota 10!
Muito bom mesmo!

Anônimo disse...

Olá,
Leio o Blog à algum tempo, mas nunca fiz nenhum comentário... até agora. E gostaria de tecer um singelo texto, não sobre o filme em si, mas sobre sua brilhante abordagem e o olhar, tão puro e cheio de sentimentos como a estória. O que vale muito de uma recomendação, e é uma recomendação, é a forma como ela é feita, elaborada...
E você me surpreendeu com sua forma simples, porém delicada de formar as correlações necessárias para um bom e único entendimento do filme. Deixo a minha sincera admiração.
Parabéns.

saulo marx disse...

depois de ter assistido o filme concordo com a crítica. e tbm não consegui segurar as lágrimas no fim. no decorrer eu vinha segurando firmemente. vou assisti-lo mais algumas vezes - o q é raro eu fazer.

Anônimo disse...

Gostaria de fazer apenas um omentário. Teu blog é magnífico. Continue assim.

Daiane [VivoVerde] disse...

Peguei ele com o @johalf lá na CParty... seu texto ficou bem legal, quero muito vê-lo...

Bju e... valeu aeh >.<

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