segunda-feira, 16 de maio de 2011

Avatar Diego Jordan

Solar

 

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Solar chegou às minhas mãos como um presente de aniversário. Eu nunca o tinha visto, nem nas prateleiras das livrarias, nem resenhado em algum site, nem em buraco algum, talvez eu não estivesse informado o suficiente, talvez não tivesse acompanhando os lançamentos no país, o que é uma verdade. Admito, eu andava meio relapso com o mundo da literatura. Então, lendo em algum canto descobri que o livro era considerado um dos livros de língua estrangeira mais influentes do ano, ao lado do muito comentado 2666 de Roberto Bolaños. O 2666 estar nesta lista não me foi uma surpresa, talvez pela história que envolveu a própria criação do livro, um escritor à beira da morte que se empenha em escrever sua obra definitiva para garantir o sustento da família. Parece até um livro.

Solar me deixou um pouco surpreso, acho que a própria circunstância, ter chegado às minhas mãos como um livro desconhecido. Quanto ao autor, encontrava-se em algum canto empoeirado da minha memória o nome Ian McEwan, mas até então era um nome que não me representava muita coisa (provavelmente a última declaração deixe muita gente de cabelo em pé, mas a verdade é que eu realmente não o conhecia).

Não li de imediato Solar porque estava atolado de coisas da faculdade para estudar, além disso, eu também estava lendo o terceiro volume das Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell, sendo assim, protelei a leitura por um bom tempo. Feitas as obrigações, terminadas as aventuras de Uhtred Ragnarson, pelo menos momentaneamente, comecei Solar. Mentiras! Antes de me dedicar a ele li os dois volumes de Scott Pilgrim, publicados aqui no Brasil pela Cia. Das Letras, que inclusive é a mesma editora de Solar. Feito isso, deitei de buxo pra cima e coloquei, aberto sobre ele, o livro de Ian McEwan.

Se você procurar por cima do que se trata Solar provavelmente vai encontrar informações sobre um livro que traz como plano de fundo o problema do aquecimento global. Se você tiver o livro em mãos e ler a contracapa e a orelha, conseguirá mensurar um pouco melhor do que se trata o livro, tendo conhecimento da existência de um anti-herói e que ele se encontra às voltas com conflitos amorosos e profissionais, embora seja um Prêmio Nobel de Física. Mas a verdade é que a real noção das coisas só acontece mesmo quando você adentra o livro.

Quando olhei por cima e descobri que falava de aquecimento global sinceramente não me animei. A ideia de um livro que trata sobre aquecimento global não me anima, não se apresentando como um livro de literatura. Primeiro porque não via (e não vejo) a possibilidade de um texto que venha agregar algo novo, não só a questão do aquecimento, mas a todo brado ecológico existente, algo maior do que já se anuncia diariamente: não jogue lixo, não desperdice água, reduza a emissão de gás carbônico, procure fontes de energia renovável, etc. Coisas que para serem executadas não precisam mais do que bom senso, educação e a vontade de algum país de aliviar a sua busca desesperada por crescimento econômico (mesmo o crescimento gerando apenas numerários e não qualidade de vida). O que quase país nenhum, pelo menos não os emergentes e quase todos os graúdos, quer fazer e provavelmente nunca vai querer fazer, mas isso é discussão pra outro post.

O segundo motivo é que se um escritor quisesse transmitir as mensagens acima, não passaria de uma espécie manual de boas maneiras ecológicas, uma coisa que eu imagino como um Paulo Coelho ecológico, algo que eu não considero de qualidade. Meus olhos mais otimistas enxergam uma vida para esse tema nas boas e velhas histórias infantis, aquelas com heróis mirins e todas aquelas coisas de o-homem-é-amigo-dos-animais-não-os-matem que acompanham personagens como Mogli e Tarzam. Se quiser apresentar um pano de fundo científico, talvez uma boa ficção-científica, mas ainda assim não colocaria minha mão no fogo.

 

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Eu não conhecia nenhuma obra de Ian McEwan, e fiz questão de não ler muito sobre ele, me dando ao prazer de descobrir as coisas e ter minhas primeiras impressões plenamente límpidas. Felizmente descobri que a real intensão de McEwan não era o que mencionei nas últimas linhas do parágrafo anterior, mas estavam relacionadas profundamente com o personagem citado lá atrás, e com seus problemas amorosos e trabalhistas, mas em uma proporção que realmente não dava para mensurar. Agora, as coisas começavam a ficar interessantes.

Eu gostaria de iniciar este parágrafo dizendo a seguinte frase: Michael Beard é um escroto. Mas uma frase tão a queima-roupa me tiraria todo o prazer de dissecar um personagem tão forte. Caro leitor, vamos fazer da seguinte maneira, vamos disseca-lo juntos. Se você leu o livro, curta a brincadeira, se você não leu participe com vontade, não vai ser difícil.

Primeiramente, imagine-se sendo um físico. Não um físico qualquer, daqueles que vai se formar e ensinar na primeira escola de ensino médio que aparecer, mas um físico com potencial para ser brilhante, alguém com potencial para realmente fazer diferença no mundo da física e para ser alguém que verdadeiramente fez algo pela humanidade. Sim, pela humanidade! Nos seus primeiros anos de mestrado, que obviamente vieram após a graduação, você começa a estudar as interações entre a luz e a matéria. Você sente que ali existe algo realmente grande e em um ato heróico de esforço, suplantando todo o barulho que faziam os gêmeos recém-nascidos do casal que dividia a casa com você e sua esposa.

Você consegue formular uma teoria que promete mudar a forma como a física vê a interação entre a matéria e a radiação eletromagnética. No meio do percurso para a grande descoberta, sua esposa diz que quer se separar, que não se sente amada, que você não a valoriza e que nem mesmo o sexo é bom; em uma análise bem fria, que você como físico é capaz de fazer tranquilamente, o sexo entre vocês sempre simula um estupro. Mas isso não importa, são os velhos pensamentos feministas dela, quando ela começou com esse papo você já estava quase na sua descoberta, o mundo o aguarda. Ela vai embora, uma lágrima escorre do seu olho e você pensa com um tremendo alívio: Não tenho mais ela pra me encher o saco, posso pesquisar até a hora que eu desejar, da forma como eu quiser, sem ter que me preocupar com ela e todas as suas besteiras feministas.

Você volta para os seus estudos, a teoria é formada e agora vem a grande hora: o reconhecimento. O reconhecimento foi absoluto, nem mesmo você achava que fosse merecer tamanha honraria, mas você a ganhou e merecidamente. Portanto, pela forma como o mundo passa a ver a interação entre a radiação eletromagnética e a matéria, uma contribuição que proporcionará um maior desenvolvimento das energias renováveis, dando ao mundo uma luz no fim do túnel, você leitor, é ganhador do Prêmio Nobel de Física!

Agora, com o peso de um Nobel nas costas, você é referência no mundo da Ciência. As maiores universidades do planeta o querem, mensalmente milhões de palestras lhe são pedidas, prêmios ainda por receber, simplesmente dar a sua presença, mesmo que por pouco tempo, em eventos. Eis a sua nova vida. Mas ainda sobra tempo para o amor, portanto mais uma vez você se casa. Mesmo não sendo um homem bonito, a inteligência lhe confere uma elegância arrebatadora fazendo com que as mulheres frequentemente sintam-se atraídas por você. Fica difícil resistir a tantas mulheres, mesmo casado você conserva alguns casos, digamos, extraconjugais, não que você não goste de sua esposa, mas é que são tantas mulheres.

Bem, mais uma vez você se separa, sua mulher descobriu as outras mulheres e quis se separar. Uma pena! Você dá a ela alguns apartamentos, dinheiro, nada que realmente abale a sua fortuna, que não é muito grande, mas que lhe permite viver bem. Você se casa pela terceira, quarta e quinta vez, todas as esposas descobriram as mulheres com quem você se relacionava ocasionalmente fora do casamento, e todas quiseram se separar. Mulheres, não conseguem entender. Mas a quinta esposa, ela tinha algo especial, ela quis retribuir as inúmeras vezes que você a traiu, e para tanto ela usa o pedreiro que concertou o seu quintal. Como assim se relacionando com o pedreiro? Ela está trocando um Prêmio Nobel por um pedreiro que mal terminou o ensino fundamental? Isso é simplesmente inadmissível! Você tenta e tenta, mas ela é implacável. Todos os dias, no meio da noite você a escuta cruzar a sala, abrir a porta e pegar o carro, sumindo na noite, indo para você sabe onde: para a casa do pedreiro.

Vem a sua cabeça como ela é boa na cama, como ela é fogosa, trinta e cinco anos e um arraso. Inevitavelmente a sua mente viaja até a casa do pedreiro e lá você encontra sua mulher, fogosa, enroscando-se nos músculos retesados e suados do pedreiro. Você tenta se livrar daquela imagem, mas não consegue com facilidade e frequentemente seus pensamentos embarcam nessa viagem, que para você é extremamente nojenta. Sua esposa não pode lhe trocar por um pedreiro.

Esse é o ponto de partida do livro, o que foi mencionado acima não contem nem cinco páginas do livro. Mas permite uma real noção do que se passa na cabeça de Michael Beard. Exatamente dentro da cabeça de Beard é que passamos mais tempo. O livro não é narrado em primeira pessoa, mas McEwan nos puxa a todo instante para os pensamentos do físico, que não se envolve apenas em adultério. Beard se envolve com mortes, roubo de propriedade intelectual, preconceito, mais adultério e um pouco de aborto. A habilidade de McEwan faz com que as paredes da mente da personagem se estreitem cada vez mais, tendo momentos que você pode até sentir-se perto ou possuidor de um daqueles pensamentos.

Outro ponto muito forte é o embasamento científico dado pelo autor, que consegue apresentar a ciência em toda sua grandiosidade e complexidade. Diversas vezes (pra não dizer sempre) usa isso de uma maneira irônica, como uma forma de denunciar toda a arrogância do personagem e mostrar que mesmo com todo aquele conhecimento ele ainda consegue ser estúpido. No fim do livro a cabeça do físico é sufocante, nesse momento o autor nos arrasta de uma maneira sofrida. Não porque foi mal escrito, mas porque a mensagem maior do livro está chegando, porque se não a percebemos até aquelas páginas, agora com a cabeça de Beard jorrando os pensamentos mais imundos e nos sufocando temos que entender: antes de salvar o planeta do aquecimento global, o ser humano tem que salvar a si de sua própria tragédia.

 

Solar

Autor: Ian McEwan

Editora: Cia das Letras

287 págs

Nota: 9

4 Comentaram...

Rose Varela disse...

EI RAPÁ

Vc anda relapso com seus colegas lipídicos também, hein! :P (Entendeu, lipídios, vc é o carboidrato, -mãozinha-, enfim piada besta a parte)

Gostei da resenha, como sempre ;P Passei a gostar de um autor e só enfiei mais 34 livros na conta na frente dos outros, hehehehe

Duzin disse...

Roberto Bolano.
Vc colocou Alberto.
Abraço.

Jordan disse...

Ooopa!

Você tem razão Duzin!

Fail total! Nao sei de onde saiu esse Alberto oO'!
Fica o pedido desculpa pra todo mundo que ler!

Abraço!

R.A.M.P. disse...

Olá,
Queria uma ajudinha... ☺
Meu livro (INUTAOSHI) foi recém lançado e está concorrendo em um concurso literário no site www.clubedeautores.com.br . Para chegar na próxima fase, precisará de muitos votos! Para votar é só acessar a página http://www.clubedeautores.com.br/book/42848--INUTAOSHI clicar em uma medalhinha do canto superior da página e escolher uma nota, de 1 a 5, para a sinopse.
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Desde já, muito Obrigado
Para quem ainda não conhece:
O livro é um romance sobre a sociedade medieval japonesa e está disponível para venda somente pelo site: http://www.clubedeautores.com.br/book/42848--INUTAOSHI . O mesmo pode ser comprado impresso ou no formato digital Ebook (para leitura digital). O Título da obra é “INUTAOSHI - A presa do lobo” e eu registrei o pseudônimo R. A. M. P. (minhas iniciais) como o autor da obra. O preço do livro impresso é R$: 46,00 e do livro digital Ebook é R$: 15,00. Esse livro foi um dos finalistas do Prêmio SESC de Literatura 2009. O mercado editorial brasileiro está longe de ser uma opção para escritores iniciantes e só aposta em obras que apresentam uma tiragem mínima no mercado. Dessa forma, resolvi apostar por conta própria em meu objetivo de conquistar visibilidade.
TRAILER:
http://www.youtube.com/watch?v=BWTIuk2L7cU
SINOPSE:
Durante três anos investi meu tempo e dedicação para a conclusão de um projeto pessoal, até finalmente completar um romance baseado em uma longa pesquisa sobre a civilização medieval japonesa, contextualizado no século XI. Durante minhas pesquisas, encontrei dados históricos sobre alguns personagens com grande força no folclore japonês e decidi utilizá-los misturando suas façanhas com personagens e fatos fictícios, atitude abordada por vários autores premiados que admiro e, para mim, são referências, como: Bernard Cornwell, Conn Iggulden, Willian Napier e Steven Pressfield, dentre tantos outros. Procurando enriquecer o livro, traços da cultura japonesa, que tanto se contrasta com a nossa cultura ocidental, foram utilizados. Nesse mesmo intuito, um glossário com termos japoneses e uma rica nota histórica também estão inclusos.
A nossa aventura se encontra no início do shogunato de Kamakura, a conturbada era medieval japonesa. – A escolha do período Kamakura aconteceu porque nessa época sucedeu a consolidação da política dos samurais e também porque nessa época viveu um dos mais famosos heróis da história nipônica: Minamoto no Yoshitsune. – Após perder toda a sua família de uma forma trágica, Enokami vê sua vida se transformar drasticamente e só encontra na vingança um meio de seguir em frente. Seu inimigo é Yoritomo, chefe do Clã Minamoto e um dos líderes mais poderosos do Japão Medieval. Uma rixa de sangue que só terminará com o julgamento das suas espadas.
Às vezes os fatos históricos são bem mais impressionantes do que a ficção. Durante séculos, em locais e épocas diferentes, grandes guerreiros cometeram atos de bravura e os seus nomes se imortalizaram na história, resistindo ao tempo. Mas, não é só pelo afeto à história que decidi escrever esse livro e sim a minha admiração por qualidades como a coragem, a honra e a perseverança que me incentivou a dedicar infindáveis horas de trabalho para a conclusão dessa obra. Sem querer me alongar nesse texto introdutório, termino minhas palavras e espero que a sua leitura possa ser tão prazerosa quanto foi a minha experiência em escrevê-la.
“O destino é inexorável!”
Atenciosamente:
Robson André Mendes Pacheco

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